Coluna do Luan

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segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

O diálogo da mente



SUBCONSCIENTE: Você se faz importante para mim.

CONSCIENTE: E como posso sentir saudades?

SUBCONSCIENTE: Ora, você me revoluciona a cada pensamento.

CONSCIENTE: E... Não importa o conteúdo ou a forma do pensamento?

SUBCONSCIENTE: E pensamento lá tem forma? Preste atenção: Uma vez que você esteja na alma de alguém, o pensamento, pobre mortal como você, apenas obedecerá o fluxo...

CONSCIENTE: Entendo... Talvez seja assim que os sentimentos emergem, não é?

SUBCONSCIENTE: Tal como a justificativa de todo este diálogo para ela...

CONSCIENTE: Ela? Que ela?

SUBCONSCIENTE: Você sabe de quem estou falando...

CONSCIENTE: Aquela cujo sorriso nunca perderá o brilho?

SUBCONSCIENTE: A própria. Afinal, ela chegou até mim. Esqueceu?

CONSCIENTE: Como posso lembrar se você é o meu subconsciente?

SUBCONSCIENTE: Por que você não tenta fechar os olhos?

CONSCIENTE - De olhos cerrados: Ual...

SUBCONSCIENTE: Que foi? Que foi?

CONSCIENTE: Ela é potencialmente linda.

SUBCONSCIENTE: Não me venha com superficialidades, mocinho. Não me decepcione!

CONSCIENTE: Dá para parar com o escândalo? Você sabe do que estou falando: É da luz natural dela. Do brilho da pessoa, da personalidade. Da beleza da alma.

SUBCONSCIENTE: Você não está tentando me enganar, não é?

CONSCIENTE: E algum dia eu conseguiria?

SUBCONSCIENTE: Tem razão. Eu acredito em você. Ela é linda dos pés a cabeça.

CONSCIENTE: Não, é da cabeça aos pés.

SUBCONSCIENTE: A ordem realmente importa agora?

CONSCIENTE: É claro que não. Estou tentando lhe enrolar.

SUBCONSCIENTE: Eu sou teu sub, não pode me enrolar.

CONSCIENTE: Então por que você não me diz o que devo fazer?

SUBCONSCIENTE: Com relação a ela? Bom... Pode ser você mesmo. Vocês estão mais próximos do que imaginam.

CONSCIENTE: Talvez seja pela luz dela.

SUBCONSCIENTE: A luz dela apenas procura a sua.

CONSCIENTE: É, eu a encontro em meus sonhos.

SUBCONSCIENTE: Você só pode sonhar com ela porque ela é real.

CONSCIENTE: Chega. Deixe-me acordar para encontrá-la.

SUBCONSCIENTE: Finalmente. Mas não esqueça, eu sigo as ondas das tuas vibrações emocionais. Faça tudo isso valer a pena.

CONSCIENTE: Engraçado você me dizer isso. Eu não estaria aqui se tudo isso não valesse a pena.

SUBSCOSCIENTE: Está certo. Você já está me enlouquecendo. Apenas diga a ela o que sente, e tudo ficará bem. Boa sorte.

CONSCIENTE: Obrigado. Até a noite.

SUBCONSCIENTE: Até qualquer hora, amigo.

Uma madrugada e meia depois:

ELE - Surpreso e feliz: Nossa... Seu sorriso nunca perde o brilho mesmo, não é?

ELA - Tímida e feliz: Você... já não me disse isso em seus sonhos?

sábado, 25 de dezembro de 2010

O nascimento

Sentados, à beira do rio, ele, vagarosamente, estende sua mão ao encontro dos dedos dela. Ela, timidamente, retira o jeito e parece refutar toda e qualquer chance de relacionamento. Ele, então, volta a tentá-la. A fita por alguns segundos; almeja enxergar seus olhos, a verdade escondida por detrás daquela face linda, de traços prósperos. Logo, a pela facial dela, lisa e macia como o aroma praiano, deixa escapar um olhar afetuoso. Ele aproxima os lábios da boca preterida, e ela vira o rosto. Ele balbucia a pergunta:

- O que eu faço quando... bem, quando... Os teus olhos dizem sim e os teus lábios dizem não?

Ela espera o sabor do vento à beira do rio guiar o tom da conversa, e responde:

- Acho que você deve apenas seguir seu instinto...

Ele agora a vê com os lábios semi-derretidos, com olhar sério, profundo. Tudo havia mudado. Inclusive a pergunta:

- E... o que faço quando os teus lábios dizem sim e... Os teus olhos dizem não?

Agora eles estão a poucos centímetros do beijo...

- Bom... Neste caso, você deve apenas me amar.

Que não acontece.

Eles se tornam proximamente distantes. Ambos fitam a água suja do rio. Como se o cenário externo ajudasse a direcionar perguntas e respostas. Como se somente ele perguntasse. Como se somente ela respondesse...

- E como nasce o amor?

- Ele nasce da mesma forma que termina.

- E como termina um amor?

- Da mesma forma que começa.

- Então... O amor...

- O amor é...

- O amor é isso.

- O amor é isso.

- O amor não requer perguntas?

- E tampouco respostas...

Eles se miram. Ele volta a indagar:

- Por que estamos aqui?

- O amor precisa da solidão para nascer...

- E de encontros para acontecer.

O Beijo acontece. Eles se abraçam. O vento sopra mais forte. O clima traz um ar gelado... Ambos se arrepiam até afastarem os lábios. A consciência desperta:

- E como será que nasceu Deus?

Feliz Natal

domingo, 29 de agosto de 2010

Queijo parmesão

Ela estava radiante, como sempre. Soltava aromas pelos olhos. Naquela humilde ocasião, a mesa de jantar era o seu palco. Ela corta o queijo. Concentra-se na faca. Corta novamente o queijo. Atira a fatia mirando a minha boca. Atira. Atira. Atira. Mas, desta vez, era a faca que voava na minha pele facial.

Eu desviei.

Ela, a loura artista do jantar, se joga para cima de mim. Me ganha. Me têm desnudo, com sabor de queijo parmesão nos lábios avermelhados. Sua língua era gulosa e devassa.

Eu era o seu crime.

Eu era a sua janta.

A partida termina.

Eu, de corpo trêmulo e fraco, me rendo à fome. Ela vai embora sem olhar para trás, nem mesmo um balançar de ombros. Nada.

Por fim, reparo no meu abdômen furado. Havia sangue com gosto de queijo no chão. Eu desejava aquela mulher. Era um morto que almejava a loura do queijo parmesão.

Sangrava,

feliz.

domingo, 11 de abril de 2010

O monomotor da felicidade

Corria desesperadamente pelo matagal de Ortiz, localizado a dois quilômetros de casa. O dia estava bonito – céu claro, sol à meia altura –, acima da minha cabeça um monomotor fazia seu trajeto, razante e poético. O piloto era meu vizinho Juemir. Um homem de 40 anos que descobriu a liberdade ao sabor das nuvens. Sempre aos domingos, durante a tarde, ele voava. Para mim, o barulho do motor soava como música. Sempre quis fazer o que Juemir concretizava nos ares: o sentimento de leveza guiado por asas de policarbonato. Decidi voltar, já era hora do almoço e minha mãe se posicionava indignada ao pé do marco da porta de casa sempre em que eu chego três segundos atrasados, sentenciados a partir das onze e meia da manhã. Ao correr, sentia o matagal roçar minhas pernas pálidas de sofrimento, o barulho alucinógeno do monomotor fica para trás, eu deixava minha vida naquele campo para servir de operário dos meus pais.
O almoço estava servido. Encontrei meu vô sentado numa das cabeceiras da mesa. Noutra, estava meu pai, ávido e rancoroso. Meu pai era uma das poucas pessoas no mundo capaz de transportar 37 personagens dentro de si. Se fosse possível, acordaria 37 vezes ao dia e daria sentido aos 37 atores que se demonstravam perante a sua face no decorrer do rotação da Terra. Se tratava de um caso “múltiplo de bipolaridade”. Àquela hora, no fatigoso almoço, ele transmitia indignação e reclamava do avião do vizinho. Disse que iria matar o piloto um dia. Eu acreditava nas declarações do meu pai. Na sala ao lado havia uma espingarda dos anos 80, otimizada, feita para dilacerar qualquer pessoa que se metesse à frente. Além do mais, meu pai poderia ter 37 motivos para matar o vizinho. Ao lado direito dele, na horizontal da mesa, minha mãe, entristecida pela vida, servia comida ao meu irmão Juca, de cinco anos. Prezei pelo silêncio erguido pelo momento, comi uma ou outra colher de arroz e feijão e me retirei. Encontrei no meu quarto a janela dos meus sonhos. Ao fundo, ainda admirando o tempo bom que se firmava, eu via a calda do monomotor de Juemir. A paisagem era bela, afrodisíaca. Não lembro quanto tempo permaneci naquele estado de êxtase, o que recordo é de uma interferência sonora. Da paisagem, testemunhei o inferno. Fogo. Chamas. Gritos. Eram conseqüência do tiro de espingarda proveniente da minha casa, manuseada por uma das 37 pessoas que habitavam meu pai. A bala foi certeira. Acertou o cubo do monomotor, travou a hélice e derrubou o avião. Juemir estava morto.

Uma semana depois.

- Dona Nena não toma jeito, olha o vestido dela. Parece uma toalha de mesa.
- Não seja idiota, é da época dela. Ela gosta dessas coisas.
- Mas ela pode gostar em casa, onde ninguém vê isso. Fora a parte física. Sobra carne para manga.
- Deixe de ser maldoso.
- Cara, cansei dessa aula de português. Eu vou dar no pé. Vai ficar por aqui?
- Eu gosto desse conteúdo, vou ficar sim.
- Boa sorte, cara. Fui.

