Coluna do Luan

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terça-feira, 27 de dezembro de 2011

O sabor das diferenças

Se pararmos para refletir um pouco sobre como levamos nossas vidas, logo eclodirão estereótipos, estatísticas e probabilidades de perfis com base nos preceitos morais da sociedade. Ou, simplesmente, a utilização desses preceitos para pregar que determinado "nível" depende exclusivamente dos seus gostos pessoais.

Acho que estou cansado disso.

Essa ideia de ser perfeito demais, ou de assumir um perfil/personagem com base nas escolhas pessoais, ter que se policiar para não ser julgado, ter a necessidade de se identificar com algum grupo e/ou classe, só nos torna mais ridículos, egoístas e perversos ignorantes. Evoluir também significa lidar com as diferenças. É saber agregar parte daquele sabor, que julga oposto de si, à sua alma, sem julgar as escolhas do próximo. É ser compreensivo e tolerante. Se permitir aprender com as coisas mais humildes, populares e que, aparentemente, para você, não contenha filosofia alguma.

Quando nos dermos conta que a filosofia mora no conjunto dos elementos que interagimos, abriremos mão de julgar o que presta do que não presta, culturalmente falando. As pessoas possuem o direito de serem tocadas pela canção mais simples, de letra menos expressiva, com as melodias que permeiam o batuque da swingueira ao rock clássico.

Quem somos nós, pobres mortais, para julgar o que determinada pessoa deve sentir, ouvir, gostar e fazer? Somos, não raro, oportunistas de perfis, singelos ditadores de classificações sociais. Não, definitivamente não, isso está errado! E isto quer dizer que nada impede a um indivíduo escutar Leandro & Leonardo a ler Jean Paul Sartre. (por mais desconexo que possa parecer ao leitor) Contudo, temos a incrível mania de associar e alinhar gostos de leitura com predileções musicais, com a forma na qual nos vestimos, etc. Sei bem que estes minuciosos detalhes contemplam nossa heterogênia camada de comunicação não-verbal. Mas por que ser enquadrado a um perfil? Por que ter tudo tão bem delineado?

Ao passo que alguns especialistas em comportamento humano possam alegar que esta seria uma forma de coerência comportamental, vejo que, ao acreditarmos que tenhamos que ser assim, que temos que ser coerentes com gostos ao modo de nosso julgar, excluímos de nossos vínculos, pessoas com almas incríveis, puras, raras e que podem nos ensinar a viver em um mundo mais harmonioso. Acreditamos tanto, que nossos amigos e namorados só podem pertencer a casta X ou Y.

Isso, na minha opinião, é uma enorme besteira existencial. Quanto tempo dedicamos à construção desse perfil? Com quantas pessoas deixamos de nos relacionar? Quantas felicidades passaram pelas nossas portas fechadas? Por outro lado, não quer dizer que você tenha que ser eclético, mas que tal experimentar um novo olhar? Que tal se desprender de dogmas e conceitos pré-fabricados e começar a sorrir? Só porque, estatisticamente falando, as pessoas que dançam em baile funk podem ser enquadradas como prostitutas e portadores de um cérebro do tamanho de uma azeitona – ou, ainda, aqueles que gostam de pagode serem enquadrados como papagaios cantantes com eternas dores de amor – não quer dizer que os sejam, e nada impede de simplesmente compartilharmos essa realidade. Pois, a você, que se diz filósofo, poético e amante das coisas de alto nível, fugir e ignorar esta realidade é o caminho mais fácil. Por que não treinar seu olhar e aprender como ser humano? O "alto nível" é relativo. A vida é relativa. A vida, meu caro, é maior que as diferenças.

Logo, você não precisa, definitivamente, ser como as outras pessoas. Você só precisa ser quem você é, e aprender com as mais diferentes realidades, para não chegar no fim da vida como um velho rabugento, preconceituoso, limitado, infeliz e solitário.

Chega de perfis construídos. Cante axé num dia. Toque rock noutro. Vá ao shopping de chinelo. Converse com todo tipo de pessoa – inclusive com mendigos, pois eles costumam ser menos perigosos que a sua consciência, e não deixe de evoluir. Se liberte de rótulos e respire. Pois, nem o mais sensato, racional e inteligente pensador, está livre de limitações e preconceitos sociais.

Ao aplicarmos o amor em pessoas que julgamos diferentes de nós mesmos, encontraremos semelhanças incríveis – não porque o amor deixa-nos cegos, mas porque permitiremos que um outro ser humano, com virtudes e defeitos, nos ensine a interagir no seu universo, enquanto ensinaremos a esta mesma pessoa a interagir no nosso. Isso se chama compartilhar, aprender, amadurecer visões de mundo e... evoluir.

Boa sorte a todos.

Que em 2012 as diferenças não sejam motivos para separações.

E que celebremos a vida.

P.S.: Funkeiros e pagodeiros, não levem para o lado pessoal.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Deixar para amanhã

Não raro, você se pergunta: o que faço para que o meu dia seja especial a cada 24 horas? Em quem eu penso? O que eu lembro? A quem devo dizer "te amo" quando sinto e não digo? Quantos abraços eu dou? Por quantas vezes eu sorrio? E em meio a todas as essas indagações emerge a pergunta-chefe da vida: por quantas vezes eu realmente sou feliz?

Entendo que o nosso presente é valioso demais para ser adiado. Ou simplesmente vivemos, ou simplesmente adiamos, ou simplesmente descartamos. E quando esse presente vira pretérito não há mais nada o que reescrever. É como uma obra finalizada. Completa ou incompleta, um dia, ela teve um fim.

