Caros amigos-colegas-leitores, como diria meu professor: por razões pessoais imperiosas me ausentarei durante os próximos seis dias. Vou entrar em retiro espiritual, creio. Volto na próxima terça-feira,13, para dar continuidade a este blog que há mais de um ano conta com comentários de pessoas que além de amigos, são tão seres humanos quanto eu. Por isso, espero a compreensão de todos. Aos novos leitores, que sejam bem vindos e continuem acessando a Coluna do Luan. Aos poucos, nossas relações vão passando da virtualidade, já que lidamos com palavras e sentimentos. Isso é muito mais que virtual, é muito mais que real. Obrigado e até breve.
terça-feira, 6 de maio de 2008
domingo, 4 de maio de 2008
À busca
Não sou de ferro, tampouco de aço. Não pertenço a ninguém, a nenhuma fórmula euclástica. Haverá outros tempos em que as praças serão mais abertas ao publico infantil e o tiroteio aos corações femininos trancederá uma remanescente esperança de viver. Até lá, continuarei escrevendo, mesmo sem saber o porquê. Tenho medo de respostas. Tenho medo do que penso ou crio. Tenho medo do mundo. As épocas são como as folhas esverdeadas de emoções, vão caindo lentamente de seus galhos aflitos, corajosos e inescrupulosos. É uma mistura, um relato, ora conceitual, ora imaginário. Preciso urgentemente de mais palavras e menos sangue. Cansei
Amigos, cansei. Cansei de mentir para mim mesmo, cansei de especular metas e não atingi-las, cansei de tentar provar para outrem minhas reais intenções. A partir da publicação desse texto serei outra pessoa. Estou decidido. Vou deixar a preguiça e a hipocrisia de lado e serei mais conciso, menos incoerente. Cansei de estar no mesmo lugar. Vou começar a realizar todas as minhas loucuras. Vou correr às cinco da manhã – e daí que é muito cedo? Não terei mais recaídas quanto ao meu vegetarianismio, ouvirei Bob Dylan e direi em voz alta: Caramba! Esse cara é chapado! – sim, serei mais incisivo, contundente, deixarei à vista minhas opiniões. (Aliás, discordem, por favor, rebatem minhas afirmações! Gosto de discussões argumentadas, debates politeístas que sejam, não importa, vamos controverter.) Também irei pular de pára-quedas, saltar de bang-jump e me matricular na escola de pilotagem Salgado Filho. Terei meu próprio monomotor, serei mais livre. Vou escrever pilhas de livros, ou não. Mas lerei mais do que escrevo, escutarei mais discos antigos do meu pai do que escuto, e falarei dos meus gostos sem escondê-los. Um exemplo: gosto do Faustão. Pronto, falei. Gosto mesmo. A maioria das pessoas acham ele um pé-no-saco, de fato ele é, mas ao menos é autêntico. Já perceberam que todos os seres autênticos são imitados? Podem ser chatos, mas marcam. Olha o Silvio Santos, o Galvão Bueno, o Paulo Brito, todos são alvos. Eles podem até ter copiado uma coisa ou outra, porém, encontraram em suas cópias sua identidade. E insuportáveis ou não, nós os lembramos. Acho o Faustão um gordo simpático. E ele não é tão burro quanto parece, o Faustão tem seus momentos de glória.Também assumirei meus gostos musicais: adoro ouvir Cúmbia! Qual é o problema? Eu escuto metal, jazz, rock melódico, blues, escuto mesmo. O bom da vida é ter essa aptidão musical, não se restringir a um estilo e assumir papel de homofônico cultural. Eu escuto MPB! Escuto baladas italianas, pop dos anos 70... Gosto de ir ao teatro e amo Quentin Tarantino, Stanley Kubrick, família Coppola, sou um friccionado pelo cinema clássico e assisto os alternativos. Mas voltando à música: alguém aí já ouviu Blue Mountain? Eu adoro Blue Mountain. O único CD que eu tinha deles eu dei para minha ex-namorada como prova de amor. Que ridículo isso! Se fosse hoje, com minha atual posição referente ao amor, eu não daria nenhum disco, nenhum livro e nenhum filme que guardo em meus arquivos. Cansei desse mel amoroso. Acho que devemos ser românticos sim, mas respeitando o espaço alheio. Hoje em dia os relacionamentos estão muito superficiais. Dou-te dinheiro e tu me dás sexo, que tal? Também cansei das mulheres gostosas. Alguém pode me explicar o que está acontecendo com os cérebros? Vou procurar me envolver com mulheres de conteúdo, não importa se elas não têm peito ou uma bunda grande, gosto de mulheres inteligentes e charmosas. Para ser charmosa ou até sensual não precisa ter um corpo voluptuoso, a mente feminina pode tornar a própria mulher voluptuosa. Basta saber do que se está falando, ter alguma preferência de vida e ser livre para conquistar seus objetivos.
