Coluna do Luan

domingo, 3 de agosto de 2008

Sessenta e oito dias de amor

Eu contei. Às dezenove horas e vinte e dois minutos desse domingo completaremos (completamos) sessenta e oito dias juntos. São sessenta e oito dias de amor, paixão, respeito, admiração, confiança... Por mais que o número a seguir soe subjetivo, afinal, na segunda-feira (amanhã) completaremos sessenta e nove. O famoso ‘meia nove’ pode ser erotizado por muitos, mas amado por poucos. Pois bem. O caso é que durante esses sessenta e oito dias eu respirei ares diferentes. Caminhei com algodões sob meus calçados. Senti tua pele, teu corpo, os batimentos do teu coração. Sei de cor os intervalos que teus pulmões exercem no decorrer da tua aspiração. E agora não falo dos sonhos e objetivos nossos. Que um dia foram meus, que um dia foram teus. Refiro-me à tua matéria-prima, a carne que encobre a tua (nossa) alma. Aqui dentro, meu amor, guardo lembranças que me emocionam. Nossas conversas e encontros à beira do lago, teu sorriso, teu olhar, tuas expressões... Há uma muito característica: É quanto tu ficas sem palavras, geralmente por algum ato ‘enobrecido’ por mim. Guardo com riqueza de detalhes as curvas que teu rosto realizou quando avistou as rosas em minhas mãos. Guardo com riqueza de detalhes o olhar com o qual tu me miraste quando entreguei-te aquele objeto que só daria a uma mulher digna de recebe-lo. Tu te emocionaste, tocasse meu braço, e então tua mão escorregou até meu pulso... Naquele momento eu queria sentir era teus lábios. Covardei-me. Adiei para outras horas noturnas a iniciativa do nosso primeiro beijo. Tudo estava perfeito. Um céu, um lago, uma boa música aos ouvidos e uma mulher maravilhosa a minha frente. Conhecer tua essência, meu amor, foi o presente mais pueril que eu pude ganhar na vida. Durante noites eu me perguntava: De onde eu a conheço? Eu digo até hoje: Nós nos reencontramos. Tu sabes, minha diva, o quão feliz me sinto ao acordar pela manhã e saber que em breve verei a pessoa mais bela que pode me completar. Contigo, me sinto seguro, leve, realizado. Hoje, escrevo-te ao sabor da saudade. Não sinto teu calor há quatro dias. Isso faz com que minha matéria idealizada de humana, grite por dentro, chore, e deseje ainda mais o seu complemento: Tu. Passar sessenta e oito dias ao teu lado me ratificou uma certeza da nossa ‘diferença’ perante aos demais. Te pedi em casamento, a tenho como mulher da minha vida, é justo sentir a falta da eterna amada. É justo chorar por ela deitado na cama, em um quarto escuro para renovar o momento. Olho fotos nossas, releio depoimentos, cartas, textos, tudo é tão lindo e profundo. Te desejo cada vez mais, me apaixono a cada mudança de turno. O teu fogo me ascende, mesmo longe, as chamas da fogueira se tornam veementes, justamente pela maneira com a qual ascendemos, há exatos sessenta e oito dias. Obrigado por me tornar único em tua vida...

Eu te amo com todas as forças de nossos universos questionáveis,

Teu eterno Poeta.

sábado, 2 de agosto de 2008

O pistoleiro das causas nobres


Saltei do ônibus com a esperança de poder alcançá-la. Silvana corria feito louca pelo calçadão central e não sabia exatamente onde queria chegar. Naquele momento, tudo que passava por sua cabeça era fugir do monstro que a perseguia. Neste caso, eu. Não precisei alongar meus passos. Durante sua vida inteira, Silvana agiu como uma perdida. Foi assim com Romeu, seu antigo namorado. Lembro-me de Romeu dando-lhe tapas no rosto. Ela gritava. Ele a agredia cada vez mais. A cada sussurro de Silvana, Romeu rebatia com tapas, socos, chutes e o que alegava ter direito. Silvana, mulher submissa, após sofrer as agressões se deitava nua sobre a cama de lençóis rosa e se escarnecia. No fundo, Silvana quisera ser como uma rosa; cheirosa, cheia de brilho, almejada pelos rapazotes que praticavam o ato do romantismo para conquistar a garota amada. Por um segundo, Silvana quis ser uma mulher amada, idolatrada, com um homem à sua altura. Mas em trinta e sete anos, tudo que ela soube administrar foram relacionamentos superficiais.