Às vezes é difícil de aceitar. Mas quem disse que a realidade é um mar de rosas? Ao cabo de tudo, a dialética da vida só nos permite fazer com que o nosso presente não tenha a mesma morte que o nosso passado. E assim segue a orquestra da existência.

É duro envelhecer, amadurecer, escolher. Por ironia do universo, a vida é cíclica. O mundo é cíclico. Os sentimentos são cíclicos. Daí nasce a palavra “felizmente”, em detrimento de outra palavra chamada “revigoração”. Se tudo que for vivido no presente se revigorar, se renovar, é possível que você tenha a felicidade como eterna vizinha, a quem você poderá não apenas pedir açúcar, mas toda a confeitaria que adoça o sabor dos momentos de uma relação. Por outro lado, se tudo que você viver cair na roda cíclica da vida, deixando a dor assolar sua consciência sem margem à etapa da renovação, você terá a felicidade a certa distância. O pior é que levará tempo para que ela se torne sua vizinha novamente. Dói muito encontrar a doçura da vida somente no pretérito. Precisamos, então, começar do zero, mais uma vez.

Que fique bem claro, aqui, que faz parte da vida todo o processo ter um início um meio e um fim. A diferença é que você pode recomeçar com a mesma pessoa ou morrer com ela. E quando surge uma nova história, depois de morto, você tem a escolha de ser um fantasma desacreditado no amor, vagando nas incertezas da vida, ou uma nova pessoa, como novos motivos para sorrir.

O grande desafio do nosso cotidiano é fazer com o que as coisas durem o máximo de tempo possível, não esquecendo dos esforços (de ambos os lados) aplicados para que isso ocorra. Entendo que a única maneira do amor andar de mãos dadas com a “eternidade”, em uma só relação, é os dois saberem reinventar o próprio sentimento. Bem-vindo ao grande repto da vida. Enquanto uma parte da engrenagem do amor falhar – se é que se pode dizer que ele falha, caberá sempre escrever um novo livro, com outra pessoa.

Agora, cuide bem desta obra. Escreva diariamente. Deixe as palavras nas linhas do infinito. Valorize esta nova oportunidade. Você não precisa deixar tudo para amanhã. Você nunca precisa deixar para amanhã.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Boa noite, Janela.

Às vezes acredito que o mundo lá fora não passa de um recorte previsto pela minha janela. Daqui, de onde escrevo, escuto dezenas de sons. Acho que são centenas. Não, não. Minto. São milhares. Há tantos ruídos que flutuam ao ar do despercebido. Afinal, torna-se mais fácil viver quando não escutamos e, muito menos, enxergamos tudo que pode nos fazer mal. Se assim fosse, enlouqueceríamos do dia para noite. Então, penso: Quem foi o autor da ditadura cuja sentença determina que loucura não seja saudável? Por que não palpitar o coração e os pensamentos sobre o que se passa bem aqui, no bascular da nossa face? Esforço-me um pouco mais, estico minhas pálpebras para dar chance ao globo ocular e, por fim, vejo poucos e poluentes veículos. Alguns coletivos... Outros particulares... Há aqueles mais informais, de tração animal. Inclino meu corpo, movimento minha cadeira de rodinhas quebradas, arranho por mais alguns centímetros o piso de madeira do meu quarto e chego ao vidro embaçado. E não era pela minha respiração. Creio que se tratam de observadores não observados. Na medida em que trafegam fornecem uma fiel e breve fitada ao meu vidro, e continuam o seu caminho. São centenas de veículos diariamente. Como posso prestar atenção a cada gesto? A cada rosto amargo, a cada olhar perdido, a cada raio de luz absoluto e soberano de nossas almas? São dúvidas que pairam na janela do meu quarto. Consigo ler alguns questionamentos. Poxa! São tantos idiomas... Levo tempo para traduzir palavra por palavra. A chuva surge. O vento lava. As gotas evaporam e eu recomeço a minha busca incessante pelo significado infinito da minha janela. No horizonte, vejo faróis no raiar da noite. Mais e mais veículos para observar... Está na hora de dormir... Acho que no fim é isto: tão somente pela incerteza do amanhã; é por ela que nos permitimos sonhar.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

O diálogo da mente



SUBCONSCIENTE: Você se faz importante para mim.

CONSCIENTE: E como posso sentir saudades?

SUBCONSCIENTE: Ora, você me revoluciona a cada pensamento.

CONSCIENTE: E... Não importa o conteúdo ou a forma do pensamento?

SUBCONSCIENTE: E pensamento lá tem forma? Preste atenção: Uma vez que você esteja na alma de alguém, o pensamento, pobre mortal como você, apenas obedecerá o fluxo...

CONSCIENTE: Entendo... Talvez seja assim que os sentimentos emergem, não é?

SUBCONSCIENTE: Tal como a justificativa de todo este diálogo para ela...

CONSCIENTE: Ela? Que ela?

SUBCONSCIENTE: Você sabe de quem estou falando...

CONSCIENTE: Aquela cujo sorriso nunca perderá o brilho?

SUBCONSCIENTE: A própria. Afinal, ela chegou até mim. Esqueceu?

CONSCIENTE: Como posso lembrar se você é o meu subconsciente?

SUBCONSCIENTE: Por que você não tenta fechar os olhos?

CONSCIENTE - De olhos cerrados: Ual...