Essas gostosas de hoje em dia me torram a paciência. E o mundo está cheio delas. Não falam e não fazem nada que não seja relacionado ao namorado. As gostosas que não tem namorado se catalogam com o primeiro chipanzé de boa trela e com dinheiro no bolso que aparece. Aí elas são usadas e depois dizem o velho clichê: homem é tudo igual. Os que não são iguais estão cansados dessa mediocridade. O ponto de partida é saber o que se quer, definir algo e não sair beijando qualquer um que tenha uma camisa de marca. Às vezes ando desarrumado, barbudo e descabelado, não é nada assustador. Acontece que cobiço conhecer as pessoas pelo que elas são e não pelo que elas vestem ou têm. É difícil de entender isso? Já cansei de receber olhares do tipo: “olha o tênis dele” ou “Que camiseta mais brega”. Só porque meu tênis estava sujo e minha camiseta era da Renner. E eu? Onde entro nessa história? Ah... “O status social”. Que se exploda. Vou nadar pelado na piscina aqui de casa, vou entrar no shopping descalço com minha amiga e pedir pão francês amanteigado. (Como ela mesma propôs). Vou ser mais livre do que imagino ser. É claro que o conforto é bem vindo, agora quando começa a corroer o espírito do ser humano, sugiro que dê um passo atrás e diga para si mesmo: “Hei, um dia eu andei de ônibus”.
Cansei dessa nossa fase comportamental. Falei das gostosas de forma genérica, vale lembrar que existem gostosas inteligentes, só que o processo é inverso: elas primeiro são de conteúdo, depois se rendem às formas do corpo. Fazem plásticas, entram em regime 27 vezes por ano. Pô, que graça tem não poder comer uma torta de bolacha? Nada contra esse tipo de mulher, mas prefiro as naturais de mentes evoluídas. Gosto de mulher que me mande calar a boca: “Isso é uma besteira”. E provam porque eu falei besteira. Gosto daquelas que corrijam meus erros de ortografia. Gosto das espontâneas – o que também está em falta. Por fim, me apaixono por aquelas que assumem o que são, sem medo do que os outros pensam. Tenho volição por mulheres independentes, àquelas que são solteironas por opção. Cansei das comuns.
Cansei de tudo. Vou comprar uma Combe e ligar “Hey Jude” a todo o volume. Cansei dos nossos anarquistas modernos. Por que não posso ser eu? Vou começar a falar o que sinto. Tenho que ser mais sincero com as pessoas que me relaciono. Ainda estou me descobrindo e preciso de espasmos. Entretanto, antes de tudo, preciso de mim mesmo. É por isso que eu idolatro os domingos.
sábado, 3 de maio de 2008
Uns Dias
O expresso do oriente, rasga a noite, passa rente.... E leva tanta gente, que eu até perdi a conta. Eu nem te contei uma novidade quente... Eu nem te contei... Eu tive fora uns dias, numa onda diferente. E provei tantas frutas que te deixariam tonta. Eu nem te falei da vertigem que se sente, eu nem te falei... Que eu te procurei pra me confessar... Eu chorava de amor e não porque sofria. Mas você chegou, já era dia e não estava sozinha. Eu tive fora uns dias, eu te odiei uns dias, eu quis te matar...Hebert Viana.