Conheci Silvana no colegial, era bela, mas com o passar dos anos tornou-se patética. Um rebotalho ambulante. Andava na penumbra. O único homem por quem se apaixonou fora Romeu. Um comerciante barato de olhos azuis e cabelos loiros. Ele tinha uma loja na galeria do parque, vendia instrumentos musicais. E só. Nunca teve perspectiva de vida. Para Romeu, bastava encontrar sua Julieta. Engano seu acreditar que encontraria em Silvana a sua realização pessoal. Encontrou foi um saco de pancadas. Até hoje não compreendo os motivos reais que levaram Romeu a espancar Silvana. Seria um fetiche? Não importa. Nesse instante eu a vejo escorada em uma parede mal acabada do prédio da biblioteca pública, chorando aos prantos. Detesto mulher submissa. Eu não agüentava presenciar aquelas situações de violência doméstica. E agora ela chora por temor. Será que ela sabe o que irei dizer? E como procederei após minhas sentenças verbais? Muito provável. O sexto sentido nunca falha. Foi através de meus pressentimentos que descobri o dia e a hora exata para se livrar de Romeu.

Hoje. Ao ouvir gritos e socos, pressenti. Portei minha pistola semi-automática e fui de encontro ao barulho que me inquietava há dois anos e meio. Arrombei a porta do apartamento vizinho com facilidade, mirei no crânio de Romeu e disparei sem comiseração. Adeus pandemônio. O último estalo que eu ouviria daquele domicílio seria justamente o do calibre de minha pistola se mesclando com a velocidade de minha bala. Acabou. Finalmente. Silvana balbuciou e correu. Nunca vi nada igual, parecia uma velocista. Calmo, eu fui até o ponto de ônibus com a finalidade de alcançá-la. Pela janela do veículo eu sentia o desespero de Silvana. De certo ela pensava o pior. No entanto, eu não gasto uma só bala com mulheres submissas. O ônibus estacionou defronte a biblioteca pública, caminhei lentamente até Silvana que passou a se ajoelhar no chão úmido, encostando sutilmente sua cabeça na mesma parede que sustentava seu leve corpo. Eu me agacho, ela me fita os olhos, eu a beijo, sinto os seus lábios frios de pavor e a mato com uma jogada de mestre. Um simples aperto com meu polegar direito sobre a garganta de Silvana foi o suficiente para tirar o seu ar que já se dividia com minha saliva.

Voltei para casa mais aliviado. Sentei em minha poltrona, liguei o televisor e sintonizei um canal qualquer de filmes. Sabendo que escorado em uma das paredes do prédio da biblioteca pública havia um corpo com minhas digitais. E que no apartamento ao lado, um outro corpo com uma bala procedente de minha pistola, jaz sobre o assoalho. Restava esperar pela polícia. Com o controle do televisor na mão direita e uma xícara de café na esquerda eu pensava: “Que saudade dos amigos da prisão, já não os vejo há dois anos e meio...”

terça-feira, 29 de julho de 2008

As facetas de meu retorno

Foram doze, eu disse doze. Esse é o número de e-mails que recebi durante minha ausência neste espaço tão pessoal que chamo de coluna. Aqui, há um ano, tive meu primeiro ato virtualmente inteligente: a de publicar tudo que, porventura, eu viria a escrever. Durante esse período minha vida passou por inúmeras situações, minha mente evoluiu do ponto de vista existencialista, e eu descobri uma essência ainda mais reservada de mim mesmo. O Luan que há alguns anos era acometido por desilusões sociais e pessoais, hoje se diz mais seguro de si, de suas visões. Mas ainda me deixo levar por devaneios, afinal sou um eterno pensador, um eterno sonhador...

