
Ela invadiu meu apartamento para me dizer que não me amava mais. Joguei seu corpo no lixo ao lembrar do episódio. Foi um crime por amor, sem pudor, sem remédio.
Corria desesperadamente pelo matagal de Ortiz, localizado a dois quilômetros de casa. O dia estava bonito – céu claro, sol à meia altura –, acima da minha cabeça um monomotor fazia seu trajeto, razante e poético. O piloto era meu vizinho Juemir. Um homem de 40 anos que descobriu a liberdade ao sabor das nuvens. Sempre aos domingos, durante a tarde, ele voava. Para mim, o barulho do motor soava como música. Sempre quis fazer o que Juemir concretizava nos ares: o sentimento de leveza guiado por asas de policarbonato. Decidi voltar, já era hora do almoço e minha mãe se posicionava indignada ao pé do marco da porta de casa sempre em que eu chego três segundos atrasados, sentenciados a partir das onze e meia da manhã. Ao correr, sentia o matagal roçar minhas pernas pálidas de sofrimento, o barulho alucinógeno do monomotor fica para trás, eu deixava minha vida naquele campo para servir de operário dos meus pais.
Voltar a escrever é como voltar a matar, de certa maneira. Passamos horas, dias, semanas, meses sem tocar em nenhuma sílaba, sem proliferar idéias, pensamentos e teorias. Quando regressamos para este mundo literato, literal e barato, sentimos saudade de quando éramos apenas flores imaculadas em marasmo, bordadas em casas vazias, sem cede de vontades, sem sangue de mudanças. Não sei ao certo o que provoca nossos retornos. Este humilde e pobre blog ficou desacompanhado por meses, me tornei ausente por pura e dedicada deselegância. - Resolvi parar, ora. Dar um tempo. Sossegar as palavras. O problema (ou seria a solução?) é que nunca paramos, verdadeiramente, de ditar palavras para papeis ou para programas de computador. Então, é como envenenar a própria mente, fornecer combustível aos anseios de quem tem paixão por criar e, ao cabo de tudo, nos deleitamos e deitamos sob preguiças. Cá estou lutando para me opositar. Carrego tantas personalidades dentro de mim que seria um desumano desperdício não dividi-las com meus personagens. Preciso criar as verdades, comprovar as mentiras, e matar minhas tolices e desleixos por meio desta prática reinventada por tantos e praticadas por poucos. Que seja breve enquanto dure. Que seja eterna enquanto ame.
Abro mão de muita coisa para alcançar o papel que ocupo na sociedade. Inclusive de uma vida pessoal e de um sentido para esse espaço que utilizo sem existir, fruto de um fiel e doloroso autoengano.
Despertei na manhã desta terça-feira desejando ouvir algumas letras que traduzem os nossos momentos, que são levados pela brisa do vento ao mais interior de nossas incertezas. A melodia também é importante, como harmonia que toca com um ínfimo polegar a nossa sensibilidade emocional, nossas raízes, com o nascimento da nostalgia. Tendo o mundo. Tendo a terra. Tendo o sol. Tendo a lua...
Passei por debaixo do viaduto em uma velocidade fora do habitual. O motor do meu carro estava quente. O volante vibrava em minhas mãos. O rádio tocava alguma canção latina. E logo atrás vinha a polícia. Pelo retrovisor percebia que se tratava de uma mulher na viatura. Ela usava óculos escuros, e a sua expressão facial imprimia nervosismo e excitação. Durante os poucos segundos que a vi pelo espelho notei uma rápida e delicada passada de mão no cabelo. Ora, que tipo de mulher alisaria fios capilares em plena perseguição policial? Era loucura, eu só queria persistir na fuga. Pois mirei, novamente, o retrovisor por um breve segundo e... Não podia ser... a jovem policial, ao passo que dirigia, passava batom nos lábios! Isso é uma piada! Que mulher é esta? No instante em que eu me questionava pelos atos irreverentes e incompatíveis da agente, pela adrenalina da situação, vejo meu veículo capotar. Meu crânio se choca incontavelmente com a janela do carro e acabo sendo arremessado para fora do veículo.