Coluna do Luan

terça-feira, 29 de janeiro de 2008

O contraste do envelhecimento

Anteontem foi meu aniversário. Como todos, ou quase todos sabem, completei duas décadas. É... Duas décadas. Mas não estou nem aí para a minha idade. E o mais engraçado é que no dia de meu aniversário eu não senti nada de especial. Antigamente sim, eu contava as semanas para chegada de meus ‘anos de vida’. Entretanto, nesse domingo que passou não foi desta forma. Eu acordei e nem lembrei que estava completando vinte anos. Até que meus pais me ligaram de praia parabenizando-me, foi aí que me acordei: Caramba! Hoje é meu aniversário! Acho que na medida em que envelhecemos perdemos o gosto pela comemoração de mais um ano de vida nesse planeta cada vez mais doente. Acho que na medida em que crescemos talvez também evoluamos. Outros não, é verdade. Todavia, isso se baseia em princípios.

Por exemplo, não há aniversário em que você não lembre da sua infância. Você mentaliza os anos que deixou para trás, começa a refletir sobre sua vida, sobre suas atitudes, sobre como você é na essência da alma. Acho que estou entrando na era dos aniversários nostálgicos. Bom, já se passaram vinte anos, penso. E na teoria, terei mais vinte anos, e depois mais vinte, e mais vinte e quem sabe mais vinte. Claro, isso se a linha da palma de minha mão permitir, ou meu mapa astral, ou os Deuses. Vai saber.

Outro dia eu estava no centro de Porto Alegre passeando para renovar meu espírito quando uma cigana de turba e dentes de ouro falso me agarrou pelo braço e insistiu ver as linhas da palma de minha mão esquerda. Lutei irrevogavelmente contra a força surpreendente da tal cigana, mas ela sabia o que estava fazendo. Essa cigana apertou o músculo de meu braço fazendo com que minha mão, involuntariamente, se abrisse. Ambos paramos. Ela ficou defronte para mim e então disse: você terá muita sorte no amor, e viverá muito, até ficar velhinho... Bem velhinho. Não vou mentir dizendo que não acreditei na tal cigana, seus olhos brilharam, e posteriormente ela sorriu pra mim. Foi então que ela largou meu braço, e eu, voltando a caminhar dei a resposta típica de minha personalidade: é... Eu sei, faço bastante exercício físico. Ela continuou rindo e balançou a cabeça com um sinal de simpatia. Depois desse dia passei a ver a minha vida com outros olhos. Será que essa cigana falou-me a verdade? Não posso descartar a hipótese de que ela tenha mentido. Mas a troco de quê? São muitas as dúvidas. Creio que quem faz o nosso destino somos nós mesmos. E se hoje ela ver minha mão de novo, vou continuar tendo sorte no amor e uma vinda longa? Não sei, e talvez não queira descobrir.

Quero apenas viver minha vida de forma segura e insegura, com amor e ódio, com problemas e soluções, com relacionamentos e casos, com sexo e paixão, com flores e espinhos, com brigas e beijos, com vontade e preguiça, com sol e lua, com praia e campo, com divergências e casualidades, e com aniversários nostálgicos. Senão viver, simplesmente viver seria muito fácil. Se bem que também não é tão difícil. E talvez sejam esses contrastes que deixam nosso cotidiano mais saboroso. Embora tenhamos que ser cuidadosos, pois sabores em demasia amarga o nosso romantismo. Aí seremos como os revolucionários do século XX, que supostamente lutavam por causas nobres e deixavam a vida para depois. Eis que o senso comum deveria ser o nosso ponto de equilíbrio. Sinto que mesmo com vinte anos terei que aprender a aceitar o meu envelhecimento vagaroso, e mesmo assim, letífico.


segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

Um dia depois do outro


Sentados na praia, ela confessa sua saudade:
- Estou feliz em te ver...
- É... Eu também.
- Depois de tanto tempo, né?
- Pois é.
- O que houve?
- Esse é o problema, não houve.
Ela olha para o lado, sente a areia da praia levemente tocar seus olhos, os fecha e deixa escorrer uma lágrima. Ainda um pouco apreensiva, ela exclama com o canto da boca:
- Eu sabia que esse dia chegaria...
Agora é ele quem olha para o lado, sente o vento respaldá-lo, coloca seu braço sobre o ombro dela e fala com a voz calma, porém mortífera:
- Há sempre um dia depois do outro.