Meus pais viviam dizendo que eu era algum tipo de “ocultista”. Eu me afastava das pessoas e ficava com meus sabores intelectuais da ocasião. Faço isso até hoje, leio escondido, escrevo na escuridão da madrugada. A idéia de ter alguém observando meu ato de escrever me tira do eixo. “Deixe-me só, senhor humano”. Já fui apelidado de autista, nerd, pseudo-intelectual, “quatro-oio”, bigodinho de carroceiro, o feioso, “o pernas-torta”, frangosul e por aí vai... Cada apelido corresponde a certa época de minha existência. Atualmente, cheguei ao estágio de poeta, porto seguro, muchachito... O que muito me orgulha, o que muito me emociona. Há anos procurava por alguém que eu achava não existir. Então me matriculei em uma cadeira chamada “Redação para TV”. Não esperava encontrar a mulher da minha vida ali, sentada na companhia de um amigo fiel e sincero, que também dispões de laços mais do que afetivos comigo.

Pois eu a conheci, e por ela eu escrevo enfrentando multidões. Por ela eu leio em público, recito poemas, compro rosas, crio crônicas sentimentais ao pé de seu ouvido. Com ela possuo uma segurança que faz de qualquer autista um ser sociável. Porque é ela que eu amo. E nesse instante, é por ela que eu escrevo. Não só por mim. Eu estava precisando amar, ser amado, sonhar mais distante com alguém que sonhe tanto quanto. Embora seja realista.

Então abro minha caixa de e-mails e me deparo com doze mensagens vindas de amigos-leitores. Pensei: é hora de voltar. Não gosto de estipular prazos, prometi que voltaria quando me desse vontade, quando minhas inquietações e meus sentimentos precisassem urgentemente de vozes verbais. Cá estão, alinhados em um alfabeto legível, escrito por um humano não-praticante, mas acima de tudo falível. Sujeito à vida.

Amigos e amigas, durante as últimas semanas me dediquei a escrever cartas para minha eterna amada (amor, tu as receberás em breve), a dar início em um projeto literário que há meses não saía da gaveta, a ler exemplares atrasados, e o principal: a refletir. Por isso achei que o melhor seria “sumir” por uns tempos. Agora basta. Obrigado aos que tiveram a paciência de me esperar, um beijo a todos.


L.I.

quinta-feira, 10 de julho de 2008

Elisabeth

O mundo parecia um tribal venezuelano, só faltava o Chávez dependurando em uma pêndula de ouro recitando poemas psudo-socialistas. A tarde estava escura em Caracas quando decidi fazer algo romântico. Comprei um envelope e algumas rosas. A destinatária? Não sei ao certo. Poderia ser a russa que me espreitava através da porta de uma loja de roupas baratas. Ou então, a espanhola exibicionista fã de Karl Marx. Tinha ainda a americana de seios fartos que era fugitiva da gestão Bush. Todas representantes do sex in cash. Dizem por aí que a Colômbia é o país campeão na América do Sul quando o assunto é prostituição. Mas a Venezuela ganha. Nas avenidas oriundas de Caracas se enxerga a demagogia de um governo de princípios ditatoriais, vê-se a ideologia Chavista plantando cenouras de dólares enferrujados nos crânios dos burgueses capitalistas. O dia estava pouco comum com nuvens sobre minha cabeça e prostíbulos ao meu redor. As rosas enfeitavam minha enorme mão, o envelope vazio, metaforicamente buscava uma alma para preenchê-lo. Caminhei alguns metros até encontrar Angenor, saltitante como grilo. Angenor, carioca da gema, pediu-me alguns dólares trocados. Alertei-o que estávamos em território Chavista. Então Angenor lembrou da época em que a Venezuela fora mais pragmática consigo mesma. Lembrou-se de Noelma, a esposa que o abandonou em plena Copacabana. “Ela me deixou na frente de todos, tinha mulher de fio-dental lá”. Angenor sempre foi apaixonado por mulheres que ausentavam vestimentas. Veio parar em Caracas por acaso, tomou o vôo errado e virou cafetão. Esse é o resumo de sua história. Pedi a ele a mais branquinha de todas, “tem que iluminar minha alma”, disse. Angenor havia me prometido uma inglesa de seios moderados, com ares franceses. Veio à Venezuela com fins acadêmicos, estudar o governo, acabou se prostituindo com a morte de seu pai na Inglaterra e com a falta de dinheiro para sair do país cognitivamente socialista. O nome da garota era Elisabeth. Bem original. Acabei cedendo alguns dólares a Angenor em troca de prazer carnal.