Vinícius saiu pela porta da sala de aula sem que a professora o visse. Era um colega irracional, imaturo e negligente com os estudos. Estávamos em uma turma do terceiro ano do ensino médio onde eu era o único que falava o português correto. É o carma das cidades do interior. Vila Maria do Sul fica a 680 qulômetros de Porto Alegre. Aqui há mais mato do que casas. A única alegria da cidade era o monomotor de Juemir. Uma semana depois do crime, a cidade ainda murmurava aos sete ventos o ocorrido. Me sentia hostilizado por alguns colegas e pessoas que cruzavam comigo na rua. Afinal, sou filho do assassino. Meu pai sumiu depois de abater a aeronave, e quem paga a conta é a nossa família. Voltando ao colégio, Dona Nena era irmã de Juemir. Em 40 minutos de aula, ela não olhou, sequer por um segundo, uma única vez para mim. Ao contrário do seu irmão, que se fazia presente em espírito. Ele ocupava uma cadeira muito próxima de Dona Nena. Enquanto ela escrevia no quadro, Juemir olhava para as costas da irmã com admiração. Mas, na sequência, de forma abrupta, Juemir se vira para trás e me fita com louvor. O sinal toca. A aula acaba. O espírito desaparece. Dona Nena baixa a cabeça e só escuta a pressa dos alunos sair pela porta.
Voltei para casa desesperado, agora pelo susto causado pelo espírito. Quando cheguei, presenciei minha família inteira aos prantos. Estavam todos desolados, inclusive meu pai e o vizinho, Juemir. Fique perplexo, confuso, o que estava acontecendo? Meu pai voltou? Juemir não está morto? E por que estão todos chorando? Com medo de cada passo que eu dava, entrei na sala e ninguém notou pela minha presença. Dei mais alguns passos e, na sala ao lado, próximo a mesa de jantar eu avistei um caixão. Receoso quanto ao corpo que poderia estar lá dentro, me aproximei. Foi um momento de pura descoberta. Dentro do féretro feito de madeira oca, com pouco conforto no seu interior, eu me vi de olhos fechados e com as mãos cruzadas sobre a barriga. Era eu que estava morto. Novamente desesperado, voltei a correr pelo mesmo caminho, notei que não sentia mais o mtagal roçar minha perna. Ao fundo, pudia avistar Vinícius, que corria em minha direção; de longe já se ouvia os seus gritos:

- Nós estávamos naquele avião! Nós estávamos naquele avião!

Ainda desconecto, não ligava ponto a ponto, mas entendi o que havia acontecido. Quando finalmente eu conquistei meu sonho de liberdade, alcancei o plano de voo da morte. Devo, ao menos, ter morrido feliz.

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Redes e Relacionamentos sociais do século XXI

Ele compra um café, mas só pode pagar em cartão de crédito. Ela não aceita cartão, somente dinheiro. A dívida é anotada em um bloco de papel. Ela solicita algumas informações:

- Qual teu nome?
- Ramirez...
- Ramirez ...?
- Ramirez miakovich.
- Pode soletrar?
- M-I-A-L-C-O-V-I-C-H.
- O.K; E qual teu ramal?
- 1354... não, não, perdão. É 5754. Quer meu telefone também?
- Pode ser.
- 99447748
- Você tem twitter? Nós temos serviço de cobrança instantânea.
- Ah, claro: twitter.com/ramirezmial
- O.k. Obrigada.
- Posso pagar pelo twitter também?
- Depende, tua message page tem débito automático?
- Ainda não, trabalho com crédito.
- Então, lamento.
- O.k. Então vamos fazer o seguinte. Se eu te pagar em dinheiro tu aceitas sair comigo?
- Vejamos... e para onde tu me lavarias?
- Hum... Depende para onde estaria disposta a ir.
- Por quê não tenta advinhar?
- Não sou bom nisso.
- E tu és bom em alguma coisa?
- Quem não experimenta não descobre.
- Me dê um gostinho... o que estarei perdendo?
- Na prática, alguns reais pelo café. Na teoria, uma noite de amor.
- Ual. Você vai direto ao ponto.
- Verbalmente sim.
- O.K. Cowboy, se eu te deixar pagar em crédito tu prometes não me incomodar mais?
- Se tu prometeres sair comigo.
- Eu não vou sair com contigo.
- Tudo por causa da minha dívida?
- Tudo por causa da tua audácia.
- Então eu pago o café em dinheiro.
- Comé?
- Eu disse que pago em dinheiro.
- Mas eu já disse que não vou sair contigo.
- Bom, a gente pode parcelar...
- Aff... você tem o novo orkut?
- Tenho.
- Então me mande o convite para o novo orkut, tá bom? Aí aceito sair contigo. Mas só uma noite. E sem sexo.
- Sem sexo?
- Tu tem carro?
- Sim...
- Então apenas uma noite.
- Combinado.
- Tu me ligas.
- Com certeza.
- Beijos, Cowboy.
- Até mais, gata.

domingo, 27 de setembro de 2009

A perseguição da realidade

Passei por debaixo do viaduto em uma velocidade fora do habitual. O motor do meu carro estava quente. O volante vibrava em minhas mãos. O rádio tocava alguma canção latina. E logo atrás vinha a polícia. Pelo retrovisor percebia que se tratava de uma mulher na viatura. Ela usava óculos escuros, e a sua expressão facial imprimia nervosismo e excitação. Durante os poucos segundos que a vi pelo espelho notei uma rápida e delicada passada de mão no cabelo. Ora, que tipo de mulher alisaria fios capilares em plena perseguição policial? Era loucura, eu só queria persistir na fuga. Pois mirei, novamente, o retrovisor por um breve segundo e... Não podia ser... a jovem policial, ao passo que dirigia, passava batom nos lábios! Isso é uma piada! Que mulher é esta? No instante em que eu me questionava pelos atos irreverentes e incompatíveis da agente, pela adrenalina da situação, vejo meu veículo capotar. Meu crânio se choca incontavelmente com a janela do carro e acabo sendo arremessado para fora do veículo.

Após o acidente, me mantive imóvel, mas consciente. Então o som da sirene começava aguçar o temor da minha morte. O som ficava próximo, um barulho ensurdecedor. Eu não mais sabia onde estava. Com o corpo ensangüentado rente ao solo, vi os sapatos da policial descendo da viatura. A sirene não emitia qualquer ruído e absolutamente tudo ao meu redor encontrava-se quieto. O contato daquele sapato preto de solado puído com o chão representava uma contagem regressiva do meu fim. O bico do sapato já alcançava o meu nariz. Tento olhar em direção da luz e... Deparo-me com o rosto da minha mãe. Da minha mãe...?

Eram sete e quinze.

Minha mãe me desperta e meu corpo transmite sinais de realidade. Tudo havia sido um sonho... E não mais que um sonho... Com típicas cenas irracionais. Apronto-me com devida pressa, saio de casa e, ao dar a primeira passada numa calçada que não me era estranha, em frente à casa de vizinhos que também não me eram alheios... Esbarro com alguém que vestia um uniforme igual ao da policial da minha fantasia noturna. A ondulação do cabelo era idêntica. Os traços do rosto referenciavam a mesma beleza. A cor do batom era inconfundível... Era ela. Era ela. Era ela... que indaga:

- Será que tu vais te lembrar de mim hoje?

Eu lembro.
Eu a beijo.
Eu estava curado... e triste.
Agora, eu era somente o Agusto. Praticamente morto.

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Ela, a empresa e os humanos

De cabelos vermelhos, pele morena e olhos grandes, ela se aproximava com cautela do calor das minhas vistas. Eu apoiava meu corpo numa dessas vigas finas que alimentam a estrutura dos arranha-céus. Ela passou a dois metros de minha sombra, virou a cabeça e fitou-me por dois, três segundos. Seu rosto era delicado. Sua boca adonava lábios carnudos. E então o paraíso se desfez. Ela retomou o trajeto de casa refutando qualquer chance de diálogo. Noutro dia ela estaria novamente bela, afinando as palavras educadas que dirigia a todos naquela empresa. Menos a mim. Mas noutro dia eu não estaria ali para vê-la. Em 24 horas muitas coisas mudam. Pessoas são demitidas. Pessoas são admitidas. Pessoas choram, lamentam... Pessoas sorriem, enaltecem felicidade. Meu mundo não pertencia àquela mulher. Os nossos conceitos não convergiam para nenhum ponto. Tudo que me preenchia era animalesco. Eu a desejava, com todos os meus instintos. Como todos os homens daquela empresa.

Parei no tempo;

Acabei com o desejo, com a paixão e com o amor. Voltei para minha rotina leviana. Sem mulheres, sem sexo, sem música, sem livros, sem cartas, sem prosas, sem nada. Limitei-me a respirar o oxigênio dos humanos. Chorei ao me despir para a morte, sem nuca ter vivido.

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Zé robótico

“O goleiro mirava-me como um alvo a ser combatido. Mas o que ele não imaginava é que para mim, ele era o alvo. Ele levaria uma bomba em seu corpo, quase atômica. Ele nem sentiria, tamanha seria força que eu estava prestes a depositar naquela bola de couro, marcada sinteticamente pela Nike. Olhei para o canto esquerdo, olhei para o direito, baixei a cabeça e fechei os olhos por um segundo. Tornei a abri-los, tomei distância, algo como quatro metros. Ou seria mais? Corri como num campo de batalha, acelerei não só o movimento do meu corpo como a batida do meu coração. Meu sistema nervoso pulsava na minha mente, eu teria que fazer o gol. Chutei. Olho para cima. Escuto o grito da torcida antecipadamente. A bola parecia não entrar, a curva se evidencia no ângulo, passa do ângulo – Meu Deus, será que eu vou errar? – a bola começa a descer, perde seu calibre ao encostar no travessão, toca na linha, sobe para o travessão novamente, toca na linha... acho que agora foi... foi... foi! É gol! A torcida delira. Eu me ajoelho e agradeço ao alguém divino por isso. Choro pelo título, choro por ser campeão.”

