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O caos do pensamento...

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010


Dando margem ao nordestino da MPB, Lenine tem me conquistado a cada frame de segundo. A cada dia, a cada noite, a cada luar... A cada rotina ensandecida.

Lenine consegue misturar sentimento e melodia como se fosse uma prosa corriqueira, discursada por qualquer cidadão, feirante, berrante e alucinado pela vida comum e anônima.
Lenine é Lenine. Ele nos trás o caos do pensamento, a sombra do futuro, a sombra do passado, que assombram a paisagem...

Esta humilde canção tem embalado melodias da minha batida, notas da minha vida, arranjos do meu viver.
Eis a letra:

Daqui desse momento
Do meu olhar pra fora
O mundo é só miragem
A sombra do futuro
A sobra do passado
Assombram a paisagem.
Quem vai virar o jogo
E transformar a perda
Em nossa recompensa
Quando eu olhar pro lado
Eu quero estar cercado
Só de quem me interessa.
Às vezes é um instante
A tarde faz silêncio
O vento sopra a meu favor
Às vezes eu pressinto e é como uma saudade
De um tempo que ainda não passou
Me traz o seu sossego
Atrasa o meu relógio
Acalma a minha pressa
Me dá sua palavra
Sussurra em meu ouvido
Só o que me interessa.
A lógica do vento
O caos do pensamento
A paz na solidão
A órbita do tempo
A pausa do retrato
A voz da intuição
A curva do universo
A fórmula do acaso
O alcance da promessa
O salto do desejo
O agora e o infinito
Só o que me interessa.

Redes e Relacionamentos sociais do século XXI

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Ele compra um café, mas só pode pagar em cartão de crédito. Ela não aceita cartão, somente dinheiro. A dívida é anotada em um bloco de papel. Ela solicita algumas informações:

- Qual teu nome?
- Ramirez...
- Ramirez ...?
- Ramirez miakovich.
- Pode soletrar?
- M-I-A-L-C-O-V-I-C-H.
- O.K; E qual teu ramal?
- 1354... não, não, perdão. É 5754. Quer meu telefone também?
- Pode ser.
- 99447748
- Você tem twitter? Nós temos serviço de cobrança instantânea.
- Ah, claro: twitter.com/ramirezmial
- O.k. Obrigada.
- Posso pagar pelo twitter também?
- Depende, tua message page tem débito automático?
- Ainda não, trabalho com crédito.
- Então, lamento.
- O.k. Então vamos fazer o seguinte. Se eu te pagar em dinheiro tu aceitas sair comigo?
- Vejamos... e para onde tu me lavarias?
- Hum... Depende para onde estaria disposta a ir.
- Por quê não tenta advinhar?
- Não sou bom nisso.
- E tu és bom em alguma coisa?
- Quem não experimenta não descobre.
- Me dê um gostinho... o que estarei perdendo?
- Na prática, alguns reais pelo café. Na teoria, uma noite de amor.
- Ual. Você vai direto ao ponto.
- Verbalmente sim.
- O.K. Cowboy, se eu te deixar pagar em crédito tu prometes não me incomodar mais?
- Se tu prometeres sair comigo.
- Eu não vou sair com contigo.
- Tudo por causa da minha dívida?
- Tudo por causa da tua audácia.
- Então eu pago o café em dinheiro.
- Comé?
- Eu disse que pago em dinheiro.
- Mas eu já disse que não vou sair contigo.
- Bom, a gente pode parcelar...
- Aff... você tem o novo orkut?
- Tenho.
- Então me mande o convite para o novo orkut, tá bom? Aí aceito sair contigo. Mas só uma noite. E sem sexo.
- Sem sexo?
- Tu tem carro?
- Sim...
- Então apenas uma noite.
- Combinado.
- Tu me ligas.
- Com certeza.
- Beijos, Cowboy.
- Até mais, gata.

Fidelidade

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Abro mão de muita coisa para alcançar o papel que ocupo na sociedade. Inclusive de uma vida pessoal e de um sentido para esse espaço que utilizo sem existir, fruto de um fiel e doloroso autoengano.