Elizabeth falava um péssimo e arranhado espanhol, o sotaque inglês deixava seus lábios ainda mais carnudos. Pedi a ela que se livrasse dos verbos e fizesse o que tinha que ser feito: Sexo. Nada mais. Entreguei o envelope e ela colocou um anel com o se nome gravado. Jogou o envelope no chão e pediu que eu o levasse depois do ato. Durou pouco. Uma hora e meia. Ergui minhas calças como um velho comunista chavão da década de 50. Juntei o envelope e o coloquei no bolso esquerdo de minha calça. Deixei 300 dólares sobre a cômoda e fui embora.

Cheguei em casa cansado, ainda com as rosas e com o envelope. Eu sabia que dentro havia um anel com o nome de Elizabeth escrito. Quando o abri me deparei com os 300 dólares que eu designara a Elisabeth e um bilhete escrito a punho em um deteriorante espanhol, algo como: “No queiro dinero, quiero solamente amor”. Elisabeth havia se declarado a mim como uma donzela sem dono, ao relento. Submetendo-se à maré social. Liguei imediatamente para Angenor e pedi o contado de Elisabeth. Angenor demorou a explicar que ela não tinha telefone, não tinha casa, não tinha nada. Para Angenor, era apenas uma vagina lucrativa.

Sai para caminhar um pouco e refletir sobre as palavras de Elisabeth que não era uma prostituta qualquer, jovem, da alta classe inglesa... Lembrei-me da época em que eu morei em Londres, antes de voltar para o Brasil, havia conhecido uma garota por quem me apaixonei. Não sabia seu nome, mas lembrava de seus olhos, apimentados e grandes. Sedutores. A garota sumiu de minha vida, foi estudar distante de Londres. Voltei ao Rio com o coração partido, minha primeira dor de amor na adolescência. Anos mais tarde eu me mudaria para Caracas, trabalharia de repórter em um jornal local ganhando um salário equivalente a de um diretor de redação no Brasil. Aqui as coisas são mais fáceis. O Chávez complica um pouco, quer nos calar, mas ele no fundo não consegue. Não chega nem perto do que foi a ditadura militar brasileira. Sei, porque estudei. As vidas nos levam a tantos acasos... Agora quanto a Elisabeth é mesmo intrigante.

Surpreendentemente eu a vi, há duas quadras de meu prédio. Ela estava lívida, e com uma expressão incrivelmente boçal disse-me: I love you... Em perfeito e bom inglês britânico. O sotaque era o mesmo que eu havia escutado anos antes, quando residia em Londres. Descobri seu nome. E ela me descobriu. Não veio para pesquisar sobre o governo e sim sobre mim. De como eu vivia minha vida... Caí direitinho no seu golpe de prostituta... Na surpresa eu me entreguei, subimos ao meu apartamento e fizemos amor, sexo é para os fracos. Eu fora um fraco, queria encontrar nas outras o que não havia saciado em Elizabeth anos atrás. A saciei carnalmente sem saber que era ela, agora deveria me entregar de maneira verdadeira. A história poderia acabar aqui com um final feliz, em meio a ardente Venezuela.