SUBCONSCIENTE: Que foi? Que foi?

CONSCIENTE: Ela é potencialmente linda.

SUBCONSCIENTE: Não me venha com superficialidades, mocinho. Não me decepcione!

CONSCIENTE: Dá para parar com o escândalo? Você sabe do que estou falando: É da luz natural dela. Do brilho da pessoa, da personalidade. Da beleza da alma.

SUBCONSCIENTE: Você não está tentando me enganar, não é?

CONSCIENTE: E algum dia eu conseguiria?

SUBCONSCIENTE: Tem razão. Eu acredito em você. Ela é linda dos pés a cabeça.

CONSCIENTE: Não, é da cabeça aos pés.

SUBCONSCIENTE: A ordem realmente importa agora?

CONSCIENTE: É claro que não. Estou tentando lhe enrolar.

SUBCONSCIENTE: Eu sou teu sub, não pode me enrolar.

CONSCIENTE: Então por que você não me diz o que devo fazer?

SUBCONSCIENTE: Com relação a ela? Bom... Pode ser você mesmo. Vocês estão mais próximos do que imaginam.

CONSCIENTE: Talvez seja pela luz dela.

SUBCONSCIENTE: A luz dela apenas procura a sua.

CONSCIENTE: É, eu a encontro em meus sonhos.

SUBCONSCIENTE: Você só pode sonhar com ela porque ela é real.

CONSCIENTE: Chega. Deixe-me acordar para encontrá-la.

SUBCONSCIENTE: Finalmente. Mas não esqueça, eu sigo as ondas das tuas vibrações emocionais. Faça tudo isso valer a pena.

CONSCIENTE: Engraçado você me dizer isso. Eu não estaria aqui se tudo isso não valesse a pena.

SUBSCOSCIENTE: Está certo. Você já está me enlouquecendo. Apenas diga a ela o que sente, e tudo ficará bem. Boa sorte.

CONSCIENTE: Obrigado. Até a noite.

SUBCONSCIENTE: Até qualquer hora, amigo.

Uma madrugada e meia depois:

ELE - Surpreso e feliz: Nossa... Seu sorriso nunca perde o brilho mesmo, não é?

ELA - Tímida e feliz: Você... já não me disse isso em seus sonhos?

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Há dois anos

Agora são duas e cinqüenta e um da manhã. Não consigo me lembrar da última vez que tive um sono extremamente saudável. Creio que deve ter sido há cerca de dois anos. Pois nesses pares de anos eu via o mundo sobre um oceano de flores. Nesse período meu coração batia vitalmente. Hoje, entretanto, às vezes, no auge dos meus 23, sinto como se ele fosse parar a qualquer momento. Talvez isso me tire a fantasia da madrugada e faça com que eu sinta os prazeres da cama somente depois das cinco da manhã. Embora eu me esforce evitando açúcar, cafés e leves cochilos durante o dia, eu não obtenho a concentração necessária para um sono regado a felicidade. Se conheço bem este Luan Iglesias que vos escreve, ele enfrenta mais uma de suas fantasiosas e justificadas crises existenciais.

Existe um fato marcante que me acometeu em meados de 2009. Pela primeira vez, eu senti que o amor não era inteiramente bondoso. Pela primeira vez, com os meus então 21 anos, eu senti uma ardência tão descomunal no peito que, por um segundo, achei que fosse uma depressão acentuada e provocada por uma ilusão da vida. A mulher que eu amava fugiu dos meus planos. E eu, que colocava as mãos no fogo por ela, demorei a entender que vivíamos uma relação de mentiras e projeções. Os sentimentos até eram reais, mas não posso crer que fomos sinceros para com outro. Então, após o término, só me recordo de ter notado um corte de cabelo diferente moldando o rosto dela. Poucas palavras. Nenhum abraço. Nenhum sorriso. Muitas dúvidas pairando no ar. Ela apareceu após quase dois meses, e já estava entregue à pele e aos lábios de outro. No início eu achei que tivesse sido o trouxa da história, como corrriqueiramente o fui na época do meu primeiro grau. Depois, tomei por conta que assumi a posição de um rebelde romântico, fazendo jus às minhas ações mantidas no pretérito do meu Ensino Médio. Àquela circunstância eu estava na faculdade, enfrentava as questões filosóficas presentes na metade do curso e, surpreendentemente, consegui superar o amor mal acabado na presença daquela que me fez feliz. Estagiávamos no mesmo ambiente: Quase lado a lado. Eu a consolava, era testemunha das lágrimas que ela derrubava sobre a pele amarga de pesadelos, por outro homem. Que tipo de pessoa eu era? Penso.

Esquecer um amor na presença do próprio amor é um desafio e tanto para quem tem 21 anos recém completados, para quem havia voltado da França após 31 dias de reflexões, com esperanças nos bolsos da calça de pijama. A vida se reabriu para mim poucos meses depois. Conheci novos amigos, outras mulheres de diferentes idades e entendi que a nossa condição humana e de relações sociais – sejam elas de qualquer espécie, não é de infinitude. É duro aceitar tal fato. Entretanto, a realidade martela aos olhos de quem está disposto a enxergar. Por nenhum momento me tornei cético ao amor. Amei e amo. Me apaixono por almas livres e pensantes e, ainda assim, não creio que tudo isso seja infinito. Quando 2009 começou eu tive a primeira prova de que não viveria para sempre. E que cada relação, cada experiência, cada palavra e/ou frase pronunciada deu forma a dialética existencial. É tão difícil responder a todas as inquietações que emergem em nossa a consciência... Se o mundo é feito de perguntas, onde estão as respostas?