Pobre blog. É quem acaba sofrendo as consequências.

O que vou dizer dos leitores?

Meu silêncio me mantém como um nobre contribuinte fajuto e, minhas escritas, como um ignorante sagaz viril.

Personagens

segunda-feira, 2 de novembro de 2009


De onde escrevo o calor é completamente desconfortável. Sinto algumas gotas de suor escorrer pelo rosto. No espaço acima de mim, as pás do ventilador não dão conta de distribuir a temperatura abaixo do que se espera de um objeto como esse. Então, em meio ao assassinato planetário, cujas conseqüências se ramificam por todo meu corpo – desde a mensagem que permito passar com a vestimenta curta até as condições térmicas do meu organismo – decido voltar a escrever.

Entretanto, não é um momento propício a expressar pensamentos por meio da escrita. Ao menos, quando o calor é escaldante, eu não consigo assentar ordenadamente alguma epístola que anseio sentir ao transmiti-la. Mesmo assim aceito o desafio proposto por mim. Estou trancado em casa há quase 72 horas; lá fora vejo um mundo, apesar de quente, colorido. Apesar de colorido, imundo.

Amanhã dou início a uma nova etapa de minha vida acadêmica, profissional e colorida. É um passo importante que descodifica toda raiz madura e idealista quando se possui 21 anos transcorridos. O martírio do oxigênio sujo dá lugar à nostalgia. O que iremos encarar pela frente? A vida é tão breve, tão misteriosa e tão desbravadora.

Às vezes, ao notar o compasso do cotidiano e expressões faciais levemente interpretadas por atores que me cercam, peco no depósito excessivo de confiança cedido a seres da mesma essência que eu. Eu não aprendo a ser maledicente, o mundo é que me dá suporte para a maledicência; e quando falo em ‘mundo’, me refiro a tudo que o compõe. Toda essa história barata vendida por nós, por deuses e pela ciência. Pregamos-nos para o (in)falível quando não temos respostas na ponta da língua.

De qualquer maneira, continuarei depositando confiança aos mesmos seres. Porque acredito na nossa qualidade de pensamento. Porque ainda creio em nossas capacidades cognitivas enquanto sofremos com as nossas habilitações sociais e naturais. Pois bem, a consciência está aí, e bate à porta de cada um que manifesta desprendimento do comum, do usual, ao que os olhos estão acostumados a enxergar. Esta é apenas uma opinião parcial de quem sente tradicional desespero existencialista, de quem sente muito, mas muito calor. De quem irá sair de casa neste instante para respirar a finitude da nossa poluição.

A nova etapa profissional e acadêmica me cairá bem. Preciso conhecer sabores diferentes dos que já provei. Seja em qualquer meio que me insiro. Só assim poderei provar, ainda que prematuramente, o valor da confiança. Eu não sou maledicente, sou muito mole para isso. Sou repleto de sentimentos e (ir)racionalidades. Eu deveria carregar muralhas dentro de mim. Mas as forças renováveis que transporto de um lado para outro despeitam sonhos e mais sonhos. Muitos eu já alcancei. É uma sensação única sentir o alcance deste sonho. É ficção – partindo do princípio. A realidade é crua e arde em falso. O jeito é reinventar, renovar. Seja uma vida inexplicada, uma confiança quebrada ou um calor desconcertante;

Necessitamos nos reinventar a cada segundo, ou nos renderemos a descompaixões eternas de nossas mentes que jamais perdoaram realistas amargos. É por isso que existe a ficção. E é por isso que temos os nossos próprios personagens.

Tendo a lua

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Despertei na manhã desta terça-feira desejando ouvir algumas letras que traduzem os nossos momentos, que são levados pela brisa do vento ao mais interior de nossas incertezas. A melodia também é importante, como harmonia que toca com um ínfimo polegar a nossa sensibilidade emocional, nossas raízes, com o nascimento da nostalgia. Tendo o mundo. Tendo a terra. Tendo o sol. Tendo a lua...