Elizabeth tirou de mim todo o ódio que eu tinha quanto ao amor, e me entregou de bandeja sensações que eu não experimentava há anos. Ela sabia do meu labirinto carnal, do qual eu negligenciava, dizendo pertencer a minha essência de mau caráter. Elizabeth me devolveu a inocência que eu havia perdido diante de situações incisas de meu governo e de minha família. Eu era um fugitivo da vida. Elisabeth levou as rosas, as roupas, todo o meu dinheiro, e alguns objetos culturais que eu mantinha em casa. Acordei sem nada, um tostão. Mas o envelope estava ao lado, com os trezentos dólares, o anel e uma carta escrita em bom português. Angenor assentava: “Estou saindo da Venezuela com seu dinheiro e com sua mulher, que, aliás, sempre foi minha”.

Não era a primeira vez. Reconstruí minha vida da mesma forma, e para mim, o envelope continua vazio. Se alma, sem nada.

quarta-feira, 9 de julho de 2008

O semblante

Caminhando pelas ruas e, depois, rodando de ônibus, cheguei a seguinte conclusão: o inferno é aqui. Sim, aqui, ali, acolá. Pois bem. Esqueça tudo que você aprendeu sobre religião, esqueça aquelas velhas histórias para boi dormir contadas no ensino “infanto-fundamental”, sobre a perspectiva de “um Deus criador”. Eu sei que para você leitor crente, de direita religiosa, é difícil delir esse enredo sobre Cristo, cruz, Espírito Santo, Natal, Páscoa, Adão, Eva... A tal cobra. Mas vejamos o lado humano da coisa: o semblante. Essa idéia de que Jesus voltará é teologicamente utópica. Voltar para quê? Para dizer ao Lula que o Fome Zero é um plano magistral? “Olha Lula, vós tirásseis a fome do próximo”. E então aparece o capeta: “Tirásseis a fome com o que sobrais da roubalheira”. E Jesus objeta: “Lula, vós désseis melhorias ao SUS, criásseis o CSS, salvásseis a vida de muitos irmãos”; e o capeta retruca: “A criação do SUS foi jogada política, atíngi uma classe da população e não resolve nada, e o CSS é mais uma forma de arrecadação de impostos com falso cunho social”. A discussão política-econômica entre Jesus e (C)apeta se estenderia infinitamente, até quando não houvesse mais organismos humanos e o mundo fosse dominado pelas baratas atômicas. Metaforicamente, a vida foi criada assim. Em um bate-barba sem persuasão.

Evoluímos de tal modo que hoje nos deparamos com a nossa própria ignorância fazendo malabarismos em sinaleiras e pedindo um trocado para comprar pó. Meu antigo amigo britânico Charles Darwin fora franco desde o início: “O homem ainda traz em sua estrutura física a marca indelével de sua origem primitiva”. Nossas marcas estão espalhadas por todos os lados. Em ruas, motéis, escolas, boates, universidades, empresas, supermercados, shoppings... A marca física e supostamente racional revela a nossa ascendência. O semblante de nossa esfera social é uma só: o caos. A todo instante sofremos com distrações. Eleições, um novo plano de governo, uma moderna tecnologia, nos prendemos ao que temos ao nosso redor, é o pegável, de fácil manejo. Lemos pilhas de livros, estudamos teorias, e esquecemos de ler nossas almas e estudar a nós mesmos. Aí surge a hipocrisia de uma sociedade sem nível algum para julgar o que é certo, o que é errado. O sujeito que pede justiça, protestando defronte ao prédio onde Isabela Nardoni foi assassinada, é o mesmo que joga lixo no chão, que ultrapassa limite de velocidade, que não cede lugar a um idoso no transporte coletivo, que bate no seu filho para educar. E quer cobrar justiça para quê? Se for fazer parte do sistema, que ao menos seja coerente.