Há dois anos eu acreditava, sumariamente, saber de tudo. Tinha a solução e, no mínimo, a equação para todos os problemas que orbitavam o planeta. Eu era um utopista dos mais baratos. Quando a queda me despertou, eu compreendi que podia e posso amar outras pessoas e me libertar dos conceitos fabricados pela sociedade moderna. Pois bem: me libertei. Voei alto, pousei. Alcei vôo novamente, aterrisei. Chorei. Sorri. Descobri novos rumos, novas decepções, novas alegrias, novas dúvidas, novos rostos cujos cortes de cabelo me fazem sonhar com os pés no chão. Então, por que a crise existencial senão para voltar ao blog e dizer a você, leitor(a), que não posso evoluir sem expressar o que me sufoca? E, afinal, o que me sufoca? A ausência da minha literatura ou a ausência do meu sono? É soma dos catetos que é igual ao quadrado da hipotenusa.

Eu voltei.

Há dois anos todas as cores mudaram para mim. Há dois anos eu me transformei na velocidade da luz na busca por felicidade. Deu certo.

Eu sou feliz.

Sou um sonhador.

Um errante da natureza, que se julga finito sob as condições humanas. Contudo, também sou contraditório ao afirmar que as lembranças, quando penetradas na alma, se tornam imensuráveis. As pessoas e tudo que as cercam são feitas de lembranças, memórias. Daí a infinitude.

Há dois anos eu me tornei infinito.

Posso dormir, enfim, só.

Boa noite

Aos infinitos que amam sem cessar sonhos.

sábado, 25 de dezembro de 2010

O nascimento

Sentados, à beira do rio, ele, vagarosamente, estende sua mão ao encontro dos dedos dela. Ela, timidamente, retira o jeito e parece refutar toda e qualquer chance de relacionamento. Ele, então, volta a tentá-la. A fita por alguns segundos; almeja enxergar seus olhos, a verdade escondida por detrás daquela face linda, de traços prósperos. Logo, a pela facial dela, lisa e macia como o aroma praiano, deixa escapar um olhar afetuoso. Ele aproxima os lábios da boca preterida, e ela vira o rosto. Ele balbucia a pergunta:

- O que eu faço quando... bem, quando... Os teus olhos dizem sim e os teus lábios dizem não?

Ela espera o sabor do vento à beira do rio guiar o tom da conversa, e responde:

- Acho que você deve apenas seguir seu instinto...

Ele agora a vê com os lábios semi-derretidos, com olhar sério, profundo. Tudo havia mudado. Inclusive a pergunta:

- E... o que faço quando os teus lábios dizem sim e... Os teus olhos dizem não?

Agora eles estão a poucos centímetros do beijo...

- Bom... Neste caso, você deve apenas me amar.

Que não acontece.

Eles se tornam proximamente distantes. Ambos fitam a água suja do rio. Como se o cenário externo ajudasse a direcionar perguntas e respostas. Como se somente ele perguntasse. Como se somente ela respondesse...

- E como nasce o amor?

- Ele nasce da mesma forma que termina.

- E como termina um amor?

- Da mesma forma que começa.

- Então... O amor...

- O amor é...

- O amor é isso.

- O amor é isso.

- O amor não requer perguntas?

- E tampouco respostas...

Eles se miram. Ele volta a indagar:

- Por que estamos aqui?

- O amor precisa da solidão para nascer...

- E de encontros para acontecer.

O Beijo acontece. Eles se abraçam. O vento sopra mais forte. O clima traz um ar gelado... Ambos se arrepiam até afastarem os lábios. A consciência desperta:

- E como será que nasceu Deus?

Feliz Natal

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Sexo neoliberal

Morder, molestar, beliscar a pele; sussurrar ao pé do ouvido; gritar, gemer, revirar os olhos; fechar pálpebras, abrir pálpebras, mascarar-se com expressões de prazer; deixar a boca aberta, sentir os lábios (sejam quais forem) sendo sugados pela língua; apanhar, bater, suspirar, arrepiar-se e gozar. O sexo proporciona, na criatura humana, um turbilhão de sentidos, sensações, palpitações. No ato, a mente pode voar, ou não. Mas quando voa... Tende a se libertar de todas as convenções sociais; o sujeito se rende à essência de animal. No lugar dos uivos (sinceros), palavrões, ou palavras doces. O ritmo, a freqüência, a dose quase que homeopática do ritual animalesco segue a ordem da natureza de cada homem, de cada mulher.

Não é difícil imaginar atos primitivos como certa espécie de fuga. Afinal, nós, sacerdotes da sociedade da indústria, assumimos, em inúmeras ocasiões da vida, um valor venal. Tornamo-nos produtos para outros produtos. São embalagens distintas, porém encapsulam a mesma sacola, o mesmo cesto. Então, ao enxergamos quatro paredes, nos revelamos semi-completos. A matemática é simples: No cotidiano, criamo-nos mediante as situações impostas. Portanto, nos revelamos a título personal o equivalente a 1/3. No sexo, na intimidade, ou em qualquer outro momento que nos julgamos à vontade, mostramo-nos em 2/3. O olhar observador, embora apaixonante, sedutor, excitante, amigável, não permitirá que sejamos 3/3 do que somos, a não ser que estejamos sozinhos, entre as iguais quatro paredes.