É com esse trecho que eu dou o ponta pé inicial na minha história. Eu sonho com esse trecho toda noite. Esperando que um dia ele se concretizasse. Agora já passam das seis da manhã, preciso levantar, me aprontar para ajudar minha mãe com a casa. Nossa rotina é religiosamente a mesma há anos. Desde as minhas 12 primaveras, aproximadamente. Minha mãe gosta do meu café. Coloco doses certas de açúcar, e o meu pão leva manteiga recaída, sem excesso. Organizo tudo em no máximo cinco minutos. Levo a primeira refeição do dia no quarto para minha mãe. Ela sorri quando me vê. Como uma face purpúrea, linda.

Minha mãe é uma mulher de 40 anos bem vividos. Começou desacreditar em Deus depois que Deus levou o meu pai. Minha mãe alegava que Deus não poderia ter feito isso com a gente, levando uma pessoa tão honesta e pura como meu pai. Ela não aceita até hoje. Passados sete anos. E sete anos é muito tempo. Em sete anos já se pode eleger vários políticos corruptos. Em sete anos já se pode casar, ou não. Ter filhos, ou não. Ganhar na loteria, ou não. Em sete anos, várias pessoas morrem, e outras várias nascem. Mas para minha mãe, sete anos é muito pouco tempo para esquecer a existência do meu pai. Então me pergunto o que meu pai fez em vida. Trabalhou dois ou mais terços da sua existência numa fábrica de cola quente. Ele era responsável por uma das máquinas. E eu devia ser responsável pelos meus estudos, era sempre o que ele me dizia. “Estuda, meu filho, estuda... pelamordedeus...”. Meu pai nunca falou, mas eu sabia que no fundo ele queria que eu não fosse como ele. Um funcionário de cola quente. Um funcionário que apanhava a cada esquina uma nova maneira de se fragmentar felicidade. Meu pai e seus ensinamentos. Nunca esqueci quando ele me levou a um parque temático. Falava das leis da física e colocava como exemplos a linearidade das máquinas do parque. Naquele dia, perguntei se ele era um robô da vida. Ele me fitou friamente, e não respondeu.

Agora voltando ao café da minha mãe, escuto o seu bom dia soar ao pé do meu ouvido. Deixo-a tomar café na cama enquanto agilizo as primeiras providências com a casa. Varro o piso. Coloco roupas para lavar. Enfim. Sete horas estou pronto para sair. Vou para o meu trabalho. Para a minha robótica. Das oito ao meio dia eu distribuo panfletos na avenida central da cidade. Que é enorme. Faturo uns 350 pila por mês. Volto para casa, almoço, lavo a louça e deixo quase todos os afazeres resolvidos, de modo que minha mãe não precise colocar muita mão na massa. Às duas horas começa o meu treino. Jogo futebol em uma escolinha aqui da cidade. O técnico anda gostando bastante do meu desempenho, estou com esperança de ser titular, na ponta esquerda, no jogo contra uma escolinha rival da cidade vizinha.

Só para sintonizar. Eu tenho 19 anos, me chamo Zé, sem nome composto. Apenas Zé. Tenho as pernas finas e corpo horrivelmente curvado. Nunca tive experiências sexuais, nunca fiz um gol, nunca beijei na boca. Nunca saí à noite. Nunca soube o que é vida noturna, balada. Nunca soube o que são drogas, lícitas ou ilícitas. Sou virgem em quase todos os sentidos da vida. Vivo para minha mãe e para essa escolinha. Para pagar meu treinamento, distribuo panfletos. Terminei meu ensino médio há dois anos - sempre tirei notas excelentes -, e morei minha vida inteira neste municio do interior gaúcho: Valdelino novo. A cidade vizinha que eu me referi chama-se Valdelino velho. Tudo muito original. Há décadas existiu um herói aqui na região, chamado Valdelino. Ele teve duas fases de conquistas: a nova e a velha. A distância geográfica e habitacional dessas conquistas se dá em seis quilômetros.

Voltando à escolinha, volto com a minha esperança de um dia ser titular. Mas a notícia dessa esperança não vem nessa tarde. Volto para casa às dezoito. Passo por dezenas de pessoas durante meu trajeto, algumas me olham. Outras, porém, mal sabem que eu existo. É a hora em que eu reflito sobre o mundo. É a hora em que eu me arrependo de tudo que eu fiz hoje. No entanto, eu sei que voltarei para casa eu farei a janta para minha mãe. Farei ainda mais alguns trabalhos domésticos. Vou me destruir fisicamente para depois dormir, sonhar com o meu gol do século e repetir todas as minhas atividades amanhã. Salvo raras exceções. A verdade é que não sinto uma exceção há meses... Não sinto vida há anos... Já passou da hora de fazer o gol.

Cansei de ser um Zé robótico.

Era o que eu pensava até matar minha mãe sufocada por um travesseiro de pena, a deixei junto de meu pai. Matei meu técnico a pauladas numa noite quente de outono. Eliminei mais algumas pessoas que me cansavam. Perdi todas as minhas virgindades sociais e humanas. Ganhei, absurdamente, vida. Fui detido pela lei, e desde então escrevo e leio na penitenciária estadual tudo aquilo que li e compus na morte, mas nunca havia realizado em vida.

terça-feira, 10 de março de 2009

A vista



- Que belo lugar para uma bela mulher.
- Boa. Tenta outra.

1 minuto depois:

- Que excelente vista para uma afável donzela.
- Não, não... vamos lá. Você pode ser mais convincente... Alterne o tom da voz, oscile o ritmo das palavras. Eu acredito no seu potencial.

2 minutos mais tarde:

- Que lugar do caralho! Só tem muié gostosa aqui! Comé teu nome gatiinhá?
- Não apele, por favor. Eu desisto, você não sabe abordar uma mulher.

Ele pensa por um segundo e indaga:

- Pois então como você queria que eu a abordasse?
- Apenas sendo você mesmo. Por que vocês homens tem de chegar cantando-nos como fossemos prostituas de luxo, ou aquelas de beira de estrada? Não espero nada além da naturalidade e da sinceridade. Não tente ser o que não é.
- Me dê mais uma chance?

Ela aprecie a vista, fecha as pálpebras e sente a brisa tocar sua pele. Responde:

- Eu até poderia, mas não seria justo.
- Não seria...?
- Em nenhum momento você foi verdadeiro comigo, nem agora, nem há dois meses quando nos encontramos pela primeira vez neste mesmo lugar. Por que você seria verdadeiro neste momento?
- Eu não sei, eu realmente não sei...
- Você ao menos sabe quem é?
- Sim. Roger Pereira Andrade. 22 anos. Estudante de cinema, apaixonado por mulheres.
- Senti uma ponta de verdade nesta resposta. Mas não perguntei sua identidade nem o que faz. Perguntei se você sabe quem você é.
- Creio que a donzela esteja confundindo meus pensamentos...
- Creio que o cavalheiro não pense nada além do que faz e pensa fazer.
- Estou cansando disso. Aonde quer chegar?
- Quero chegar onde você está, a lugar algum.
- Tudo bem, você ganhou... Mas me diga, que você é?
- Um mero acaso.
- Como?
- Somos matérias, Roger.
- Você não pode ser uma mulher.
- Não seja ridículo. Você está dando em cima de mim há meses, com as mesmas cantadas sem graça. Sem inteligência, sem autenticidade. O que você quer que eu pense?
- Eu não sei...
- Você tem razão, eu não sou uma mulher... Para você talvez eu seja um objeto.
- Isso não é verdade!
- A maneira como você me olha não é um reflexo da sua testosterona?
- Talvez. Mas não podemos fugir disso.
- Ah, é?
- Somos animais.
- Que tipo de animais?
- Aqueles que se apaixonam, que amam, que erram, que não pensam em nada que não esteja ligado aos nossos movimentos terrestres.
- Você é estudante de cinema, não é?
- É o que diz na minha matrícula.
- Então grave esta cena...

Eles se beijam.

- Você é louca.
- Não, somos animais.

O mundo parece parar naquele exato instante. Os dois apreciam a vista daquele lugar alto, distante de tudo. Lá embaixo há um planeta em funcionamento... Ela toca no assunto.

- Lá embaixo as pessoas não darão chance para você.
- Então prefiro ficar aqui em cima.
- Dentro de certa irracionalidade, é uma ótima escolha. No entanto, não sobreviveríamos por muito tempo. É perfeito demais para dar certo.

Os dois saem de mãos dadas e voltam para a urbanização. Descem a montanha, deixam a vista para trás, e quando chegam ao solo da cidade desabotoam as mãos e afastam os lábios. Ela se despede:

- Compreende que o que aconteceu lá em cima foi um mero acaso, não é?
- Sim. O justo é não termos chances.
- Temos a chance de viver e mudar a concepção disso.
- Você não pode ser daqui...
- Nenhum de nós pertence a este lugar...
- Adeus...
- Adeus.

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

O espelho



2008

Debruçei-me contra o espelho. Esperava quebrá-lo. Parti-lo ao meio. Via a minha imagem desesperada, flagelada pelas lágrimas que escorriam no meu rosto. Tentei descobrir os motivos. Será que eu não me conhecia o suficiente para entender as razões que me levavam a chorar? Debruçei-me com mais força, com a esperança de liquidar de vez com minha imagem refletida.

1990

O telefone tocou. Era Gaspar, com sua voz ácida e direta, disse-me que eu teria uma chance de enriquecer. Não revelou como, não me forneceu contatos, apenas um número: 1344. Uma seqüência composta por dois números ímpares e dois números pares. Que finalidade teria? Joguei o telefone longe, ouvi o barulho de um objeto se quebrando. Droga, não era o espelho.