Tenho abusado muito de mim nos últimos dias, tenho refletido sobre meu papel incandescente na sociedade. Percebi que somos todos formiguinhas. Os dias tornam-se rotina, o fim de semana uma salvação, o salário uma glória divina mensal, e os gastos uma distração consumista neoliberal. Compramos carros, roupas, bebidas, objetos tecnológicos para quê? Estamos em um mar vermelho de ideologias. Cada cidadão tem a sua. E todos têm a razão. Esse é o problema, não há Deus para o saber popular, ou há até mais de um. O enigma do mundo somos nós humanos. O dia que aprendermos a olhar para o nosso próprio umbigo e agregar algo que nos faça realmente pensar... Já será tarde.

Ah... Esquecer-me-ia de outro fator relevante: o sexo. O apetite sexual pode acabar com uma família, por exemplo. Principalmente se o ‘convívio’ for desestruturado, o que é demasiadamente comum em nosso inferno atual. O sexo é o culpado de tudo. Da traição, da reprodução em massa, da vontade de viver... O sexo foge do campo prazeroso para dar margem ao erotismo exacerbado. Dia desses vi garotas orgulhosas de 12 ou 13 anos desfilando seus seios e bundas pela cidade. Estavam atraindo os machos, aqueles que não fazem uso do cérebro, senão para ativar a testosterona. Esse comportamento prega, mais uma vez, o semblante de nossa coletividade nas costas do papa: “Hey, velho católico, sou uma prostituta, me perdoa?”, “Não, minha filha, isso é muito corriqueiro, Papa só perdoa verdadeiros pecadores”. É... Darwin... É a evolução. Meu radicalismo me enjoa. Preciso tirar férias desse planeta.

PS: Férias com Mi Colibri.

sábado, 5 de julho de 2008

Para o momento...



Quantas coisas eu ainda vou provar?


E quantas vezes para porta eu vou olhar?


Quantos carros nessas ruas vão passar?


Enquanto ela não chegar...


Quantos dias eu ainda vou esperar?


E quantas estrelas eu vou tentar contar?


E quantas luzes na cidade vão se apagar?


Enquanto ela não chegar...



(Roberto Frejat.)

segunda-feira, 23 de junho de 2008

Carta à namorada imaginária

O retorno:

Ok, podem soltar fogos de artifícios, gritar bem alto “Aleluia!”, pois o Luan voltou. Sempre digo em meus retornos aperiódicos que volto para ficar. Tenho que parar de mentir. Volto quando sinto a necessidade voltar. Saio quando sinto a necessidade de sair e dar um tempo para as escritas online. Todos nós passamos por momentos da falta de introspecção virtual. Sentia-me atordoado por acumular atividades acadêmicas junto aos meus pensamentos totalmente fora dos contextos de aula, ou de trabalho alheio. A verdade meus caros amigos, é que tenho passado semanas maravilhosas ao lado de pessoas (leia-se PESSOA) – no singular – inigualáveis(el). Durante toda a minha vida construí ideologias, reflexionei-me em meus apotegmas até que em uma bela noite, um simples ato, fez meu mundo girar incontavelmente 360° graus. Meu mundo tornou-se mais colorido, alegre, radiante, afável, inesquecível. De lá para cá, fiz-me outro. Ou seria eu o mesmo? As respostas para as minhas indagações sejam elas filosóficas ou não, vocês, leitores, poderão conferir a partir de hoje, 23 de junho de 2008. Dia, no qual, os jornais sempre procuram noticiar algo de relevante. Aliás, as manchetes de segunda-feira me amofinam. Veja o meu caso, acordo lerdamente mofino, abro a janela e deixo o sol entrar dando luz à escuridão pretérita. Ligo o rádio, desligo o rádio, ligo a tevê, desligo a tevê, tomo meu café, como torradas, lavo a louça, vou ao banheiro, enfim... Preciso continuar? Mas quando chego aos jornais eu já estou abstêmico. Aquelas doses de notícias mal redigidas por vezes prejudicam meu cérebro pela manhã. Todavia, como todo bom sadomazoquista do dia-dia eu os leio. Leio três jornais pela manhã. Agora não venha me dizer que estarei bem informado lendo essa quantidade de escritos fajutamente noticiosos, isso debateremos (debatemos ou debatíamos) nas aulas de teoria e ética jornalística.