sexta-feira, 2 de maio de 2008
Sexta-feira com Lavoisier
Tenho pavor da sexta-feira. Sei que a qualquer momento o telefone de casa pode tocar, meu celular pode vibrar e alguma alma pensante pode me convidar para sair. O que eu faço? Digo que sou autista? Não, não posso mentir. A minha realidade é outra, amigos. É outra. Tento incontavelmente demonstrar isso para as pessoas que amo. Tento dizer até para aqueles de quem não gosto: minha vida é outra. Não sou como os garanhões da novela das oito, tampouco um baladeiro pós-adolescente. Amigos, pertenço a outros caminhos. Não gosto de ter que compartilhar meus problemas, mas às vezes é necessário. Assim como a solidão é necessária. Falei sobre a rotina de um organismo solitário no post de terça-feira e poucos leitores absorveram o que eu realmente quis dizer. Assim somos nós, alguns nos compreendem, outros não. Alguns nos pré-julgam, outros não. Alguns nos odeiam, outros não. Não quero me colocar como um extraterrestre, mas eu não integro a classe da grande maioria do público jovem. Contudo, também não me sinto como um quarentão. Eu sou apenas o Luan. Tenho meu passado e vivo meu presente que erroneamente projeta um futuro afobante. Esse sou eu. O Luan é aquele cara que não sai para qualquer lugar, ou sai, se a companhia for boa. O Luan valoriza uma amizade, principalmente as femininas. O Luan tem poucos e bons amigos (masculinos). E isso não faz do Luan um bissexual, ou um gay. E se fosse, qual seria o problema? Porém, o Luan é hetero. E talvez um dos heteros mais flexíveis desse planeta. O Luan dificilmente tem algum preconceito, ao contrário da sociedade em que vive.Há momentos em que preciso deitar minha cabeça no travesseiro e chorar, eu tenho que chorar, fazer com que minhas lágrimas mostrem sentimentos a mim mesmo. Choro no escuro, no quarto, na sala, no banheiro, o ser humano deve carpir-se. Precisamos botar para fora nossas tristezas, angústias e até felicidades. Já viu alguém chorar por que está feliz? Pois bem, eu choro. Minha companhia mais concreta que possuo é o Lavoisier, meu ursinho de pelúcia. Durmo com o Lavoisier todas as noites. Ele não reclama se eventualmente eu ronco, se me mexo muito na cama e o destapo, se acordo tarde ou cedo demais, se leio livros em voz alta, se trago jornais antigos para o quarto. O Lavoisier é meu companheiro. Ele não rezinga de minha vida, ele me partilha com o seu mundo. Lavoisier é real, em um outro plano ele pode falar com outros ursinhos de pelúcia, ele pode ter até família. Achas loucura? Nosso cérebro é uma fábrica de ilusões, meus caros. A imaginação é veracidade mais madura que podemos ter. Se prender ao que vemos e tocamos é ignorância, o universo é mais do que nós mesmos.
Penso em tanta coisa que garotos de 20 anos jamais pensariam, falo pelos que conheço, são poucos os jovens existencialistas. O acesso à cultura inútil, a futilidade comercializada por nossa raça é mais rentável. É mais fácil, não há esforço mental. É fato, as pessoas não pensam. Não agregam nada ao intelecto. E para ser um intelectual você não precisa decorar pilhas de livros nem ler dez jornais por dia. Tudo que você precisa é tentar saber quem és. Por isso que são poucos os intelectuais. Raros, diria. Intelectualidade vira um cano de escape, já que não sabemos quem somos, falemos do que está ao nosso lado. Weber, Freud, Jung, Schopenhauer, Lacan, Heidegger, Nietzsche, Marx, Aristóteles e o ainda vivo Umberto Eco são exemplos de doutrinas diferentes, mas que em algum lugar houve um gancho. Eles com certeza não souberam e nem sabem quem foram ou são. Eles tiveram uma tese aproximada. Entretanto, enfeitaram suas dúvidas no comportamento, na reflexão, na história e até na sociopolítica. Enfeitaram e se auto-responderam. E isso os tornou intelectuais, só porque eles não fizeram o que mais da metade da população mundial faz: não progredir mentalmente.