Eu estava morto, jazido, putrificado. Para o mundo eu era um cadáver. As pessoas simplesmente passam por mim como se eu não existisse. Ignoram-me caprichosamente em suas hipocrisias rotineiras. Pensam que são felizes. Que lutam por um país melhor. Mas dentro de seus carros, de seus possantes importados, são seres vivos urbanos, sociais, que serviram de cobaias ao próprio sistema humano. Guiam seus veículos automotores por estradas cujas obras superfaturadas viraram manchetes em jornais esquerdistas. Então, orgulhosos, baixam o vidro do possante importado e doam-me alguns centavos que teriam como destino o cofrinho de plástico dos filhos de cinco anos. De centavo em centavo a gente enriquece nas sinaleiras. E um dia que ganhei mais de dez cruzados. Dez vezes sete, setenta. Setenta vezes quatro, me deixa pensar... Acho que são duzentos e oitenta. Por mês. Trabalho duro, temos que esticar a mão por entre o vidro do motorista e quase obrigá-lo a "doação". Já arranhei alguns veículos, furei pneus, e arranquei placas. Cinqüenta centavos fazem toda a diferença. Mas agora eu estava em uma casa, e não sei quem mora nela, Gaspar disse para eu vir até aqui, arrombar a porta e esperar o telefone tocar - Não entendo, o espelho me irrita, não gosto da minha imagem; não gosto do meu corpo; tenho a cabeça achatada, uma barba enorme, minhas canelas são finas e meu tronco espesso – Gaspar meu passou uma seqüência de quatro números.

Era uma cilada. A polícia chegou. No entanto, algo me chamou atenção: a placa da viatura de listras pretas era composta pelos números 1344. O que Gaspar me aprontava? Durante o percurso descobri que eu não estava sendo preso, e não estava sendo transportado por agentes da lei. Eram narcotraficantes, que me pegaram como "laranja". Gaspar me indicou para um serviço sujo, mas lucrativo. De mendigo para laranja. Um carro de polícia furtado, dois narcotraficantes e um morador de rua. Uma ótima notícia para as páginas policiais. Colocaram-me em um ônibus que seguiria até o interior de Mato Grosso do Sul, lá eu teria que entregar o pacote para um senhor chamado "Macalã".

Encontrei Macalã às quinze horas da tarde seguinte. Entreguei a encomenda e as pessoas continuavam me ignorando. Com o dinheiro que ganhei, daria para voltar setenta e oito vezes para a minha cidade natal de avião. Cortei o cabelo, barbeei-me, vesti um terno e incrivelmente, voltei a minha cidade natal. Voltei para minha verdadeira casa, onde minha esposa e meus filhos me aguardavam há sete meses. Foi um retorno seco, sem grandes emoções. Minha esposa achou que eu estivesse morto. Porém voltei mais bonito, forte e rico. 1344. Minha esposa continuava quieta, triste, preocupada. Foi quando Gaspar chegou, beijou um dos meus filhos, beijou minha esposa e olhou nos meus olhos locucionando: "Você está morto." No fundo eu estava. Gaspar substituiu meu papel de marido e pai. Perguntei-lhe por que havia me cedido a chance de enriquecer ilegalmente. Ele responde seco. “Queria você de volta aqui, para poder sentir na pela a mesma humilhação que eu passei quando me traíste”. “Eu nunca o traí, recebi uma carta sua em minha casa de papelão no centro da cidade, não o via desde os tempos de faculdade”. “Você é mesmo um louco, Deixou sua família para morar nas ruas”. “Minha família precisava de dinheiro e eu prometi a minha esposa que eu não botaria os pés em casa enquanto eu não pudesse dar uma boa vida a ela e aos nossos filhos”. “Pois ela cedeu ao meu dinheiro, ao meu amor”. “Ela não te ama”. “E ama quem então?, um mendigo que enriqueceu às custas do tráfico?, Tu não sabes nada da vida do crime, rapaz!, Tu não sabes nada! É um falso moralista, crítico de si mesmo; ganhar dinheiro em sinaleiras, sinceramente, onde tu estavas com a cabeça?”. “Gaspar, tu devias ver o ângulo que eu vi, os rostos das pessoas te ignorando, te tratando como lixo”. “Tu és um lixo humano, largaste tua família e me traíste; agora estamos quites”. “Qual foi a traição afinal, Gaspar?, diga-me na cara!, Qual foi a traição?, o fato de eu ter te ajudado a colar na faculdade, e depois ter te denunciado para o ministério público anos mais tarde?, não seja ridículo, seu jornalistinha de merda!, Fui para as ruas para sentir na pele a vida de um intelectual frustrado com nossa condição de cobaias da má fé; todo dinheiro que tens hoje é fruto de minha inteligência, seu arrogante; fui eu quem construiu essa casa, eu que paguei a cama onde hoje tu transas com minha esposa; não ouse mencionar a palavra vingança, ou humilhação; o recalcado aqui és tu; quer saber, tome este dinheiro; não preciso dele; agora saia da minha casa”. “Não me faça rir, seu tolo; como sustentará tua família?, vais para as sinaleiras do sistema humano?, Caíste na sarjeta por ser ético, limpo, moralista; saia você de cima do meu carpete, sinto o cheiro de sua casa de papelão em seu corpo mal lavado”. “Não ouse...” “Escuta aqui, não ouse tu, meu chapa!, Teu lance por aqui acabou; manda-te; antes que eu tenha que usar forças para isso”. “Tudo bem, você ganhou”.

2008

Fui-me embora, voltei para minha casa de papelão. Abandonei de novo família, amigos, vida. Moro na Avenida Baltazar há dezoito anos. Sou um sobrevivente. Hoje retornei à casa que foi tomada de mim. Gaspar sustentou minha família até a data de sua morte. Devia dinheiro para o tráfico, o chefão não deixou barato. Liquidou minha esposa e meus filhos também. Num tempo em que eu não sentia mais amor por ninguém. E o mais interessante: Mesmo dentro de minha caixa de papelão eu conseguia ler. Exemplares doados pelas boas velhinhas. Leio nas sinaleiras. Vivo nas sinaleiras. Estava na hora de voltar para a minha casa, hoje abandonada, onde não tinha Gaspar, nem esposa, nem filhos. Contudo, havia um espelho intacto, minha imagem era igual à mesma de dezoito anos atrás. O mesmo espírito. Chorei. Entedia as razões. Finalmente quebrei o espelho. Renovei-me para morrer.

sábado, 2 de agosto de 2008

O pistoleiro das causas nobres


Saltei do ônibus com a esperança de poder alcançá-la. Silvana corria feito louca pelo calçadão central e não sabia exatamente onde queria chegar. Naquele momento, tudo que passava por sua cabeça era fugir do monstro que a perseguia. Neste caso, eu. Não precisei alongar meus passos. Durante sua vida inteira, Silvana agiu como uma perdida. Foi assim com Romeu, seu antigo namorado. Lembro-me de Romeu dando-lhe tapas no rosto. Ela gritava. Ele a agredia cada vez mais. A cada sussurro de Silvana, Romeu rebatia com tapas, socos, chutes e o que alegava ter direito. Silvana, mulher submissa, após sofrer as agressões se deitava nua sobre a cama de lençóis rosa e se escarnecia. No fundo, Silvana quisera ser como uma rosa; cheirosa, cheia de brilho, almejada pelos rapazotes que praticavam o ato do romantismo para conquistar a garota amada. Por um segundo, Silvana quis ser uma mulher amada, idolatrada, com um homem à sua altura. Mas em trinta e sete anos, tudo que ela soube administrar foram relacionamentos superficiais.

Conheci Silvana no colegial, era bela, mas com o passar dos anos tornou-se patética. Um rebotalho ambulante. Andava na penumbra. O único homem por quem se apaixonou fora Romeu. Um comerciante barato de olhos azuis e cabelos loiros. Ele tinha uma loja na galeria do parque, vendia instrumentos musicais. E só. Nunca teve perspectiva de vida. Para Romeu, bastava encontrar sua Julieta. Engano seu acreditar que encontraria em Silvana a sua realização pessoal. Encontrou foi um saco de pancadas. Até hoje não compreendo os motivos reais que levaram Romeu a espancar Silvana. Seria um fetiche? Não importa. Nesse instante eu a vejo escorada em uma parede mal acabada do prédio da biblioteca pública, chorando aos prantos. Detesto mulher submissa. Eu não agüentava presenciar aquelas situações de violência doméstica. E agora ela chora por temor. Será que ela sabe o que irei dizer? E como procederei após minhas sentenças verbais? Muito provável. O sexto sentido nunca falha. Foi através de meus pressentimentos que descobri o dia e a hora exata para se livrar de Romeu.

Hoje. Ao ouvir gritos e socos, pressenti. Portei minha pistola semi-automática e fui de encontro ao barulho que me inquietava há dois anos e meio. Arrombei a porta do apartamento vizinho com facilidade, mirei no crânio de Romeu e disparei sem comiseração. Adeus pandemônio. O último estalo que eu ouviria daquele domicílio seria justamente o do calibre de minha pistola se mesclando com a velocidade de minha bala. Acabou. Finalmente. Silvana balbuciou e correu. Nunca vi nada igual, parecia uma velocista. Calmo, eu fui até o ponto de ônibus com a finalidade de alcançá-la. Pela janela do veículo eu sentia o desespero de Silvana. De certo ela pensava o pior. No entanto, eu não gasto uma só bala com mulheres submissas. O ônibus estacionou defronte a biblioteca pública, caminhei lentamente até Silvana que passou a se ajoelhar no chão úmido, encostando sutilmente sua cabeça na mesma parede que sustentava seu leve corpo. Eu me agacho, ela me fita os olhos, eu a beijo, sinto os seus lábios frios de pavor e a mato com uma jogada de mestre. Um simples aperto com meu polegar direito sobre a garganta de Silvana foi o suficiente para tirar o seu ar que já se dividia com minha saliva.