De começo ela não havia entendido o que ele quis dizer. Depois dessa frase Afonso levantou-se em partes; primeiro retirou seu braço do ombro dela, depois se ajoelhou, beijou-lhe a testa, e por fim levantou-se. Renata olhava Afonso se afastar dela, em segundos ele já era uma miragem no horizonte daquela praia deserta. Em questões de minutos Renata já não o via mais. Afonso foi embora, e talvez para nunca mais voltar, pensou. Ela também ponderou sobre a frase de Afonso: “Há sempre um dia depois do outro.” – O que será que ele quis dizer com isso? Renata não encontrava resposta para si mesma havia anos, quanto mais para as frases enigmáticas e prosaicas de Afonso. Ela permaneceu mais dez minutos sentada na areia esperando que o vento levasse sua tristeza embora, esperando que o cheiro do mar levasse a si embora. Renata, então, se levantou, caminhou até a beirada, sentiu a água tocar seus pés, e disse a si mesma com uma entonação de pecadora: Que belo fim seria se eu me matasse agora. Por um instante tudo pára, ela apenas se orienta pela audição. Com as pálpebras fechadas, o que ela mais quer é sentir o mundo, sentir a realidade do cotidiano contra sua forma fictícia de amar e viver. “Eu perdi o Afonso”. “O perdi para todo o sempre.”


Era dez e vinte e dois quando Afonso acordara suado e com a respiração ofegante: Cristo! Estou atrasado! Vestiu a primeira bermuda que viu pela frente, colocou sua clássica regata branca de salva-vidas mirim e desceu as escadas se tropeçando até chamar atenção da mãe:
- Que isso, Afonso! Aonde tu vai com essa pressa?
Ele olha firme para a mãe e sem hesitar responde:
- Vou encontrar o amor da minha vida.
Saiu batendo a porta, e já no outro lado da rua ouviu a polêmica frase do pai dos anos modernos:
- Use camisinha!


Afonso não deu bola para o comentário impertinente e gozador de seu pai. Até porque seu pai sabia que hoje Afonso ficou de se encontrar com Renata às 10h30min na orla dos pescadores. Aliás, Garotas de 16 anos detestam esperar, são impacientes, um minuto de atraso e elas já pensam bobagens do tipo que ‘ele não me ama mais’, ou ‘ele não quer me ver’. No entanto, Afonso tinha a certeza incontestável de que naquela manhã ele voltaria a sentir os lábios macios de Renata. Estava louco para vê-la, foi então que lembrou de seu sonho, ou pesadelo. Não faz sentido, nunca deixaria Renata, disse a si mesmo. Caminhou ligeiramente os dois quilômetros que distanciavam sua casa do ponto de encontro com Renata. A enxergou lívida, de pé na beira da praia com os olhos fechados girando em torno de si mesma. Ele grita euforicamente:
- Renata!
Ela parece não ouvi-lo, ele faz uma segunda e inútil tentativa:
- Renata!


Não restava outra hipótese senão ir até onde o corpo de Renata se movia sobre a água salgada. Renata parecia estar em transe, hipnotizada. Afonso apenas cutuca o ombro esquerdo dela, Renata se vira, e ainda de olhos fechados o beija. Foi uma troca de salivas longa e contínua, durou cerca de um minuto. E nisso Afonso tinha razão, ele realmente voltou a sentir os doces lábios de Renata. Mas quase que efêmero, o sabor doce ao qual ele tanto almejava já não era mais o mesmo. Ainda se beijando, Renata retira do bolso de seu short uma carta que guardou durante uns dois anos, apenas esperava o momento certo. E o momento chegou.


No dia anterior Renata relembrou dos velhos amigos, namorados, e inevitavelmente de Afonso. Tiveram um caso na época de pré-adolescentes. Ela também lembrou da carta que escrevera na noite em que Afonso, bêbado, a chamou de vadia, burra e ignorante. Afonso não sabia o que estava fazendo naquela noite, no auge dos seus 16 anos, abusou do álcool e resolveu falar alguns palavrões para a única garota, e futuramente mulher, que o amava de verdade. Renata se sentiu um lixo quando ouviu da boca de Afonso as palavras que ofendem a índole de qualquer mulher que se preze. Isso a magoou profundamente, tão profundamente que sobrou inspiração para escrever uma carta de despedida.