Penso que o sexo, ao passo que ritualiza emoções, signos e linguagens, nos confunde para a nossa liberdade conceitual. Quando há sexo desprendido, ou seja, casual, aceitamos a verdade de raiz humana, mas preferimos acreditar que não somos assim. Preferimos crer nas nossas capacidades intelectuais, nas nossas habilidades econômicas, industriais, sociais. Por ora, preferimos alimentar o ego por saber do quão longe podemos ir construindo valores e abrindo o peito para a consciência personalizada.

O sexo é a nossa única arma, é o nosso conflito interno. O hedonismo da carne, quiçá, seja a nossa chave de reflexão. O que somos e (por) para quê (quem) fazemos? Avaliar o sexo como possibilidade de reprodução é superficial. Nossos sensores naturais não estão entregues ao mero acaso. Nossos sensores existem para nos dar vida.

Para os intelectuais da casa, peço que não vejam o presente texto como fomento a banalização da casca, do sabor multisensorial da pele. E sim como uma alternativa que prova a nossa potencialidade, a nossa pobreza e riqueza de espírito.

O sexo já está por demais banalizado. Está, praticamente, livre de valores e posturas pré-fabricadas. Vê-lo apenas como pornográfico e erótico é refutar toda a poesia que a união dos corpos tem o desejo de proporcionar. O que ocorre é que, em alguns versos, em algumas estrofes, os adjetivos se intimidam... Deixam-se devorar pela impulsão. Logo, são apenas carnes. Logo, há a necessidade de um espelho. Logo, o sexo neoliberal se torna passivo e não ativo. É refén da sua própria arma. É inalado pela síndrome de Estocolmo carnal.

A semântica concluinte pregada é direta: se existe sêmen que jorram de pênis e atingem órgãos da virilha à cabeça, existe, em cada gota desta conduta, o nascimento de um pingo de reflexão do homem. Ele (o pingo branco, se saudável) pode ser desperdiçado, espalhado pela língua e pelo corpo, mas se aproveitado semioticamente, nos libertará para a nossa realidade filosófica.

Uma vez libertados, aceitamos nossa ignorância pela porta principal, e abrimos a mente ao próximo passo da evolução humana.

domingo, 29 de agosto de 2010

Queijo parmesão

Ela estava radiante, como sempre. Soltava aromas pelos olhos. Naquela humilde ocasião, a mesa de jantar era o seu palco. Ela corta o queijo. Concentra-se na faca. Corta novamente o queijo. Atira a fatia mirando a minha boca. Atira. Atira. Atira. Mas, desta vez, era a faca que voava na minha pele facial.

Eu desviei.

Ela, a loura artista do jantar, se joga para cima de mim. Me ganha. Me têm desnudo, com sabor de queijo parmesão nos lábios avermelhados. Sua língua era gulosa e devassa.

Eu era o seu crime.

Eu era a sua janta.

A partida termina.

Eu, de corpo trêmulo e fraco, me rendo à fome. Ela vai embora sem olhar para trás, nem mesmo um balançar de ombros. Nada.

Por fim, reparo no meu abdômen furado. Havia sangue com gosto de queijo no chão. Eu desejava aquela mulher. Era um morto que almejava a loura do queijo parmesão.

Sangrava,

feliz.

sábado, 28 de agosto de 2010

Era uma vez a felicidade e o amor...

"A felicidade me bate à porta. Eu espio, e deixo o vento levá-la embora."

Felicidade boa entra pela janela do banheiro, passa pelo filtro do chuveiro, do vaso e da pia, e só depois ganha forma na casa. A felicidade, então, senta no sofá, liga a televisão e assiste Jô Soares. Sim, é madrugada. A felicidade sente sono mas não dorme. Felicidade boa jamais se deleita em sonhos, ela deve ser real, enigmática e momentânea. A felicidade, agora, caminha pela escuridão da residência, dá algumas voltas na cozinha, se apega a um copo de uísque e finge sentir prazer. E na mentira impessoal deste prazer, ela ouve a campainha soar. Deve ser o amor. A felicidade abre a porta e se depera com o amor trajado de vermelho, um enorme decote entregava, finalmente, significado aos interesses da matéria. A felicidade toca os lábios do amor. O prazer reacende entre o quadril da felicidade e do amor. Mas, desta vez, não se tratava de mentiras. Ao menos não pareciam mentiras. Era uma cena clássica e bela. A felicidade se deixando enaltecer pelo amor. E este a engole de cabo à rabo. A felicidade não encontra ar para a sobreviver. A felicidade é devorada pelo amor até perder total força e esperança. O prazer, aos poucos, se esvaia. O amor fica só e se pergunta: o que aconteceu? O amor busca respostas nos livros de filosofia, sociologia, antropologia, psicologia e tudo mais com gia. Não encontra nada. O amor entra em desespero, procura compreender a vitalidade de seu sentimento. O motivo de sua existência. Ora, o amor enxerga a ausência de motivos.

Depois de muito tempo, o amor se deu conta de que ele era resultado da felicidade somada ao prazer. Era mesmo? Era projetável. Estritamente projetável. E descobriu, ainda, que sua irmã de sangue era a tristeza.

E seu antídoto era a repetição de toda esta fórmula.