Voltei para casa mais aliviado. Sentei em minha poltrona, liguei o televisor e sintonizei um canal qualquer de filmes. Sabendo que escorado em uma das paredes do prédio da biblioteca pública havia um corpo com minhas digitais. E que no apartamento ao lado, um outro corpo com uma bala procedente de minha pistola, jaz sobre o assoalho. Restava esperar pela polícia. Com o controle do televisor na mão direita e uma xícara de café na esquerda eu pensava: “Que saudade dos amigos da prisão, já não os vejo há dois anos e meio...”

quinta-feira, 10 de julho de 2008

Elisabeth

O mundo parecia um tribal venezuelano, só faltava o Chávez dependurando em uma pêndula de ouro recitando poemas psudo-socialistas. A tarde estava escura em Caracas quando decidi fazer algo romântico. Comprei um envelope e algumas rosas. A destinatária? Não sei ao certo. Poderia ser a russa que me espreitava através da porta de uma loja de roupas baratas. Ou então, a espanhola exibicionista fã de Karl Marx. Tinha ainda a americana de seios fartos que era fugitiva da gestão Bush. Todas representantes do sex in cash. Dizem por aí que a Colômbia é o país campeão na América do Sul quando o assunto é prostituição. Mas a Venezuela ganha. Nas avenidas oriundas de Caracas se enxerga a demagogia de um governo de princípios ditatoriais, vê-se a ideologia Chavista plantando cenouras de dólares enferrujados nos crânios dos burgueses capitalistas. O dia estava pouco comum com nuvens sobre minha cabeça e prostíbulos ao meu redor. As rosas enfeitavam minha enorme mão, o envelope vazio, metaforicamente buscava uma alma para preenchê-lo. Caminhei alguns metros até encontrar Angenor, saltitante como grilo. Angenor, carioca da gema, pediu-me alguns dólares trocados. Alertei-o que estávamos em território Chavista. Então Angenor lembrou da época em que a Venezuela fora mais pragmática consigo mesma. Lembrou-se de Noelma, a esposa que o abandonou em plena Copacabana. “Ela me deixou na frente de todos, tinha mulher de fio-dental lá”. Angenor sempre foi apaixonado por mulheres que ausentavam vestimentas. Veio parar em Caracas por acaso, tomou o vôo errado e virou cafetão. Esse é o resumo de sua história. Pedi a ele a mais branquinha de todas, “tem que iluminar minha alma”, disse. Angenor havia me prometido uma inglesa de seios moderados, com ares franceses. Veio à Venezuela com fins acadêmicos, estudar o governo, acabou se prostituindo com a morte de seu pai na Inglaterra e com a falta de dinheiro para sair do país cognitivamente socialista. O nome da garota era Elisabeth. Bem original. Acabei cedendo alguns dólares a Angenor em troca de prazer carnal.

Elizabeth falava um péssimo e arranhado espanhol, o sotaque inglês deixava seus lábios ainda mais carnudos. Pedi a ela que se livrasse dos verbos e fizesse o que tinha que ser feito: Sexo. Nada mais. Entreguei o envelope e ela colocou um anel com o se nome gravado. Jogou o envelope no chão e pediu que eu o levasse depois do ato. Durou pouco. Uma hora e meia. Ergui minhas calças como um velho comunista chavão da década de 50. Juntei o envelope e o coloquei no bolso esquerdo de minha calça. Deixei 300 dólares sobre a cômoda e fui embora.

Cheguei em casa cansado, ainda com as rosas e com o envelope. Eu sabia que dentro havia um anel com o nome de Elizabeth escrito. Quando o abri me deparei com os 300 dólares que eu designara a Elisabeth e um bilhete escrito a punho em um deteriorante espanhol, algo como: “No queiro dinero, quiero solamente amor”. Elisabeth havia se declarado a mim como uma donzela sem dono, ao relento. Submetendo-se à maré social. Liguei imediatamente para Angenor e pedi o contado de Elisabeth. Angenor demorou a explicar que ela não tinha telefone, não tinha casa, não tinha nada. Para Angenor, era apenas uma vagina lucrativa.

Sai para caminhar um pouco e refletir sobre as palavras de Elisabeth que não era uma prostituta qualquer, jovem, da alta classe inglesa... Lembrei-me da época em que eu morei em Londres, antes de voltar para o Brasil, havia conhecido uma garota por quem me apaixonei. Não sabia seu nome, mas lembrava de seus olhos, apimentados e grandes. Sedutores. A garota sumiu de minha vida, foi estudar distante de Londres. Voltei ao Rio com o coração partido, minha primeira dor de amor na adolescência. Anos mais tarde eu me mudaria para Caracas, trabalharia de repórter em um jornal local ganhando um salário equivalente a de um diretor de redação no Brasil. Aqui as coisas são mais fáceis. O Chávez complica um pouco, quer nos calar, mas ele no fundo não consegue. Não chega nem perto do que foi a ditadura militar brasileira. Sei, porque estudei. As vidas nos levam a tantos acasos... Agora quanto a Elisabeth é mesmo intrigante.

Surpreendentemente eu a vi, há duas quadras de meu prédio. Ela estava lívida, e com uma expressão incrivelmente boçal disse-me: I love you... Em perfeito e bom inglês britânico. O sotaque era o mesmo que eu havia escutado anos antes, quando residia em Londres. Descobri seu nome. E ela me descobriu. Não veio para pesquisar sobre o governo e sim sobre mim. De como eu vivia minha vida... Caí direitinho no seu golpe de prostituta... Na surpresa eu me entreguei, subimos ao meu apartamento e fizemos amor, sexo é para os fracos. Eu fora um fraco, queria encontrar nas outras o que não havia saciado em Elizabeth anos atrás. A saciei carnalmente sem saber que era ela, agora deveria me entregar de maneira verdadeira. A história poderia acabar aqui com um final feliz, em meio a ardente Venezuela.

Elizabeth tirou de mim todo o ódio que eu tinha quanto ao amor, e me entregou de bandeja sensações que eu não experimentava há anos. Ela sabia do meu labirinto carnal, do qual eu negligenciava, dizendo pertencer a minha essência de mau caráter. Elizabeth me devolveu a inocência que eu havia perdido diante de situações incisas de meu governo e de minha família. Eu era um fugitivo da vida. Elisabeth levou as rosas, as roupas, todo o meu dinheiro, e alguns objetos culturais que eu mantinha em casa. Acordei sem nada, um tostão. Mas o envelope estava ao lado, com os trezentos dólares, o anel e uma carta escrita em bom português. Angenor assentava: “Estou saindo da Venezuela com seu dinheiro e com sua mulher, que, aliás, sempre foi minha”.

Não era a primeira vez. Reconstruí minha vida da mesma forma, e para mim, o envelope continua vazio. Se alma, sem nada.

terça-feira, 20 de maio de 2008

Lucielem Mccartney

Então foi assim, sorri em frente a janela até você aparecer. Conquistei minhas esperanças perdidas, rezei pelo dia nublado e preparei o jantar a luz de velas. Talvez você tenha notado minha perspicácia platônica. Assim como as faces duras de um sabonete percebem a sujeira de espírito. Notei minha imundice ao caminhar ao teu lado, ao luar da madrugada. Um fenômeno quase que comum nos casais românticos e modernos. A diferença é que eu leio Borges e você Bioy Casares. Diferença? Ah sim, esqueci por um instante que a igualdade de conceitos e culturas no mundo hipócrita faz-se um status. A todo momento temos que ser idênticos, senão melhores. Foi pensando nisso que liguei para você, pedi para buscar-me às nove e depois gosaríamos. Mas separadamente. Você numa cama, eu noutra. Você com outra parceira, eu com outro parceiro. Ou vice-versa. Também podemos variar as opções sexuais. Podemos, até, ser racionais. Tudo é possível. Trajei o vestido mais lindo a sua espera, lembrei-me das palavras de minha mãe. Não sei o porquê, mas recordei do dia em que ela me disse que sou uma mulher de verdade. Eu havia sentido o sangue escorrer por entre minhas pernas, e aquilo me fez mulher. Isso é universal? Ser mulher é menstruar? Ficar às vezes inchada, dolorida, com humor teoricamente variável, sensível (somente naquele momento). Ser mulher é ter sintomas? Quem foi o maníaco machista que sentenciou isso? A última vez que saímos juntos você fez questão de provar que é capaz de reproduzir, e eu apazigüei-me. Ri. Homens... sexo... mulheres... livros. Ou então: Homens, mulheres, livros e sexo. Ou ainda: Livros e sexo, homens e mulheres. Qual é a ligação? Ponderai-me senhor. Ponderai-me. As raízes menstruais nesse momento me atordoa ao passo que me satisfaz. Ó senhor, perdoai-me pela tragédia, pelo encanto, pela mentira. Perdoai-me por gostar de ler, por ser sensível e transar recitando poemas e não gemer. Sou um animal fêmea, senhor. Sou como um pássaro, um beija-flor, uma borboleta sem asas, esperando incontavelmente pelo o que é certo, pelo o que é errado. A dúvida pertence sim aos sábios. Punir-me, senhor. A mim e a todos os outros que falam o que pensam, que comem o que desejam, que fazem o que omitem. Meu nome, senhor, é Lucielem Mccartney. E prometo ser mais solitária do que pareço ser. Só não me confunda com minha irmã, Elisabeth Mccartney, foi ela quem roubou meu coração ao levar o homem que eu esperava para jantar. Pensando bem... Foi melhor mesmo. Não preciso desse tipo de coração para viver, tampouco para amar.

terça-feira, 13 de maio de 2008

Celinha

Será que tranquei as portas? Isso não é pertinente. Não agora que vou dormir. Homens de meia idade como eu precisam de uma boa noite de sono, somos propícios a enfermidades de tudo quanto a grau. Ainda mais para mim, que nunca me cuidei quando o assunto era alimentação balanceada, exercício físico... Celinha vivia dizendo para eu correr 30 minutos por dia. Ah... E como eu gostava daquela mulher. Celinha fazia o tipo da esposa perfeita para época. Imagine só, 1975, período ditatorial, pós-milagre econômico, o país era comandado pelo general Ernesto Geisel, e Celinha no auge de seus 23 anos. Era linda como poucas. Radiante, seus cabelos encaracolados e negros combinavam com sua pele morena que emergia sobre o corpo mais belo de todas as mulheres que eu havia conhecido. As curvas de Celinha me causam arrepios até hoje. Por que Deus fora tão cruel comigo? Era ma castidade não poder experimentá-la, não poder tocá-la carnalmente.