A sexta-feira é uma das provas disso. “Eu trabalhei a semana inteira, vou curtir o finde”. Curtir? Beijar pessoas que mal conhecemos? Penetrar alguém que só sabemos o nome? Ou então, o mais corriqueiro: tomar litros e litros de cerveja a fio. Não, obrigado. Chame-me do que quiserem, me rotulem; ainda acho minha vida mais proveitosa do que as de muitos psicopatas sociais. A praga do ser humano é ser contagioso. Por favor, deixe-me só com Lavoisier, essa noite iremos beber suco de maracujá e discutiremos sobre o amor e o sexo no Jardim do Éden. Creio que estou me envolvendo sentimentalmente de novo. Sou vulnerável, sou humano. Até mais, amigos. Bom fim de semana.
quinta-feira, 1 de maio de 2008
Momentos
Em um de meus momentos ponderativos lembrei de Jay Vaquer. Narrarei a cena: Estava na sacada de casa, observando o mundo, vendo a rotina, as pessoas transitando, ônibus passando... Mil coisas vieram a minha mente. Decidi ler um livro, mas ele não me agüentou. Procurei um filme para assistir na TV a cabo, mas esses canais por assinatura nunca gostaram de mim. Apelei, então, para a internet; antes, contudo, queria ouvir algo que me tornasse metafísico. Que me tirasse desse plano. Ao contrário do que esperava, liguei a música “Cotidiano de um casal feliz”. O que me fez permanecer nesse plano, e acima de tudo, nessa vida.Leia a letra, é fantástica.
Cotidiano de um casal feliz
Composição: Jay Vaquer
Alguém sabe dizer o que é normal?
Pode parecer tão natural
Ele manda em tudo, em todos curte seu poder
E deixa a esposa em casa pra brincar no trecode qualquer traveco em troca de prazer vai saber porque...ieiê
E a esposa anda malhada fez lipoescultura e a falta de cultura nunca foi problema ela tem dinheiropra dar e vender lê Paulo Coelho e seicho-no-ie vai saber porque...iê
E eles têm escravos disfarçados de assalariados diariamente humilhados se levantam cedo, se arrumam apressados têm hora marcada pra falar com Deus
Alguém sabe dizer o que é normal?
Pode parecer tão natural
Ele guarda no HD fotos de crianças nuas, pra tirar um lazer
Curte ver aquilo quando fica só
Ela conta os passos que dá no trajeto entre a terapia e a boca do pó
E até pensa em adotar alguma criatura, pode ser uma criança ou um labrador
Só depende da raça, depende é da cor que pintar primeiro...
Ele faz como ninguém a cara de quem não sabe mentir pode admitir, pra ocupar o vazio da relação mas com uma condição: não quer dar banho, nem limpar merda o dia inteiro
Eles foram ver o show da Diana Krall que alguém falou que era genial, gritaram "uhuu" do camarote enchendo a cara de Scotch
E eles têm escravos disfarçados de assalariados
diariamente humilhados se levantam cedo, se arrumam apressados
têm hora marcada pra falar com Deeeeeeuss! ououôô
Alguém sabe dizer o que é normal?
Pode parecer tão natural...
Agora sim, com a sua licença, vou ler meu livro.