A revolução dos medos

O sábado começa cinza e transpassa o reflexo da vida que alimentamos. Mais uma vez me encontro só neste quarto, com notebook em mãos, alguns livros na estante, a cama desarrumada, as fotos do mural que me fitam atordoadas por mudanças;

Mais uma vez eu fujo do caos, penso estar no bem quando sugiro o mal nas entrelinhas do meu polegar opositor. A nossa essência nos permite à heterogeneidade. Nossa essência ama o ódio e odeia o amor. A linha tênue entre sentimentos e sensações, na verdade, não existe. É uma só. Todos em um. Um em todos. Fazemos parte das comeias gigantes e industrializadas. Fazemos parte do caos... eu fujo para o lado errado. Eu fujo para todos os lados certos da sociedade.

Mais uma vez eu penso.

Mais uma vez eu reflito.

Mais uma vez eu canto.

Mais uma vez eu sorrio.

Mais uma vez eu escrevo.

Mais uma vez eu choro.

Mais uma vez eu sei.

Mais uma vez eu não sei.

Mais uma vez...

É o recomeço da bagunça da humanidade.

Das relações, dos relacionamentos.

É a exposição dos princípios.

A verdade é que, no fundo, somos todos solitários da era da tecnologia. Estamos todos irradiados na escuridão do medo, do fugaz, do mordaz, da nostalgia. Somos animais que jogam sonhos pela janela na busca pela revolução da vida.

O sábado recomeça para mim. Eu sigo no mesmo caminho, na mesma estrada de meses atrás. Eu creio na força das transições, das translações. Eu creio na energia que este mundo há de comer e morrer.

Ninguém ama. Ninguém.

Somos cobaias do nosso próprio entretenimento.

Somos macacos que vestem uniformes e ternos.

Evoluímos.

Ah, sim... evoluímos.

É a revolução dos medos.

Eu sigo só, novamente.

sábado, 22 de maio de 2010

Sou...

As árvores não estavam corretas no balançar dos galhos. Olho pra cima e noto um arco-celeste refletindo meus sentimentos renovados. Parecia, e juro que por um segundo parecia uma metáfora atual de minha existência. Sorri. Chorei. Sentei rente à raiz do tronco e passei a ouvir outro ser vivo, de pele semelhante a minha, com feridas tão similares das quais eu lidava diariamente. Fechei as pálpebras com o intuito de descobrir a volição, a fúria da natureza. Meus cabelos não tinham controle sobre a situação. Minha mente tomava voo livre. Livre. Livre. Livre... era liberdade. Era vida. Agora o balançar dos galhos retribuíam sentindo a mim. As folhas secas tornaram-se úmidas. A chuva acometia meus poros como nenhuma outra alma amante acometeu. Eu estava respirando transformações: eu era a terra, era o ar, era a água, era o fogo; eu era... a soma dos catetos igual ao quadrado da hipotenusa. Nada vertiginoso, mas, no mínimo, aceitável.

segunda-feira, 15 de março de 2010

Era uma vez, novamente

Voltar a escrever é como voltar a matar, de certa maneira. Passamos horas, dias, semanas, meses sem tocar em nenhuma sílaba, sem proliferar idéias, pensamentos e teorias. Quando regressamos para este mundo literato, literal e barato, sentimos saudade de quando éramos apenas flores imaculadas em marasmo, bordadas em casas vazias, sem cede de vontades, sem sangue de mudanças. Não sei ao certo o que provoca nossos retornos. Este humilde e pobre blog ficou desacompanhado por meses, me tornei ausente por pura e dedicada deselegância. - Resolvi parar, ora. Dar um tempo. Sossegar as palavras. O problema (ou seria a solução?) é que nunca paramos, verdadeiramente, de ditar palavras para papeis ou para programas de computador. Então, é como envenenar a própria mente, fornecer combustível aos anseios de quem tem paixão por criar e, ao cabo de tudo, nos deleitamos e deitamos sob preguiças. Cá estou lutando para me opositar. Carrego tantas personalidades dentro de mim que seria um desumano desperdício não dividi-las com meus personagens. Preciso criar as verdades, comprovar as mentiras, e matar minhas tolices e desleixos por meio desta prática reinventada por tantos e praticadas por poucos. Que seja breve enquanto dure. Que seja eterna enquanto ame.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

O caos do pensamento...


Dando margem ao nordestino da MPB, Lenine tem me conquistado a cada frame de segundo. A cada dia, a cada noite, a cada luar... A cada rotina ensandecida.

Lenine consegue misturar sentimento e melodia como se fosse uma prosa corriqueira, discursada por qualquer cidadão, feirante, berrante e alucinado pela vida comum e anônima.
Lenine é Lenine. Ele nos traz o caos do pensamento, a sombra do futuro, a sombra do passado, que assombram a paisagem...

Esta humilde canção tem embalado melodias da minha batida, notas da minha vida, arranjos do meu viver.
Eis a letra:

Daqui desse momento
Do meu olhar pra fora
O mundo é só miragem
A sombra do futuro
A sobra do passado
Assombram a paisagem.
Quem vai virar o jogo
E transformar a perda
Em nossa recompensa
Quando eu olhar pro lado
Eu quero estar cercado
Só de quem me interessa.
Às vezes é um instante
A tarde faz silêncio
O vento sopra a meu favor
Às vezes eu pressinto e é como uma saudade
De um tempo que ainda não passou
Me traz o seu sossego
Atrasa o meu relógio
Acalma a minha pressa
Me dá sua palavra
Sussurra em meu ouvido
Só o que me interessa.
A lógica do vento
O caos do pensamento
A paz na solidão
A órbita do tempo
A pausa do retrato
A voz da intuição
A curva do universo
A fórmula do acaso
O alcance da promessa
O salto do desejo
O agora e o infinito
Só o que me interessa.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Fidelidade

Abro mão de muita coisa para alcançar o papel que ocupo na sociedade. Inclusive de uma vida pessoal e de um sentido para esse espaço que utilizo sem existir, fruto de um fiel e doloroso autoengano.