Celinha no máximo foi minha colega de turma na faculdade. Vale lembrar que em 1975 instituia-se no Brasil a popularização do ensino superior. Nos anos 70, faculdade era coisa séria, não é essa brincadeira educacional do século XXI. E Celinha sabia disso, dava valor aos estudos e discutia em sala de aula os malefícios do regime militar - o que para o momento era demasiado audacioso. Falar mal do governo militar era como assinar sua sentença de exílio. Nos casos mais bárbaros, de morte.


O que me atraia em Celinha, fora o exuberante corpo, era sua coragem, seu modo independente de ser. É uma lastima ter que dizer isso, mas em 75 a maioria dos estudantes universitários eram homens. Celinha representava uma minoria. Sofria a todo instante preconceito e era taxada de militante da esquerda, por possuir em sua essência uma voz ativa e autônoma, pouco comum para as mulheres do século passado.


Houve uma vez em que eu toquei nos seios fartos de Celinha. Havíamos combinado uma reunião de estudos com outros colegas na casa do Luís, um antigo amigo e colega. Celinha sentou-se ao meu lado, mais precisamente à minha esquerda. A nossa frente havia uma mesa redonda recheada de cadernos e livros. No outro lado dessa mesa estava o Luís, uma colega bigoduda que usava óculos e um Ripe que entrara na faculdade para provar aos pais que era versátil. A caneta que Celinha segurava na mão esquerda caiu no chão. Quanta ironia do destino: a caneta havia caído por debaixo de minhas pernas. Em função da moldura interna da mesa, eu não podia me agachar para juntar a tal caneta. Celinha, então, curvou-se de maneira extraordinária em minha direção, fazendo com que seus seios tocassem minha mão direita que repousava estrategicamente sobre meu joelho. Lembro de como se fosse ontem, apalpei com vontade o seio de Celinha, agarrei com toda a força de meu desejo. Celinha soltou um suspiro de leve, fechou os olhos, juntou sua caneta, abriu os olhos e sorriu para mim. Me apaixonei na hora. Eu estava a amando por ter tocado em seus seios. Que loucura a minha. Na semana seguinte, todo esperançoso, achando que conseguiria algo concreto com Celinha, eu a flagrei aos beijos com Antônio Miranda, filho de um banqueiro corrupto. Do amor passei ao ódio. De mulher afável, para mim, ela passou a ser uma vagabunda. É engraçado eu lembrar de tudo isso com riqueza de detalhes.


Mas agora eu realmente preciso dormir. E as portas? Será que eu as tranquei? Tenho que verificá-las, principalmente a porta que dá acesso ao porão. Lá está o frízer onde guardo há décadas o corpo esquartejado de Célia Fernandes Duarte, a minha eterna Celinha.


Momento ego: este conto foi publicado no site http://www.portal3.com.br/

quarta-feira, 30 de abril de 2008

Uma mulher de princípios

Fechei as cortinas, limpei o quarto e chorei. Antes das lágrimas, no entanto, pedi a mim mesma um pequeno intervalo para o café. Não me posso esgurrecer aos prantos enquanto tomo café. Meu pai, antigo fazendeiro dos anos 60, sempre me dizia que o café era sagrado. Devemos estar concentrado ao tomar o primeiro gole. Um desejo nessa hora é bem-vindo. Estava aí a formula para minha vingança retroativa: tomaria um gole de café preto almejando tua volta. Mulheres como eu não ficam se angustiando por qualquer homem barbudo como você. Ainda guardo na gaveta de minha cômoda uma camisa sua, com o seu cheiro natural. E quando penso nisso volto a chorar. Chega. Resolvida, abri a porta de casa e encontrei Ezequiel, um antigo amigo da faculdade. Falei para ele de minhas chateações e ele me propôs um programa pra lá de excitante. Primeiro eu teria que colocar as pernas por debaixo de seu ombro, fazendo com que meus pés se curvassem na sua nuca. Ele já queria estar ao mesmo tempo por debaixo de mim. Fui contra, aleguei que essa posição é dolorida, já havia feito o teste com o barbudo que me abandonou. Mas pensando bem, foi só com ele. E se com o Ezequiel fosse diferente? Nunca é demais tentar. Pedi que ele me buscasse às oito para seguirmos um ritual de casal apaixonado. Iríamos primeiro jantar e depois para o motel. Ele topou. Meio óbvio, não? Depois dessa noitada cheguei à conclusão de que o sexo com Ezequiel já não era mais o mesmo. Ele havia mudado e eu também. Transávamos desde a minha vida acadêmica. É melhor que nossa amizade fique sem sexo, avisei. Ele protestou, mas acabou aceitando minha imposição. Sexo com homem chato é a pior coisa do mundo. Acha que somos um objeto pirotécnico de mil e uma posições. Tudo tem limite. Depois de dispensar Ezequiel cai na depressão e voltei a pensar no barbudo, onde ele estaria? O que estava fazendo? Será que ele não pensa em mim também? Nunca transamos de verdade. Foi só amor. Não era justo perdê-lo, eu precisava experimentá-lo. Sou uma carnívora, preciso de gozo. Será que tento? Posso ligar para ele. Será que não é tarde? Creio que não. Nunca é tarde para uma bela mulher cassar seu macho. Liguei e ninguém atendia. Entrei em desespero porque queria muito vê-lo. Sentia falta do meu barbudo. Fui até sua casa, apertei a campainha e ninguém atendia. Tentei manusear a fechadura e para minha surpresa a porta estava aberta. Quanta desatenção do meu barbudo. Resolvi entrar, caminhei lentamente até ouvir vozes masculinas vindas de seu quarto. Tudo estava aberto, desloquei a porta do quarto e vi minha decepção: Ezequiel trepando com meu barbudo. Não podia acreditar, eles eram gays ou bissexuais? Não importa. Qualquer resposta naquele instante de nada adiantaria. Preferi voltar para minha cama e chorar, chorar muito. As lágrimas eram minhas únicas companheiras, sem mais homens, não quero mais saber de homens. Liguei para Ângela e resolvi voltar ao o que eu era, resolvi voltar à minha essência: “Ângela, venha para cá o quanto antes, quero que tu caia de boca em mim, cansei das aventuras heterossexuais”. O barbudo era uma ilusão, Ezequiel fora uma diversão da juventude, aquele bissexual mentiroso. Disse-me que era hetero. Entretanto, Ângela era o que eu queria, e eu sou o que elaquer. Sem mais choros, apenas me tornei uma mulher de princípios.

segunda-feira, 28 de abril de 2008

A Máfia do Divã

Estava tudo como deveria ser. Cassandra entraria no supermercado da rua do forte às oito da noite. Sairia de lá por volta das nove, acompanhada de dois filhos: Ângelo, de cinco anos; e Patrícia, de sete. O seqüestro de Cassandra fora programado desde janeiro, quando a Máfia do Divã entrou em contato comigo para facilitar o encontro do criminoso com a vítima. Para aqueles que não conhecem a Máfia do Divã, saibam que é uma das facções mais violentas de Florianópolis. Com 15 anos de existência, a máfia do Divã já seqüestrou 56 jornalistas, 19 políticos e 27 artistas, entre cantores, atores e escritores. Entrei nesse ramo há 13 anos, desde que perdi minha filha Carla de quatro anos de idade e minha esposa Jussara, de 26, em um fogo cruzado da polícia local com alguns pivetes, ladrões de galinhas. A lembrança de Carla e Jussara, minha família, martela dia e noite em minha cabeça. Vivo a base de remédios, posso dizer que vivo com a morte.

Em 23 de Dezembro de 1994, Elias Garotinho, na época um traficante de respeito, ameaçou-me ao exigir que eu o ajudasse. Elias queria sair do país, fugia há meses do Polícia Federal. Era um dos traficantes mais procurados da América Latina. Elias batia o recorde da Colômbia, tranquilamente. As favelas do Rio de Janeiro e os bairros oriundos de Salvador não chegavam nem perto do litoral catarinense. Consta, em uma pesquisa, que Florianópolis é a principal capital brasileira fumante de maconha. No entanto, o governo local abafa o caso, prefere divulgar as belezas naturais. O governo omite, por exemplo, a corrupção da Polícia Militar, os desvios de milhões dos cofres públicos que foram parar na conta do Secretário de Meio Ambiente do estado, Airton Gonçalves de Mello. Airton é pai de Marcos Loreira de Mello, um dos lideres da Máfia do Divã. Tanto o pai, quanto o filho, foram os responsáveis pelo seqüestro e homicídio do jornalista Fernando Carneiro da Silva. Este jornalista era nada menos que o diretor de redação da Folha Catarinense. Foi executado com sete tiros na cabeça por designar sua equipe a investigar a fundo a procedência do tráfico de drogas em Florianópolis. Durante uma semana, Fernando Carneiro recebeu ameaças por telefone, por e-mail e por cartas. Publicou as ameaças em manchete no jornal, exigia a atuação mais ostensiva da polícia, só que os agentes da lei, como eu disse, eram corruptos. Fernando Carneiro não foi assassinado somente pela investigação às drogas, mas por denunciar o secretário Airton Gonçalves ao Ministério Público, devido aos desvios que a Folha Catarinense divulgou com exclusividade. Fernando Carneiro assinou duas vezes sua sentença de morte. Seu assassinato foi repercutido no mundo inteiro, a CNN deu espaço ao caso em todos seus noticiários.