quarta-feira, 30 de abril de 2008
Uma mulher de princípios
Fechei as cortinas, limpei o quarto e chorei. Antes das lágrimas, no entanto, pedi a mim mesma um pequeno intervalo para o café. Não me posso esgurrecer aos prantos enquanto tomo café. Meu pai, antigo fazendeiro dos anos 60, sempre me dizia que o café era sagrado. Devemos estar concentrado ao tomar o primeiro gole. Um desejo nessa hora é bem-vindo. Estava aí a formula para minha vingança retroativa: tomaria um gole de café preto almejando tua volta. Mulheres como eu não ficam se angustiando por qualquer homem barbudo como você. Ainda guardo na gaveta de minha cômoda uma camisa sua, com o seu cheiro natural. E quando penso nisso volto a chorar. Chega. Resolvida, abri a porta de casa e encontrei Ezequiel, um antigo amigo da faculdade. Falei para ele de minhas chateações e ele me propôs um programa pra lá de excitante. Primeiro eu teria que colocar as pernas por debaixo de seu ombro, fazendo com que meus pés se curvassem na sua nuca. Ele já queria estar ao mesmo tempo por debaixo de mim. Fui contra, aleguei que essa posição é dolorida, já havia feito o teste com o barbudo que me abandonou. Mas pensando bem, foi só com ele. E se com o Ezequiel fosse diferente? Nunca é demais tentar. Pedi que ele me buscasse às oito para seguirmos um ritual de casal apaixonado. Iríamos primeiro jantar e depois para o motel. Ele topou. Meio óbvio, não? Depois dessa noitada cheguei à conclusão de que o sexo com Ezequiel já não era mais o mesmo. Ele havia mudado e eu também. Transávamos desde a minha vida acadêmica. É melhor que nossa amizade fique sem sexo, avisei. Ele protestou, mas acabou aceitando minha imposição. Sexo com homem chato é a pior coisa do mundo. Acha que somos um objeto pirotécnico de mil e uma posições. Tudo tem limite. Depois de dispensar Ezequiel cai na depressão e voltei a pensar no barbudo, onde ele estaria? O que estava fazendo? Será que ele não pensa em mim também? Nunca transamos de verdade. Foi só amor. Não era justo perdê-lo, eu precisava experimentá-lo. Sou uma carnívora, preciso de gozo. Será que tento? Posso ligar para ele. Será que não é tarde? Creio que não. Nunca é tarde para uma bela mulher cassar seu macho. Liguei e ninguém atendia. Entrei em desespero porque queria muito vê-lo. Sentia falta do meu barbudo. Fui até sua casa, apertei a campainha e ninguém atendia. Tentei manusear a fechadura e para minha surpresa a porta estava aberta. Quanta desatenção do meu barbudo. Resolvi entrar, caminhei lentamente até ouvir vozes masculinas vindas de seu quarto. Tudo estava aberto, desloquei a porta do quarto e vi minha decepção: Ezequiel trepando com meu barbudo. Não podia acreditar, eles eram gays ou bissexuais? Não importa. Qualquer resposta naquele instante de nada adiantaria. Preferi voltar para minha cama e chorar, chorar muito. As lágrimas eram minhas únicas companheiras, sem mais homens, não quero mais saber de homens. Liguei para Ângela e resolvi voltar ao o que eu era, resolvi voltar à minha essência: “Ângela, venha para cá o quanto antes, quero que tu caia de boca em mim, cansei das aventuras heterossexuais”. O barbudo era uma ilusão, Ezequiel fora uma diversão da juventude, aquele bissexual mentiroso. Disse-me que era hetero. Entretanto, Ângela era o que eu queria, e eu sou o que elaquer. Sem mais choros, apenas me tornei uma mulher de princípios.terça-feira, 29 de abril de 2008
segunda-feira, 28 de abril de 2008
A Máfia do Divã