Em meio aquela nostalgia do dia anterior, Renata ligou para Afonso com a finalidade de marcar um encontro, depois de dois anos. Ao telefone Afonso quase chorou ao escutar a voz amadurecida de Renata, no fundo ele ainda a amava, mesmo não sabendo.
Na praia, ao sentir a carta entre as mãos, Afonso pára de beijar Renata. Ela o encara perante alguns segundos e diz:
- Há sempre um dia depois do outro.
Ela vai embora, lentamente caminhando sobre a água salgada. Ele sem entender nada, senta na areia úmida e abre o envelope da carta enquanto Renata torna-se uma miragem desaparecendo no horizonte daquela praia deserta, que agora era ácida, mordaz, fulminante.
Ele lê a carta, olha a data e se surpreende. Nem lembrava mais da noite em que dissera as cruéis palavras a Renata. Mas ela... ah, ela jamais esqueceu:


"Meu amado, Afonso. Sei que ao receber essa carta você me encontrará em uma praia deserta, dando voltas em torno de mim mesma sobre a água do mar. E neste exato momento estarei pensando de como eu poderia justificar todo o meu sofrimento. Suas palavras arderam no meu coração como uma pedra tutelável. Não há razões para fazer o que tem feito comigo. Já me abri para você, me declarei a você, já lhe disse o quanto lhe amo, o quanto é importante para minha vida. Mas depois dessa noite, não tenho mais certeza de meus sentimentos, de meu mundo. Acho que suas palavras fortes, cruéis, vindas de um garoto imaturo, tornaram a abrir meus olhos para a realidade de suas intenções. Hoje eu completei 14 anos, Afonso. E provavelmente, no dia que ler essa carta, será o dia de meu aniversário novamente. Mas você não lembrará, vai seguir seus impulsos primitivos, querendo me beijar e apertar minha bunda como sempre fez. Você só me usa, Afonso. Já passou da hora de você crescer, é uma pena que seja tarde. E no dia em que tiver lendo essa carta, eu estarei lhe usando da mesma forma que fez comigo. Não será vingança, apenas ironia do destino. Só quero que saiba que eu lhe amei de verdade, porém não acredito mais em conto de fadas. Já estou pronta para ser mulher, apenas quero seguir minha vida, agora sem você junto comigo. Também sei que quando ler essa carta você já terá madurecido até certo ponto, não sei se o bastante. Mas será que isso ainda importa? Talvez eu não seja mais a mesma. Um beijo de quem um dia já foi sua. ASS: Renata."


Afonso ficou imóvel durante muito tempo. Viu o pôr do sol sozinho, melancólico. Nunca imaginou que uma bebida pudesse atrapalhar tanto a sua vida. Uma bebida ingerida há exatamente dois anos. Mas como Renata disse, há sempre um dia após o outro. Na vida, todo e qualquer ato da menor insignificância que seja gera conseqüências. Foi então que Afonso lembrou do sonho, e descobriu que não foi Renata que havia o perdido, mas sim ele que a perdeu. Após oito horas sentado naquela areia úmida e gelada, ele se levanta e num suspiro diz em voz alta:
- Por isso que falam que os sonhos vêm ao inverso. Talvez seja a hora de mudar, é justo.