Mas aí você deve estar pensando, onde eu entro nisso? Eu menti ao dizer que minha função na Máfia do Divã é ser o intermediador. Na verdade, sou um dos assassinos. Você não imagina o que passa na cabeça de um franco-atirador. Nós (homicidas) não refletimos, apenas executamos, no teor da palavra. Não entrei nessa vida para me vingar do filho-da-puta que matou minha família, é claro que este fato me motivou, mas para achar o assassino eu teria que eliminar a Polícia Militar inteira. Como sabia que isso era inviável, optei em viver de forma mais lucrativa. Minha vida deixou de ter sentindo quando fui demitido da Folha, no mesmo período em que ocorreu a morte de Carla e Jussara. Juntei o útil ao agradável. Joguei fora toda minha ideologia de jornalista que aprendi nas burocráticas aulas da faculdade e me dediquei ao crime. Sem falsa modéstia, sou um pistoleiro como ninguém. Senti um gosto enorme ao matar Fernando Carneiro, um prazer que só quem é matador sente. Minha entrada para o crime surgiu quando eu ainda era jornalista, e até foi por causa deste caminho que me demitiram. Quando Elias ameaçou-me pedindo ajuda para fugir do país eu colaborei. Dei a passagem aérea anual que todos os jornalistas da Folha Catarinense tinham direito. Assim me veria livre de Elias, que chegou até mim por me conhecer de vista, eu era repórter policial. A fuga de Elias vazou, meu nome foi exposto, demitiram-me e as conseqüências você já conhece...

Mas voltemos a Cassandra. Ela será seqüestrada por apoiar a campanha contra as drogas, de cunho moralista. Cassandra é uma escritora influente da região sul, também colabora com a Folha Catarinense e com o jornal Zero Hora, do Rio Grande do Sul. A intenção da Máfia do Divã não é matá-la, apenas seqüestra-la para provar quem é que manda: o crime organizado ou as campanhas moralistas? Para mim era serviço fácil. Estacionei meu carro atrás do automóvel dela. Era oito e quarenta da noite quando Cassandra saiu do supermercado, os filhos vinham atrás, carregando as compras. Momento perfeito para atacar. Preferi segui-la até a porta de casa, sem dar pistas, ela estava distraída com as crianças no carro, o que facilitou minha ousadia. A fechei com um cavalo de pau e apontei a arma para sua cabeça: “sai do carro, sua vadia! Sai do carro ou eu mato tuas crias!” A cadela implorou pela vida das crianças, deixei que os filhos entrassem para dentro de casa e coloquei Cassandra no porta-malas de meu carro. Desloquei-me até o lago oeste, lá havia uma cabana de madeira escondida sob um areal. A partir dali, passaria a conviver com Cassandra de Almeida. Tudo que ela exigia era folha e lápis, queria escrever o que sentia para publicar em livro. Ela falava e perguntava coisas sobre o existencialismo, tudo que estudei na faculdade, e eu respondia. Contei tudo a ela, sobre minha vida, minha trajetória e até sobre a Máfia do Divã. Contei porque já havia passado uma semana, e de acordo com o regulamento da Máfia, sempre que se passam sete dias com o seqüestrado sem ordem para libertá-lo, é sinal de que a vítima será assassinada. Quis contribuir com ela por saber que eram suas últimas escritas, quis dar margem a sua imaginação. Dei a falsa esperança de que ela sairia viva dali.

Até que no dia 7 de março desse ano, o surpreendido fui eu. A polícia, (a que não era corrupta) descobriu o cativeiro do lago oeste, eu reagi tentando evitar que levassem Cassandra e fui morto com um tiro no peito e outro no crânio. Cassandra foi libertada com todas as informações sobre a Máfia do Divã, que, por sua vez, foi exterminada em parceria com a Polícia Federal semanas mais tarde. Cassandra de Almeida decidiu não falar sobre seus sentimentos no cativeiro, e sim publicar esta história na primeira pessoa, na voz ativa daquele que a seqüestrou e a vigiou durante nove dias, oito horas e trinta e quatro minutos.

sábado, 8 de março de 2008

A saga de Sabrina



“Às vezes preciso do teu socorro singelo. Lembra? Aquele que nunca foi para frente, que nunca esteve aos nossos pés. Há momentos em que sinto uma enorme dor capaz de afogar nossos corações em mágoas perpetuadas pela nossa estupidez romântica. Ainda faço de conta que te conheci ontem, que te beijei hoje, e que me apaixonei pelos teus abraços apertados. Nada faria sentido se o nada fosse o acaso. Ou ainda tudo seria o nada. Do que importa a verdade? Foram e são circunstâncias solenes como aquele sino de nosso matrimônio. Tirei sua aliança e passei adiante. Adiante naquela gaveta suja, imunda com seus pertences. Sou um miserável. Um assassino de lembranças. Queria ter a certeza de que você não voltaria. Queria ter a gratidão de sua traição. Adultério. Quem diria que nós algum dia daríamos certo. Ou que nós, durante três horas sem intervalos, passaríamos nossos melhores momentos de prazer alheio. Quanta bobagem isso se tornou depois que você me disse que seu coração não fazia mais sentido bater por mim. Olhei durante dias para aquela pedra moldada na parede de nosso antigo quarto. Nossos nomes ainda estão lá, gravados, marcados por um arranhão. É inevitável não refletir sobre nossas atitudes ou sobre nossos vícios. Parecíamos estrelas do rock. Sexo, drogas e rock in roll. Na gaveta abaixo da sua, estão as seringas, os baseados queimados e um restinho de pó branco do qual usufruímos na noite de ano novo. Ainda me lembro daquela frase: ‘Que venha o ano seguinte, cheio de amor e droga em nossos corpos eternamente unidos’. Que porra foi aquilo? Devíamos mesmo estar perdidos. Mas no momento todas as suas palavras vão de encontro com o meu corpo agora fechado sob um caixão. Em breve enterrado, como num dia em que eu nunca a tive em minha vida. Você sempre será minha flor, embora eu não seja mais a água que te refresque dos seus pesadelos insólitos e insolúveis.”

Sabrina se deparou com o seu rancor ao ler a carta deixada por Bebeto. “Aquele viciado filho da puta vai tentar se matar de novo.” Caminhou até a casa de Rosangela, tocou a campainha e disse em alto e bom tom: “O corno vai tentar suicídio de novo!”. Rosangela por sua vez retrucou: “E tu vai tentar salvar aquele viciado lunático?” “Tenho alguma outra escolha?’ “Você pode deixar que ele morra, assim ele não te perturba mais!” “Do que está falando, Rosângela, o viciado é meu irmão, caralho!”. Ela sede: “É a última vez que eu te ajudo, Sabrina! Esse teu irmão quer te comer faz um ano, já te disse pra te internar esse doente!”. Saíram as duas no fusca de Sabrina, rodaram até a usina da cidade, abandonada há mais de 50 anos. Lá estava Bebeto, sobre um muro de 24 metros. Rosangela desce do carro gritando: “Se vai pular, pula de cabeça duma vez pra não dar mais trabalho pelo resto da vida, seu doente mental!”. “Cala a boca, Rosangela! Assim tu não ajuda, porra!”. Bebeto grita: “Sabrina eu te quero!”. “Ela é tua irmã, seu merda!” – responde Rosangela, com o rosto bufando de raiva. Ele continua: “Eu vou me matar, eu vou pular daqui!”. “Tu já tá pulando isso aí faz um ano, pula de uma vez então.” – Rosângela torce pela morte de Bebeto. E ele pula. Sabrina se desespera. Ele quebra o pescoço e coluna na queda. Os olhos de Rosângela brilham. Sabrina grita. Rosângela a segura e diz: “Venha, baby, talvez tenha sido melhor assim, cedo ou tarde isso iria acontecer”. Sabrina se consola no ombro de Rosângela, as duas voltam lentamente para o fusca, Rosângela conclui: “Desde que ele nos pegou na cama ele enlouqueceu, durante todo esse tempo escrevia carta de amor para ti, teu irmão era doente.” Ao entrar no carro Sabrina, com um olhar certeiro fala sem piscar: “Ele não era doente, Rosângela; eu transava com ele antes de te conhecer, sua vadia.” Não demorou muito para que a garganta de Rosângela fosse cortada por uma navalha que ficava escondida na cintura de Sabrina. Ela sorri. Empurra o corpo de Rosângela para fora do veículo. Dá marcha ré, pega distancia, em seguida engata a primeira e passa por cima de Rosângela.

Sabrina chega em casa com sua baby loock manchada de sangue. Vai até o armário e pega uma lista onde aparece o nome de seus pais riscados, abaixo deles está o nome de Bebeto (seu irmão) e o de Rosângela (sua amiga e amante). Risca os dois. Vai se lavar pensando: “preciso descansar, a lista é grande”.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