Pobre blog. É quem acaba sofrendo as consequências.

O que vou dizer dos leitores?

Meu silêncio me mantém como um nobre contribuinte fajuto e, minhas escritas, como um ignorante sagaz viril.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Personagens


De onde escrevo o calor é completamente desconfortável. Sinto algumas gotas de suor escorrer pelo rosto. No espaço acima de mim, as pás do ventilador não dão conta de distribuir a temperatura abaixo do que se espera de um objeto como esse. Então, em meio ao assassinato planetário, cujas conseqüências se ramificam por todo meu corpo – desde a mensagem que permito passar com a vestimenta curta até as condições térmicas do meu organismo – decido voltar a escrever.

Entretanto, não é um momento propício a expressar pensamentos por meio da escrita. Ao menos, quando o calor é escaldante, eu não consigo assentar ordenadamente alguma epístola que anseio sentir ao transmiti-la. Mesmo assim aceito o desafio proposto por mim. Estou trancado em casa há quase 72 horas; lá fora vejo um mundo, apesar de quente, colorido. Apesar de colorido, imundo.

Amanhã dou início a uma nova etapa de minha vida acadêmica, profissional e colorida. É um passo importante que descodifica toda raiz madura e idealista quando se possui 21 anos transcorridos. O martírio do oxigênio sujo dá lugar à nostalgia. O que iremos encarar pela frente? A vida é tão breve, tão misteriosa e tão desbravadora.

Às vezes, ao notar o compasso do cotidiano e expressões faciais levemente interpretadas por atores que me cercam, peco no depósito excessivo de confiança cedido a seres da mesma essência que eu. Eu não aprendo a ser maledicente, o mundo é que me dá suporte para a maledicência; e quando falo em ‘mundo’, me refiro a tudo que o compõe. Toda essa história barata vendida por nós, por deuses e pela ciência. Pregamos-nos para o (in)falível quando não temos respostas na ponta da língua.

De qualquer maneira, continuarei depositando confiança aos mesmos seres. Porque acredito na nossa qualidade de pensamento. Porque ainda creio em nossas capacidades cognitivas enquanto sofremos com as nossas habilitações sociais e naturais. Pois bem, a consciência está aí, e bate à porta de cada um que manifesta desprendimento do comum, do usual, ao que os olhos estão acostumados a enxergar. Esta é apenas uma opinião parcial de quem sente tradicional desespero existencialista, de quem sente muito, mas muito calor. De quem irá sair de casa neste instante para respirar a finitude da nossa poluição.

A nova etapa profissional e acadêmica me cairá bem. Preciso conhecer sabores diferentes dos que já provei. Seja em qualquer meio que me insiro. Só assim poderei provar, ainda que prematuramente, o valor da confiança. Eu não sou maledicente, sou muito mole para isso. Sou repleto de sentimentos e (ir)racionalidades. Eu deveria carregar muralhas dentro de mim. Mas as forças renováveis que transporto de um lado para outro despeitam sonhos e mais sonhos. Muitos eu já alcancei. É uma sensação única sentir o alcance deste sonho. É ficção – partindo do princípio. A realidade é crua e arde em falso. O jeito é reinventar, renovar. Seja uma vida inexplicada, uma confiança quebrada ou um calor desconcertante;

Necessitamos nos reinventar a cada segundo, ou nos renderemos a descompaixões eternas de nossas mentes que jamais perdoaram realistas amargos. É por isso que existe a ficção. E é por isso que temos os nossos próprios personagens.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Tendo a lua

Despertei na manhã desta terça-feira desejando ouvir algumas letras que traduzem os nossos momentos, que são levados pela brisa do vento ao mais interior de nossas incertezas. A melodia também é importante, como harmonia que toca com um ínfimo polegar a nossa sensibilidade emocional, nossas raízes, com o nascimento da nostalgia. Tendo o mundo. Tendo a terra. Tendo o sol. Tendo a lua...

Eu hoje joguei tanta coisa fora
Eu vi o meu passado passar por mim
Cartas e fotografias gente que foi embora
A casa fica bem melhor assim
O céu de ícaro tem mais poesia que o de galileu
E lendo teus bilhetes, eu penso no que fiz
Querendo ver o mais distante e sem saber voar
Desprezando as asas que você me deu
Tendo a lua, aquela gravidade aonde o homem flutua
Merecia a visita não de militares
Mas de bailarinos
E de você e eu.
Eu hoje joguei tanta coisa fora
E lendo teus bilhetes, eu penso no que fiz
Cartas e fotografias gente que foi embora.
A casa fica bem melhor assim
Tendo a lua, aquela gravidade aonde o homem flutuaMerecia a visita não de militares,
Mas de bailarinos
E de você e eu.
Tendo a lua, aquela gravidade aonde o homem flutua
Merecia a visita não de militares
Mas de bailarinos
E de você e eu.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Consciências de segunda-feira