sábado, 19 de janeiro de 2008

Meus 20 anos de mundo

Falta uma semana para o meu aniversário. Daqui a sete dias completarei 20 anos. Época de aniversário é sempre nostálgica, você fica pensando nos anos que passaram e no proveito que tiramos desses anos de experiência. Eu, por exemplo, mudei muito desde minha pré-adolescência, se é que posso chamá-la assim. Não me lembro muito bem dos problemas sociais brasileiros na década de 90, eu tinha menos de dez, e depois, um pouco mais de dez anos. Mal lembro da entrada do Real, da mudança de nossa economia e do governo FHC. Lembro de um ou outro título conquistado pelo Inter, lembro da minha infância, mas não estava nem aí para o mundo, para o país, para a sociedade. Eu era apenas mais um ser respirante. E ainda sou. A diferença é que quando somos crianças, e posteriormente adolescentes, esquecemos do mundo ao nosso redor. Somos egoístas, só queremos saber de nós, não aceitamos nenhuma explicação e usamos argumentos sem fundamentos em busca de um objetivo fútil. Quando criança ainda é tolerável e na adolescência pode ser respeitado como uma fase. Sou da tese de que nossa personalidade começa a ser formada, em princípio, na aborrecência. É quando surgem os primeiros interesses. Antigamente, os primeiros interesses eram: se casar, arranjar um bom partido, ter um bom relacionamentos com seus pais, ter filhos, uma doutrina a seguir. Hoje, os primeiros interesses é beijar na boca, perder a virgindade, ir a um baile funk ou a uma rave, experimentar algum tipo de droga, sejam elas lícitas ou ilícitas. Gente esse é nossa sociedade moderna! A sociedade que cria tecnologias de primeira mão e ao mesmo tempo regredi no que diz respeito a sua evolução. E eu aqui....prestes a completar 20 anos. Tento avaliar não só a minha perspectiva de vida, mas a perspectiva do mundo.

Dia desses fui caminhar no centro de minha cidade e fiquei impressionado com o descaso de grande parte da sociedade jovem, da qual eu me encaixo, com o meio ambiente, com a saúde, com a atual situação do país. Ninguém estava preocupado com isso. A principal inquietação é por arranjar um “trampo” e conseguir dinheiro para ir em uma festa, tirar a carteira de motorista, comprar um carro. E eu aqui...andando de bicicleta, reciclando lixo, guardando o oleio de cozinha... Será que minhas atitudes são em vão? Estou prestes a completar 20 anos! São duas décadas! E por vezes me sinto como um homem de 30, por vezes me sinto como um garoto de 16. Talvez eu esteja em uma fase de transição, assim como a nossa sociedade.

Ah, já ia esquecendo, agora a moda é corrupção. Fraude no Detran, obras superfaturadas, despesas pessoais pagas com verbas públicas...e eu aqui, prestes a completar 20 anos. Ninguém é punido, a justiça é cega, a educação, por incrível que pareça, carece de educação, e nossas reformas políticas é uma vergonha internacional. Qualquer país normal e racional tem dois ou três partidos, mas como isso! Nós somos um país tropical, carnavalesco, temos as mulheres de maiores bundas do mundo, aqui é tudo festa. É crime organizado, governos paralelos em favelas, sistema prisional defasado, políticos gastando 15 mil em um gabinete e povo brasileiro dizendo: Tudo bem. Não cobramos, somos broxas. A nossa política é reflexo do que é grande parcela dos brasileiros: Broxas, sem cultura, sem ideologias, sem uma opinião formada. Somos golpeados por falsas promessas a cada dois, quatro anos, mas: Tudo bem.

É...e eu aqui, prestes a completar 20 anos. Sou muito jovem pra viver tudo isso. Prefiro voltar à minha infância, à minha adolescência e achar que o planeta tem o mar azul, que as nuvens são feitas de algodão e por que não: que viemos de um caroço. Quero minha inocência de volta, quero minha filosofia surreal de volta, pois estou para completar 20 anos em mundo que não terá 20 anos pra desfrutar de suas belezas naturais, se continuarmos a praticar nossas hipocrisias rotineiras.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