Eu hoje joguei tanta coisa fora
Eu vi o meu passado passar por mim
Cartas e fotografias gente que foi embora
A casa fica bem melhor assim
O céu de ícaro tem mais poesia que o de galileu
E lendo teus bilhetes, eu penso no que fiz
Querendo ver o mais distante e sem saber voar
Desprezando as asas que você me deu
Tendo a lua, aquela gravidade aonde o homem flutua
Merecia a visita não de militares
Mas de bailarinos
E de você e eu.
Eu hoje joguei tanta coisa fora
E lendo teus bilhetes, eu penso no que fiz
Cartas e fotografias gente que foi embora.
A casa fica bem melhor assim
Tendo a lua, aquela gravidade aonde o homem flutuaMerecia a visita não de militares,
Mas de bailarinos
E de você e eu.
Tendo a lua, aquela gravidade aonde o homem flutua
Merecia a visita não de militares
Mas de bailarinos
E de você e eu.

Consciências de segunda-feira

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Prometi que voltava a postar na coluna, porém nunca pensei que fosse escrever em plena segunda-feira. A chuva (por aqui), uma grande aliada ao sono, à leitura, à persistência de filmes em canais abertos e fechados, me apresenta a realidade escarnecida. Vivo uma das fases mais heterogêneas de minha vida. Uma variação de humor incrível. Alguns desejos animalescos, outras decepções incuráveis que cercam toda espécie de relacionamento. Mas quer saber? Acho que estou sabendo lidar com as circunstâncias que me convém. É o risco que corremos ao saborear as escolhas. Por vezes me impressiono com as mudanças, como elas podem ser tão drásticas e tão sutis no mesmo segundo. A existência está recheada de surpresas agradáveis e desagradáveis. O equilíbrio é uma das chaves que resguarda a nossa natureza saudável, a nossa felicidade utópica e, claro, a nossa razão irracional... Ah, maldita e bendita seja a nossa consciência.

A perseguição da realidade

domingo, 27 de setembro de 2009

Passei por debaixo do viaduto em uma velocidade fora do habitual. O motor do meu carro estava quente. O volante vibrava em minhas mãos. O rádio tocava alguma canção latina. E logo atrás vinha a polícia. Pelo retrovisor percebia que se tratava de uma mulher na viatura. Ela usava óculos escuros, e a sua expressão facial imprimia nervosismo e excitação. Durante os poucos segundos que a vi pelo espelho notei uma rápida e delicada passada de mão no cabelo. Ora, que tipo de mulher alisaria fios capilares em plena perseguição policial? Era loucura, eu só queria persistir na fuga. Pois mirei, novamente, o retrovisor por um breve segundo e... Não podia ser... a jovem policial, ao passo que dirigia, passava batom nos lábios! Isso é uma piada! Que mulher é esta? No instante em que eu me questionava pelos atos irreverentes e incompatíveis da agente, pela adrenalina da situação, vejo meu veículo capotar. Meu crânio se choca incontavelmente com a janela do carro e acabo sendo arremessado para fora do veículo.

Após o acidente, me mantive imóvel, mas consciente. Então o som da sirene começava aguçar o temor da minha morte. O som ficava próximo, um barulho ensurdecedor. Eu não mais sabia onde estava. Com o corpo ensangüentado rente ao solo, vi os sapatos da policial descendo da viatura. A sirene não emitia qualquer ruído e absolutamente tudo ao meu redor encontrava-se quieto. O contato daquele sapato preto de solado puído com o chão representava uma contagem regressiva do meu fim. O bico do sapato já alcançava o meu nariz. Tento olhar em direção da luz e... Deparo-me com o rosto da minha mãe. Da minha mãe...?

Eram sete e quinze.

Minha mãe me desperta e meu corpo transmite sinais de realidade. Tudo havia sido um sonho... E não mais que um sonho... Com típicas cenas irracionais. Apronto-me com devida pressa, saio de casa e, ao dar a primeira passada numa calçada que não me era estranha, em frente à casa de vizinhos que também não me eram alheios... Esbarro com alguém que vestia um uniforme igual ao da policial da minha fantasia noturna. A ondulação do cabelo era idêntica. Os traços do rosto referenciavam a mesma beleza. A cor do batom era inconfundível... Era ela. Era ela. Era ela... que indaga:

- Será que tu vais te lembrar de mim hoje?