Prometi que voltava a postar na coluna, porém nunca pensei que fosse escrever em plena segunda-feira. A chuva (por aqui), uma grande aliada ao sono, à leitura, à persistência de filmes em canais abertos e fechados, me apresenta a realidade escarnecida. Vivo uma das fases mais heterogêneas de minha vida. Uma variação de humor incrível. Alguns desejos animalescos, outras decepções incuráveis que cercam toda espécie de relacionamento. Mas quer saber? Acho que estou sabendo lidar com as circunstâncias que me convém. É o risco que corremos ao saborear as escolhas. Por vezes me impressiono com as mudanças, como elas podem ser tão drásticas e tão sutis no mesmo segundo. A existência está recheada de surpresas agradáveis e desagradáveis. O equilíbrio é uma das chaves que resguarda a nossa natureza saudável, a nossa felicidade utópica e, claro, a nossa razão irracional... Ah, maldita e bendita seja a nossa consciência.

domingo, 27 de setembro de 2009

A perseguição da realidade

Passei por debaixo do viaduto em uma velocidade fora do habitual. O motor do meu carro estava quente. O volante vibrava em minhas mãos. O rádio tocava alguma canção latina. E logo atrás vinha a polícia. Pelo retrovisor percebia que se tratava de uma mulher na viatura. Ela usava óculos escuros, e a sua expressão facial imprimia nervosismo e excitação. Durante os poucos segundos que a vi pelo espelho notei uma rápida e delicada passada de mão no cabelo. Ora, que tipo de mulher alisaria fios capilares em plena perseguição policial? Era loucura, eu só queria persistir na fuga. Pois mirei, novamente, o retrovisor por um breve segundo e... Não podia ser... a jovem policial, ao passo que dirigia, passava batom nos lábios! Isso é uma piada! Que mulher é esta? No instante em que eu me questionava pelos atos irreverentes e incompatíveis da agente, pela adrenalina da situação, vejo meu veículo capotar. Meu crânio se choca incontavelmente com a janela do carro e acabo sendo arremessado para fora do veículo.

Após o acidente, me mantive imóvel, mas consciente. Então o som da sirene começava aguçar o temor da minha morte. O som ficava próximo, um barulho ensurdecedor. Eu não mais sabia onde estava. Com o corpo ensangüentado rente ao solo, vi os sapatos da policial descendo da viatura. A sirene não emitia qualquer ruído e absolutamente tudo ao meu redor encontrava-se quieto. O contato daquele sapato preto de solado puído com o chão representava uma contagem regressiva do meu fim. O bico do sapato já alcançava o meu nariz. Tento olhar em direção da luz e... Deparo-me com o rosto da minha mãe. Da minha mãe...?

Eram sete e quinze.

Minha mãe me desperta e meu corpo transmite sinais de realidade. Tudo havia sido um sonho... E não mais que um sonho... Com típicas cenas irracionais. Apronto-me com devida pressa, saio de casa e, ao dar a primeira passada numa calçada que não me era estranha, em frente à casa de vizinhos que também não me eram alheios... Esbarro com alguém que vestia um uniforme igual ao da policial da minha fantasia noturna. A ondulação do cabelo era idêntica. Os traços do rosto referenciavam a mesma beleza. A cor do batom era inconfundível... Era ela. Era ela. Era ela... que indaga:

- Será que tu vais te lembrar de mim hoje?

Eu lembro.
Eu a beijo.
Eu estava curado... e triste.
Agora, eu era somente o Agusto. Praticamente morto.

domingo, 30 de agosto de 2009

O retorno

Com a chegada de setembro, ergue-se uma nova coluna.
Desta vez eu volto.
Juro.
Aguarde.

quinta-feira, 25 de junho de 2009

As vitaminas


As vitaminas da minha vida saltaram corpo a fora। Corri atrás de algumas delas e só encontrei fantasia e ilusão. Os olhos brilhantes, as mãos pálidas e as pernas trêmulas evidenciaram meu estado de espírito: Eu estava a procura de alguma solidão casamenteira. Ou de algum objeto que eu não enxergasse. Tomei coragem e parei de respirar aquelas dádivas de minhas loucuras. Sentei-me para tomar certos goles de café gelado, e tinha de ser bem gelado... Sem cor, sem ritmo, sem afeição. Vestia uma calça azulada, com desprezo rasgão no local que cede espaço ao meu membro inferior direito. Pensei que aquele furo poderia servir de entrada à felicidade que tanto fugia de minha alma. Chegara a hora de dormir, continuei com a vestimenta rasgada na esperança de acordar no paraíso... Paraíso... Sem religião, sem reformulações exatas... Mal sabia onde me encontrava e agora necessitava de um paraíso. Era muita informação para uma só mente. Eram muitos sentimentos que uma só matéria poderia abrigar. Deveríamos nascer programados... Mas, não. Nascemos com o poder de escolher a dor e os momentâneos sorrisos que desperdiçamos com os prazeres injustificáveis da existência. Agora deitado em meu leito, eu observava e saboreava uma das minhas vitaminas... Ela se aproximava lentamente, carregava astúcia, inteligência emotiva e traços delineadamente femininos. Era ela... Uma mulher. Minha vitamina sem ardor e sem ódio. Julgava ser importante pelo meu pretérito... Pois havia me desprendido do mundo e das gotas insaciáveis de vitórias urbanas. Muitos prédios me cercavam... Muitas luzes me enalteciam... Eu precisava chorar sem ter motivos para derramar lágrimas. Então vem aquela vitamina humana, me tira do leito e tasca-me um beijo. Eu estava cego e envolto de apetite sexual. Aquém disso... Eu suava a derrota dos meus limites.
Eu estava me apaixonando novamente por ela, a vitamina do meu amor.