Estava tudo como deveria ser. Cassandra entraria no supermercado da rua do forte às oito da noite. Sairia de lá por volta das nove, acompanhada de dois filhos: Ângelo, de cinco anos; e Patrícia, de sete. O seqüestro de Cassandra fora programado desde janeiro, quando a Máfia do Divã entrou em contato comigo para facilitar o encontro do criminoso com a vítima. Para aqueles que não conhecem a Máfia do Divã, saibam que é uma das facções mais violentas de Florianópolis. Com 15 anos de existência, a máfia do Divã já seqüestrou 56 jornalistas, 19 políticos e 27 artistas, entre cantores, atores e escritores. Entrei nesse ramo há 13 anos, desde que perdi minha filha Carla de quatro anos de idade e minha esposa Jussara, de 26, em um fogo cruzado da polícia local com alguns pivetes, ladrões de galinhas. A lembrança de Carla e Jussara, minha família, martela dia e noite em minha cabeça. Vivo a base de remédios, posso dizer que vivo com a morte.Em 23 de Dezembro de 1994, Elias Garotinho, na época um traficante de respeito, ameaçou-me ao exigir que eu o ajudasse. Elias queria sair do país, fugia há meses do Polícia Federal. Era um dos traficantes mais procurados da América Latina. Elias batia o recorde da Colômbia, tranquilamente. As favelas do Rio de Janeiro e os bairros oriundos de Salvador não chegavam nem perto do litoral catarinense. Consta, em uma pesquisa, que Florianópolis é a principal capital brasileira fumante de maconha. No entanto, o governo local abafa o caso, prefere divulgar as belezas naturais. O governo omite, por exemplo, a corrupção da Polícia Militar, os desvios de milhões dos cofres públicos que foram parar na conta do Secretário de Meio Ambiente do estado, Airton Gonçalves de Mello. Airton é pai de Marcos Loreira de Mello, um dos lideres da Máfia do Divã. Tanto o pai, quanto o filho, foram os responsáveis pelo seqüestro e homicídio do jornalista Fernando Carneiro da Silva. Este jornalista era nada menos que o diretor de redação da Folha Catarinense. Foi executado com sete tiros na cabeça por designar sua equipe a investigar a fundo a procedência do tráfico de drogas em Florianópolis. Durante uma semana, Fernando Carneiro recebeu ameaças por telefone, por e-mail e por cartas. Publicou as ameaças em manchete no jornal, exigia a atuação mais ostensiva da polícia, só que os agentes da lei, como eu disse, eram corruptos. Fernando Carneiro não foi assassinado somente pela investigação às drogas, mas por denunciar o secretário Airton Gonçalves ao Ministério Público, devido aos desvios que a Folha Catarinense divulgou com exclusividade. Fernando Carneiro assinou duas vezes sua sentença de morte. Seu assassinato foi repercutido no mundo inteiro, a CNN deu espaço ao caso em todos seus noticiários.
Mas aí você deve estar pensando, onde eu entro nisso? Eu menti ao dizer que minha função na Máfia do Divã é ser o intermediador. Na verdade, sou um dos assassinos. Você não imagina o que passa na cabeça de um franco-atirador. Nós (homicidas) não refletimos, apenas executamos, no teor da palavra. Não entrei nessa vida para me vingar do filho-da-puta que matou minha família, é claro que este fato me motivou, mas para achar o assassino eu teria que eliminar a Polícia Militar inteira. Como sabia que isso era inviável, optei em viver de forma mais lucrativa. Minha vida deixou de ter sentindo quando fui demitido da Folha, no mesmo período em que ocorreu a morte de Carla e Jussara. Juntei o útil ao agradável. Joguei fora toda minha ideologia de jornalista que aprendi nas burocráticas aulas da faculdade e me dediquei ao crime. Sem falsa modéstia, sou um pistoleiro como ninguém. Senti um gosto enorme ao matar Fernando Carneiro, um prazer que só quem é matador sente. Minha entrada para o crime surgiu quando eu ainda era jornalista, e até foi por causa deste caminho que me demitiram. Quando Elias ameaçou-me pedindo ajuda para fugir do país eu colaborei. Dei a passagem aérea anual que todos os jornalistas da Folha Catarinense tinham direito. Assim me veria livre de Elias, que chegou até mim por me conhecer de vista, eu era repórter policial. A fuga de Elias vazou, meu nome foi exposto, demitiram-me e as conseqüências você já conhece...