A carta do dia 12

Em março fará dois anos que não nos vemos, que não nos encontramos, que não nos tocamos. Em março, a brisa de algum deserto tocará minha alma pálida pela ausência de nosso amor. São quase irredutíveis as lembranças primárias de nosso relacionamento. Até certo ponto não me importaria de dizer que ainda a amo, mas passado tanto tempo, tantos dias, tantos meses, não sei se o que sinto não se confunde com meus desejos aborrecentes. Durante esse nosso percurso quase que sombrio, nas chamas da solitariedade, colocamos o nosso passado no presente. Agora mesmo lembro-me de você me abraçando tocando meu corpo e entregando-se com uma inocência aflorada ao meu calor carnal. Não sei bem o que dizer. Às vezes queria poder vê-la para saber o que sentir. Será que o aroma indestrutível de seu beijo continua o mesmo? Ponderei durante madrugadas sobre seu estado de espírito. Quando você me ligou dia desses e disse “heloo, Luan, acorda!” com aquela entonação quase perfeita de menininha sedosa, voltei no tempo. Uma nostalgia tomou conta de minha mente. Ao telefone fui frio com você, curto e grosso. Uma firmeza frívola e decadente que eu não queria tê-la usado. Sinto-me totalmente incoerente quando penso em tudo que disse a você em quanto estivemos juntos. Não foram mentiras, em hipótese alguma. Foram apenas conjecturas, como diria Borges. E de lá para cá, em minhas conjecturas, fiquei extremamente impressionado com a mudança que tomou conta de mim. Quiçá Freud explica. Embora a principal razão notória e plausível de minha mutabilidade seja você. Na verdade, nosso término serviu de ponto de partida para um outro eu. Serviu para descobertas de novos mundos dentro de mim. Apaguei de meus remanescentes a idolatria que eu tinha quanto a sua personalidade. Como eu queria que você entendesse que tudo que passei por e com você não foram meros momentos, e sim um marco no contínuo espaço temporal de nossas juras eternas de amor. Vejo sem sombras de dúvidas, que qualquer namorado que você tenha se relacionado, e que você ainda venha a se relacionar, não dirá em modo algum, todas as palavras que eu disse a você sob uma paixão efevercente. Nenhum outro namorado caminhará com você de maneira igualitária os nossos 318 passos na praia, escutando as nossas próprias vozes cantalorarem a magia de nossos corações. Queria que você sentisse o que sinto neste exato momento, a saudade de nossa felicidade diluída pelos nossos erros compreensíveis. Nenhum outro verão terá a intensidade que nós tivemos pelo nosso amor. Você ajudou a me descobrir. E talvez seja por isso que eu tenha aprendido a perdoar. Perdão aos quais nossos erros sempre careceram. Agora eu queria dizer na sua frente tudo que escrevi para você. Assim eu não só veria sua reação, mas também o movimento de seu rosto que desde o primeiro dia que a vi me fisgaram para a eternidade de nossa vertigem amorosa. Eu não queria ter mudado se fosse para estar hoje ao seu lado sendo feliz como um dia eu fui ao dizer o quanto eu a amava. Parabéns pelo nosso dia, e por todos aqueles que passamos juntos.

domingo, 30 de dezembro de 2007

Rumo ao litoral

Estou tirando uns dias para me bronzear. Volto dia 12 para contar as novidades e com certeza as histórias que virão como consequência. Afinal, praia sempre rende bons contos, não?

Um grande abraço a todos, e que 2008 seja um ano mais brilhante para aqueles quem realmente possuem vontade de mudar para melhor.

Saudações.

L.I

sexta-feira, 28 de dezembro de 2007

10 coisas para não fazer em um reveillon

1 – Jamais pule as sete ondinhas no Hawaii.

2 – Ao chupar uma Uva, não engula o caroço pensando que trará sorte ao seu estômago.

3 – Se estiver em um avião na virada do ano, não solte fogos.

4 – Não faça promessas antigas das quais nunca cumpriu. Inove. Mentiras novas para um ano novo.

5 – Se você for do tipo que guarda lentilhas na carteira, não acumule. Pegue as do ano passado e coloque para ferver. Assim você mata as bactérias e tem almoço garantido para o dia seguinte.

6 – Se você for comprometido, não faça juras eternas de amor, o ano tem só 365 dias.

7 – Cuidado com a escolha da roupa, se você for médico, com certeza não chamará atenção pela vestimenta.

8 – Caso seja bombeiro, não acabe com a diversão dos outros.

9 – Não exagere na bebida. Beba somente para a virada e não para o ano inteiro.