Para começar com chave de ouro, publicarei aqui uma carta que escrevi há mais de oito meses. São palavras que surgem inesperadamente em meio à madrugada. Palavras que precisam ser expressadas, porém, nem sempre publicadas. A “carta à namorada imaginária” foi um reflexo de algumas das minhas muitas noites mal dormidas. Reflexo da briga do meu eu lírico com o meu eu próprio. Quando isso acontece, paro tudo que eu estiver fazendo e me dedico exclusivamente aos meus sentimentos. Assim, acredito ser mais fiel para com a minha alma.

Carta à namorada imaginária
“Não consigo dormir e talvez eu saiba o porquê. Talvez eu tente lhe contar o que eu sempre quis que você soubesse. Lembra daquelas suas sílabas tônicas com as quais designava a mim? São meras perdições. Acredito que sejam perdições por você não existir. Por você não co-existir ao meu lado. Neste exato momento estou sentado em minha cama escrevendo para alguém que eu não conheço e nunca conheci. Perdi-me entre meus pensamentos rebuscados e lutei frivolamente para que eles fizessem algum sentido. Agora são 1h e 5 min da madrugada. Escrevo sem saber o meu real motivo. Há várias noites que passo acordado tentando decifrar meus sentidos atônitos. Minha linha de raciocínio segue sempre a mesma composição. Deste modo, até posso estar sendo sincero comigo mesmo, no entanto, sou acometido por desilusões surreais. Faço parte de uma tribo, talvez de uma seita. Isso mesmo, uma seita. E nem preciso de crenças para incentivar o que tenho de mais obscuro. Escrevo-lhe com os nervos a flor da pele, com as emoções irradiáveis, com meu corpo trêmulo só para enxergar-lhe. Seja em sonhos, seja em vida, seja em destilações procedentes de um desejo amargo. A minha ira já se diz dócil e meu amor pelas conquistas reais virou ambíguo. Sigo tendências ultrapassadas para provar-lhe do que eu sou capaz. Pois sou capaz de amar sem ao menos tê-la em minha vida. É até tem sido prazeroso assim, imaginado de como você pode ser perfeita para mim. Mas apenas imaginando. Sem obturações concretas. Minha sede é saciada por você ser minha criação. Eu não quero ser Deus. Longe disso, muito longe disso. Eu, francamente, só queria que você existisse. Por mais prazerosa que pareça ser minha situação atual, até na minha própria imaginação você me machuca. É justamente por isso que você se torna perfeita. Dentro de minha teoria, eu sou apenas você.”