Mas voltemos a Cassandra. Ela será seqüestrada por apoiar a campanha contra as drogas, de cunho moralista. Cassandra é uma escritora influente da região sul, também colabora com a Folha Catarinense e com o jornal Zero Hora, do Rio Grande do Sul. A intenção da Máfia do Divã não é matá-la, apenas seqüestra-la para provar quem é que manda: o crime organizado ou as campanhas moralistas? Para mim era serviço fácil. Estacionei meu carro atrás do automóvel dela. Era oito e quarenta da noite quando Cassandra saiu do supermercado, os filhos vinham atrás, carregando as compras. Momento perfeito para atacar. Preferi segui-la até a porta de casa, sem dar pistas, ela estava distraída com as crianças no carro, o que facilitou minha ousadia. A fechei com um cavalo de pau e apontei a arma para sua cabeça: “sai do carro, sua vadia! Sai do carro ou eu mato tuas crias!” A cadela implorou pela vida das crianças, deixei que os filhos entrassem para dentro de casa e coloquei Cassandra no porta-malas de meu carro. Desloquei-me até o lago oeste, lá havia uma cabana de madeira escondida sob um areal. A partir dali, passaria a conviver com Cassandra de Almeida. Tudo que ela exigia era folha e lápis, queria escrever o que sentia para publicar em livro. Ela falava e perguntava coisas sobre o existencialismo, tudo que estudei na faculdade, e eu respondia. Contei tudo a ela, sobre minha vida, minha trajetória e até sobre a Máfia do Divã. Contei porque já havia passado uma semana, e de acordo com o regulamento da Máfia, sempre que se passam sete dias com o seqüestrado sem ordem para libertá-lo, é sinal de que a vítima será assassinada. Quis contribuir com ela por saber que eram suas últimas escritas, quis dar margem a sua imaginação. Dei a falsa esperança de que ela sairia viva dali.
Até que no dia 7 de março desse ano, o surpreendido fui eu. A polícia, (a que não era corrupta) descobriu o cativeiro do lago oeste, eu reagi tentando evitar que levassem Cassandra e fui morto com um tiro no peito e outro no crânio. Cassandra foi libertada com todas as informações sobre a Máfia do Divã, que, por sua vez, foi exterminada em parceria com a Polícia Federal semanas mais tarde. Cassandra de Almeida decidiu não falar sobre seus sentimentos no cativeiro, e sim publicar esta história na primeira pessoa, na voz ativa daquele que a seqüestrou e a vigiou durante nove dias, oito horas e trinta e quatro minutos.
domingo, 27 de abril de 2008
Penso, logo necessito de...

... Louças do amor
As louças, os pratos, são como outono ou primavera em um raiar de sol. São como rosas ou espinhos, ou latidos e miados. Meu cachorro que o diga. Esses cães da atualidade nos remetem à reflexão... Já cometi proezas estúpidas, proezas ordinárias, proezas refutadas e mais daquelas que prefiro não lembrar. Sentado neste ônibus, confesso a mim mesmo uma dor inebriante, trêmula e inóspita. Ah... Como eu amo minha glória, como é vertiginoso saber que quem me ama está, na verdade, esperando pelo meu amor.
As louças, os pratos, são como outono ou primavera em um raiar de sol. São como rosas ou espinhos, ou latidos e miados. Meu cachorro que o diga. Esses cães da atualidade nos remetem à reflexão... Já cometi proezas estúpidas, proezas ordinárias, proezas refutadas e mais daquelas que prefiro não lembrar. Sentado neste ônibus, confesso a mim mesmo uma dor inebriante, trêmula e inóspita. Ah... Como eu amo minha glória, como é vertiginoso saber que quem me ama está, na verdade, esperando pelo meu amor.
... Viajar
Costumo viajar de um lado para outro, sem destino, sem observações. Apenas com um rumo concomitante. Agora eu estava prestes a mentir para mim afirmando que sou feliz desse jeito. Carregando toneladas e toneladas de cargas emotivamente limitadas. Talvez eu até seja, no fundo de minhas razões momentâneas.
Por que será que as pessoas detestam tanto os domingos? Os baladeiros que me desculpem, mas domingo é fundamental.
Costumo viajar de um lado para outro, sem destino, sem observações. Apenas com um rumo concomitante. Agora eu estava prestes a mentir para mim afirmando que sou feliz desse jeito. Carregando toneladas e toneladas de cargas emotivamente limitadas. Talvez eu até seja, no fundo de minhas razões momentâneas.
Por que será que as pessoas detestam tanto os domingos? Os baladeiros que me desculpem, mas domingo é fundamental.
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