O frango grelhado


Estava tudo como deveria ser. Mesinha no centro da sala, sofá coberto por um pano fino, de seda e com as pontas brancas. Os CD’s, assim como os livros, empilhados em ordem alfabética, por artista e autor. Na cozinha eu preparara uma frango grelhado. Há várias teorias sobre o frango grelhado. Dizem que o bom frango é o que permanece menos tempo no fogo. Confesso que não sou lá grande coisa na cozinha, me arrisquei no frango grelhado e nem sei se ela gosta de frango. E se ela for vegetariana? Deveria ter pensado no plano B. Ou melhor, que plano B que nada. Ela só vem mesmo para transar. Mas e se ela não quiser transar? Ela pode não querer comer o frango e nem transar, vai ver é uma neurótica, assassina, quer conhecer meu apartamento, mexer nas minhas coisas. Céus! O que há com as mulheres de hoje em dia? Eu a convidei para vir ao meu apartamento e ela aceitou numa boa. E eu a vi apenas uma vez. Ela pode ser qualquer pessoa, de qualquer nível. Onde eu estava com a cabeça no momento em que a convidei? Agora o frango está lá, sendo assado para uma mulher que pode querer fazer qualquer coisa comigo, ou não. Mas se bem que... Se ela aceitou foi porque deve ter gostado de mim, não? Porque ela aceitaria? Seria uma garota de programa? Fiado? Não... Não... Ela não tem cara de prostituta. Pensando bem, as garotas lá da faculdade também não aparentavam ser profissionais do sexo e transavam toda a noite com um homem disposto a pagar o exorbitante preço. Além de prostituas são mercenárias. Ah, essas mulheres de hoje em dia, não dá mais para confiar em ninguém. Aí, meu Deus! A campanhinha tocou, deve ser ela, onde estará o meu revolver? Não vou atender a porta assim, desprevenido. Não, hoje não. Essa mulher pode até tentar me matar, mas tem que ter muita bala na agulha. Não sou nenhum amador inocente que convida qualquer mulher para vir ao meu apartamento, decorado, em ordem, limpo. Não é qualquer uma que entra em minha residência. Mas que diabos! Onde está o meu revolver? Tenho que achá-lo. Droga! Ela está insistindo na campainha, direi que já estou indo – Eu já atendo, um instante, por favor! – pronto, agora ela vai esperar. Ao menos mais alguns segundos. Sei que deixar uma dama esperando é falta de educação, mas ela também pode não ser uma dama. Achei! Estava aqui, escondido nesta gaveta que nunca abro. Vou carregá-lo. uma, duas, três, quatro balas deve estar de bom tamanho. Agora sim, vou atender a porta: Seu Antônio! Que susto. – Há uma correspondência para o senhor? – Para mim? Ah, obrigado seu Antônio. – Disponha, Doutor, tenha uma boa noite. – Obrigado, Antônio, tenha uma boa noite você também. Não acredito nisso. Não era ela, era o seu Antônio, o zelador. Mas isso é hora de entregar correspondência? Vou tirar esse revolver da minha cintura, está encomodando-me. Irei deixá-lo aqui em cima desta estante, para que eu não o perca de vista, quando ela chegar estarei prevenido. E o frango? Cruzes! Deve estar queimando! Ufa, foi por pouco. Está aqui, bem servido. Vou deixá-lo à vista, assim posso distrai-la com o frango e quando ela menos esperar, será ela a sobremesa, esquartejada sobre a minha mesa de jantar.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

Um dia depois do outro


Sentados na praia, ela confessa sua saudade:
- Estou feliz em te ver...
- É... Eu também.
- Depois de tanto tempo, né?
- Pois é.
- O que houve?
- Esse é o problema, não houve.
Ela olha para o lado, sente a areia da praia levemente tocar seus olhos, os fecha e deixa escorrer uma lágrima. Ainda um pouco apreensiva, ela exclama com o canto da boca:
- Eu sabia que esse dia chegaria...
Agora é ele quem olha para o lado, sente o vento respaldá-lo, coloca seu braço sobre o ombro dela e fala com a voz calma, porém mortífera:
- Há sempre um dia depois do outro.


De começo ela não havia entendido o que ele quis dizer. Depois dessa frase Afonso levantou-se em partes; primeiro retirou seu braço do ombro dela, depois se ajoelhou, beijou-lhe a testa, e por fim levantou-se. Renata olhava Afonso se afastar dela, em segundos ele já era uma miragem no horizonte daquela praia deserta. Em questões de minutos Renata já não o via mais. Afonso foi embora, e talvez para nunca mais voltar, pensou. Ela também ponderou sobre a frase de Afonso: “Há sempre um dia depois do outro.” – O que será que ele quis dizer com isso? Renata não encontrava resposta para si mesma havia anos, quanto mais para as frases enigmáticas e prosaicas de Afonso. Ela permaneceu mais dez minutos sentada na areia esperando que o vento levasse sua tristeza embora, esperando que o cheiro do mar levasse a si embora. Renata, então, se levantou, caminhou até a beirada, sentiu a água tocar seus pés, e disse a si mesma com uma entonação de pecadora: Que belo fim seria se eu me matasse agora. Por um instante tudo pára, ela apenas se orienta pela audição. Com as pálpebras fechadas, o que ela mais quer é sentir o mundo, sentir a realidade do cotidiano contra sua forma fictícia de amar e viver. “Eu perdi o Afonso”. “O perdi para todo o sempre.”


Era dez e vinte e dois quando Afonso acordara suado e com a respiração ofegante: Cristo! Estou atrasado! Vestiu a primeira bermuda que viu pela frente, colocou sua clássica regata branca de salva-vidas mirim e desceu as escadas se tropeçando até chamar atenção da mãe:
- Que isso, Afonso! Aonde tu vai com essa pressa?
Ele olha firme para a mãe e sem hesitar responde:
- Vou encontrar o amor da minha vida.
Saiu batendo a porta, e já no outro lado da rua ouviu a polêmica frase do pai dos anos modernos:
- Use camisinha!


Afonso não deu bola para o comentário impertinente e gozador de seu pai. Até porque seu pai sabia que hoje Afonso ficou de se encontrar com Renata às 10h30min na orla dos pescadores. Aliás, Garotas de 16 anos detestam esperar, são impacientes, um minuto de atraso e elas já pensam bobagens do tipo que ‘ele não me ama mais’, ou ‘ele não quer me ver’. No entanto, Afonso tinha a certeza incontestável de que naquela manhã ele voltaria a sentir os lábios macios de Renata. Estava louco para vê-la, foi então que lembrou de seu sonho, ou pesadelo. Não faz sentido, nunca deixaria Renata, disse a si mesmo. Caminhou ligeiramente os dois quilômetros que distanciavam sua casa do ponto de encontro com Renata. A enxergou lívida, de pé na beira da praia com os olhos fechados girando em torno de si mesma. Ele grita euforicamente:
- Renata!
Ela parece não ouvi-lo, ele faz uma segunda e inútil tentativa:
- Renata!


Não restava outra hipótese senão ir até onde o corpo de Renata se movia sobre a água salgada. Renata parecia estar em transe, hipnotizada. Afonso apenas cutuca o ombro esquerdo dela, Renata se vira, e ainda de olhos fechados o beija. Foi uma troca de salivas longa e contínua, durou cerca de um minuto. E nisso Afonso tinha razão, ele realmente voltou a sentir os doces lábios de Renata. Mas quase que efêmero, o sabor doce ao qual ele tanto almejava já não era mais o mesmo. Ainda se beijando, Renata retira do bolso de seu short uma carta que guardou durante uns dois anos, apenas esperava o momento certo. E o momento chegou.


No dia anterior Renata relembrou dos velhos amigos, namorados, e inevitavelmente de Afonso. Tiveram um caso na época de pré-adolescentes. Ela também lembrou da carta que escrevera na noite em que Afonso, bêbado, a chamou de vadia, burra e ignorante. Afonso não sabia o que estava fazendo naquela noite, no auge dos seus 16 anos, abusou do álcool e resolveu falar alguns palavrões para a única garota, e futuramente mulher, que o amava de verdade. Renata se sentiu um lixo quando ouviu da boca de Afonso as palavras que ofendem a índole de qualquer mulher que se preze. Isso a magoou profundamente, tão profundamente que sobrou inspiração para escrever uma carta de despedida.


Em meio aquela nostalgia do dia anterior, Renata ligou para Afonso com a finalidade de marcar um encontro, depois de dois anos. Ao telefone Afonso quase chorou ao escutar a voz amadurecida de Renata, no fundo ele ainda a amava, mesmo não sabendo.
Na praia, ao sentir a carta entre as mãos, Afonso pára de beijar Renata. Ela o encara perante alguns segundos e diz:
- Há sempre um dia depois do outro.
Ela vai embora, lentamente caminhando sobre a água salgada. Ele sem entender nada, senta na areia úmida e abre o envelope da carta enquanto Renata torna-se uma miragem desaparecendo no horizonte daquela praia deserta, que agora era ácida, mordaz, fulminante.
Ele lê a carta, olha a data e se surpreende. Nem lembrava mais da noite em que dissera as cruéis palavras a Renata. Mas ela... ah, ela jamais esqueceu:


"Meu amado, Afonso. Sei que ao receber essa carta você me encontrará em uma praia deserta, dando voltas em torno de mim mesma sobre a água do mar. E neste exato momento estarei pensando de como eu poderia justificar todo o meu sofrimento. Suas palavras arderam no meu coração como uma pedra tutelável. Não há razões para fazer o que tem feito comigo. Já me abri para você, me declarei a você, já lhe disse o quanto lhe amo, o quanto é importante para minha vida. Mas depois dessa noite, não tenho mais certeza de meus sentimentos, de meu mundo. Acho que suas palavras fortes, cruéis, vindas de um garoto imaturo, tornaram a abrir meus olhos para a realidade de suas intenções. Hoje eu completei 14 anos, Afonso. E provavelmente, no dia que ler essa carta, será o dia de meu aniversário novamente. Mas você não lembrará, vai seguir seus impulsos primitivos, querendo me beijar e apertar minha bunda como sempre fez. Você só me usa, Afonso. Já passou da hora de você crescer, é uma pena que seja tarde. E no dia em que tiver lendo essa carta, eu estarei lhe usando da mesma forma que fez comigo. Não será vingança, apenas ironia do destino. Só quero que saiba que eu lhe amei de verdade, porém não acredito mais em conto de fadas. Já estou pronta para ser mulher, apenas quero seguir minha vida, agora sem você junto comigo. Também sei que quando ler essa carta você já terá madurecido até certo ponto, não sei se o bastante. Mas será que isso ainda importa? Talvez eu não seja mais a mesma. Um beijo de quem um dia já foi sua. ASS: Renata."


Afonso ficou imóvel durante muito tempo. Viu o pôr do sol sozinho, melancólico. Nunca imaginou que uma bebida pudesse atrapalhar tanto a sua vida. Uma bebida ingerida há exatamente dois anos. Mas como Renata disse, há sempre um dia após o outro. Na vida, todo e qualquer ato da menor insignificância que seja gera conseqüências. Foi então que Afonso lembrou do sonho, e descobriu que não foi Renata que havia o perdido, mas sim ele que a perdeu. Após oito horas sentado naquela areia úmida e gelada, ele se levanta e num suspiro diz em voz alta:
- Por isso que falam que os sonhos vêm ao inverso. Talvez seja a hora de mudar, é justo.