quarta-feira, 4 de junho de 2008

Almas siamesas

Naquele dia e, posteriormente, naquela noite, onde o mundo inteiro ao nosso redor transformara-se em acaso... Naquele instante terreno, dócil, sutil, audacioso, auspicioso e hostil, fomos felizes. Somos felizes. Encostar minha cabeça ao teu peito me consome palavras. Sinto tua respiração levantar o tronco de meu corpo e depois desce-lo suavemente... É óbvio que esses movimentos impulsivos vivem a se repetir, na medida em que eu vivo a te sentir. Aliás, assim é minha existência agora. Co-existir ao teu olhar... Ao teu cheiro... Ao teu empirismo carnal. Como te admiro. Como te idolatro. És minha diva, minha amante, minha ouvinte para todas as horas... És minha mulher. Amo da forma como és. A única mutalidade na qual aceito e me torno acessível é da demasia infinita do nosso amor, de nossa paixão. Pois bem, que aumente cada vez mais. Que se exploda em gritos, em sussurros, em beijos molhados, em bel-prazeres...
Ah, minha pérola... Lembrei das batidas de teu coração... Eu poderia contá-las... Um, dois; três, quatro; cinco, seis; sete, oito... Estar ao teu lado é como estar flutuando incessantemente em nuvens de algodão doce... É como cantar no infinito celestial sem nunca desafinar uma só nota... É como correr sem cansar... Beber água e não sentir sede por saber que nossos momentos saciam todos os sentidos sumariamente humanos. Mas não saciam nossos desejos cotidianos dos quais nossas almas são quem carecem da presença física... Que ironia... Almas... Seriam as nossas siamesas? Uma pertence à outra. A outra pertence a uma. Juntas são completas. Separadas, causam a sensação de conforto espiritual, mas no fundo haveria uma busca por idealismo romanticamente inteligente, humorado, divertido, incomum e desvirtualizado. Alguém que te dê valor, confiança, fidelidade, amor maduro e verdadeiro. Sem as omnipotências atuais. Há momentos que tenho medo poder. O quão fortes e imortais somos? Não importa... No segundo em que finalizo esse texto, só penso em tê-la. Neste presente, por exemplo, trocarei de roupa, me prepararei para dormir após a nossa leitura compartilhada e talvez escute uma ou outra música. Eu poderia (e quero) morde-la, aperta-la, amá-la. Onde tu estás? Há na minha cama um lugar vago que só tu podes ocupar. Só tu podes ficar ao meu calor. Sem ti, prefiro voltar à solidão, ao celibato. Todavia, muito me satisfaz nossa existência colorida. Deixemos nosso preto-e-branco no passado. Pare. Venhas até mim e me tenhas... Faça o que quiseres, o que almejares... Só não me abandone... Não esqueça de que as Almas siamesas nascem juntas... Só as separam quem desconhece a raridade que isto é. Ora, desfrutemos, então. Porque depois, só nos restará a morte.

domingo, 1 de junho de 2008

Há uma explicação

Amigos-colegas-leitores, no momento enfrento problemas de conexão para o mundo virtual, mas nunca, nunca estou com ausência de texto. O máximo que pode me ocorrer são férias de publicação, jamais de criação. Quem me conhece sabe que minha mente está em constante movimento intelectual. Esses dias mesmo eu elaborei uma teoria do efeito borboleta, com aspirações científico-humanas. Detalhe: elaborei dentro do ônibus que ia para a faculdade. Adoro os ônibus. Eles são lotados, diálogos adversos, pensamentos curiosos nos cerca dentre os bancos que os seres julgados racionais ocupam para se locomover. Por tanto, meus caros, peço desculpas a ausência temporal que tenho causado nos blogs de vocês. Em breve todos saberão de minhas (novas) teorias.

Obrigado também a todos que visitaram e se viciaram no blog de minha eterna companheira Raquel Piegas. Notei que muito dos meus leitores passaram a ler o “Pimenta da boa”. Se deliciem, essa mulher é fantástica. O link está na minha lista de “Recomendo”.

Um abraço sincero,

L.I

sexta-feira, 30 de maio de 2008

Palavras

"Estou tão feliz que dá vontade de chorar".
Fiquei pensando nisso.
Ponderei, como sempre faço...
Palavras, palavras... Onde as estão quando eu as mais preciso?
Todas elas se transformaram em sentimento.
É a única explicação que aceito.
Por saber que és a verdadeira.
Minhas palavras estão em teu pensamento, em teus sonhos, em tua alma...
Minhas palavras estão nos teus olhos...
Nos teus lábios, no teu sorriso, na curva formosial do teu rosto....
Minhas palavras estão em ti por inteira. São verbos, adjetivos, conjunções, preposições, substantivos...
Representam momentos irrepresentáveis...
Minhas palavras estão no teu intelecto, no teu tato, na tua pele, no teu cheiro...
Quem sabe nos teus arrepios?
Nos pêlos que tanto adoro...

Sei de tudo isso por que recebo tuas palavras em todos os membros do meu corpo...
Recebo-as da forma mais natural possível... Daí o vício estonteante...

Veja só você, finalmente descobrimos o rumo de nossas palavras.
Jamais podemos dizer que elas nos faltam...
Simplesmente porque as deixamos no nosso último beijo que continha vogais e consoantes escrevendo....

... Deixemos para o próximo beijo.
Quero mais palavras para que possamos escrever uma frase, depois um texto, um livro.
Por que não, uma biblioteca infinita...