Eu lembro.
Eu a beijo.
Eu estava curado... e triste.
Agora, eu era somente o Agusto. Praticamente morto.

O retorno

domingo, 30 de agosto de 2009

Com a chegada de setembro, ergue-se uma nova coluna.
Desta vez eu volto.
Juro.
Aguarde.

As vitaminas

quinta-feira, 25 de junho de 2009


As vitaminas da minha vida saltaram corpo a fora। Corri atrás de algumas delas e só encontrei fantasia e ilusão. Os olhos brilhantes, as mãos pálidas e as pernas trêmulas evidenciaram meu estado de espírito: Eu estava a procura de alguma solidão casamenteira. Ou de algum objeto que eu não enxergasse. Tomei coragem e parei de respirar aquelas dádivas de minhas loucuras. Sentei-me para tomar certos goles de café gelado, e tinha de ser bem gelado... Sem cor, sem ritmo, sem afeição. Vestia uma calça azulada, com desprezo rasgão no local que cede espaço ao meu membro inferior direito. Pensei que aquele furo poderia servir de entrada à felicidade que tanto fugia de minha alma. Chegara a hora de dormir, continuei com a vestimenta rasgada na esperança de acordar no paraíso... Paraíso... Sem religião, sem reformulações exatas... Mal sabia onde me encontrava e agora necessitava de um paraíso. Era muita informação para uma só mente. Eram muitos sentimentos que uma só matéria poderia abrigar. Deveríamos nascer programados... Mas, não. Nascemos com o poder de escolher a dor e os momentâneos sorrisos que desperdiçamos com os prazeres injustificáveis da existência. Agora deitado em meu leito, eu observava e saboreava uma das minhas vitaminas... Ela se aproximava lentamente, carregava astúcia, inteligência emotiva e traços delineadamente femininos. Era ela... Uma mulher. Minha vitamina sem ardor e sem ódio. Julgava ser importante pelo meu pretérito... Pois havia me desprendido do mundo e das gotas insaciáveis de vitórias urbanas. Muitos prédios me cercavam... Muitas luzes me enalteciam... Eu precisava chorar sem ter motivos para derramar lágrimas. Então vem aquela vitamina humana, me tira do leito e tasca-me um beijo. Eu estava cego e envolto de apetite sexual. Aquém disso... Eu suava a derrota dos meus limites.
Eu estava me apaixonando novamente por ela, a vitamina do meu amor.

Ela, a empresa e os humanos

segunda-feira, 22 de junho de 2009

De cabelos vermelhos, pele morena e olhos grandes, ela se aproximava com cautela do calor das minhas vistas. Eu apoiava meu corpo numa dessas vigas finas que alimentam a estrutura dos arranha-céus. Ela passou a dois metros de minha sombra, virou a cabeça e fitou-me por dois, três segundos. Seu rosto era delicado. Sua boca adonava lábios carnudos. E então o paraíso se desfez. Ela retomou o trajeto de casa refutando qualquer chance de diálogo. Noutro dia ela estaria novamente bela, afinando as palavras educadas que dirigia a todos naquela empresa. Menos a mim. Mas noutro dia eu não estaria ali para vê-la. Em 24 horas muitas coisas mudam. Pessoas são demitidas. Pessoas são admitidas. Pessoas choram, lamentam... Pessoas sorriem, enaltecem felicidade. Meu mundo não pertencia àquela mulher. Os nossos conceitos não convergiam para nenhum ponto. Tudo que me preenchia era animalesco. Eu a desejava, com todos os meus instintos. Como todos os homens daquela empresa.

Parei no tempo;

Acabei com o desejo, com a paixão e com o amor. Voltei para minha rotina leviana. Sem mulheres, sem sexo, sem música, sem livros, sem cartas, sem prosas, sem nada. Limitei-me a respirar o oxigênio dos humanos. Chorei ao me despir para a morte, sem nuca ter vivido.