10 – E o fundamental: Se for adepto ao viagra, não faça sexo na “entrada de ano”. Isso não lhe trará sucesso.

terça-feira, 25 de dezembro de 2007

Pseudo-Natal


Estava aqui sentado em minha poltrona, dentro de meu templo – nome ao qual batizei meu quarto – e fiquei pensando no último Natal em que eu acreditei em Papai Noel. Não consegui me recordar. O que lembro, é, que, até aos 10 ou 11 anos eu fingia crer no Papai Noel para não deixar de ganhar presentes. Lembro-me também, que, ainda na infância, obviamente, recebi uma bicicleta pela janela. Eu deveria ter uns nove anos. Era um Natal como todos os outros. Deixei a tal cartinha para o bom velhinho na lareira e na noite do dia 24 lá estava ela: Uma Caloi esverdeada. Perguntei para a minha mãe como a bicicleta veio parar ali dentro, já que ela era demasiado larga para passar pela chaminé. Ademais nem sei como o próprio velho passava dentre nossa apertada chaminé. Mas era Natal, vale tudo, ou quase tudo. Foi então que minha mãe disse que o velho havia passado minha Caloi pela janela. Mas como? Com todas fechadas? Minha mãe insistiu em dizer que o velho do Pólo Norte tinha um “pó mágico” do qual utilizava em algumas ocasiões. Sei...essa resposta de minha mãe foi o primeiro indício da desconfiança de que Papai Noel não existe.

Aos sete anos eu pedira para o velho avermelhado um avião Boeing. A questão era a seguinte: Até aos sete anos eu acreditava fielmente em Papai Noel, Coelhinho da Páscoa, homem do saco, boi da cara preta, essas coisas todas. E em quase toda minha infância eu sonhei em ser piloto de avião. Achava aquilo um máximo. Pilotar aeronaves poderosas, tão grades, levando tantas pessoas...então esperei ansiosamente pela noite do dia 24 para ver se realmente eu iria ganhar um Boeing, só para mim, quase não dormia de ansiedade. Até que a noite chegou, fui até a sala onde o velho supostamente deixava os presentes e tive uma das minhas primeiras decepções. Havia ganhado um Boeing de brinquedo! Mas que diabos era aquilo? Isso é um avião de brinquedo! Um pouco menos de 30 centímetros, era com controle remoto e tudo, mas por mil ampulhetas! Era de brinquedo! Nessa noite também passei a duvidar da existência do velho por não ter meu pedido atendido, em parte. Na minha cabeça de criança, eu nem pensava de como eu colocaria um Boeing no jardim, mas para mim, naquela época, isso era um mero detalhe.

Passado todos esses anos, eu ponderei sobre o verdadeiro espírito natalino. Descobri que 80% das comemorações de Natal das famílias brasileiras, e por que não, do mundo todo, são preenchidas por hipocrisia. Aquela troca de presentes absurdamente estúpida de familiares que não se vê há 11 meses, que nem se quer se telefonam há 11 meses, e aprecem dizendo que estavam com saudade, que vão marcar encontros durante o novo ano. Então a noite de comemoração acaba, e o teu familiar nem anota o teu número para marcar “os encontros” e já sai avisando o que era de esperado: “Até o ano que vem”. O Natal já é quase uma solenidade, uma obrigação de dar presentes. Ninguém, ou quase ninguém sabe o que é o Natal. Às vezes sinto saudade de quando eu era criança, e tinha dentro de min aceso e brilhante o espírito natalino. Eu era sempre o primeiro a me empolgar não só com o Natal, mas com as festas de final de ano. Sinto que naquela época eu era feliz, ao mesmo tempo inocente das reais intenções dos demais perante o dia em que também supostamente Cristo nasceu. Digo supostamente porque não creio nessas estórias. (Não entrarei no mérito da religião, caso contrário terei que desenvolver um capítulo sobre o meu posicionamento a respeito de Deus; no entanto, respeito a opinião e as crenças de todos.)

Agora também não quero polemizar o Natal. Refiro-me ao meu Natal, o de minha família, meus irmãos, meus pais e minhas cadelas. Onde o afeto e a intenção de proporcionar um 25 de Dezembro mais feliz sempre veio à tona. Passar essa data com quem amamos talvez seja fundamental para quem ainda possui a paciência e inocência. Confesso que ainda tenho um pouco disso. Afinal de contas, continuo sonhando em ganhar um Boeing.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

A maleta - 1° capítulo

Abro ou não abro? A minha frente estava a maleta que mudaria o rumo de toda a minha vida. Fui até a cozinha, descasquei uma banana, mastiguei, joguei a casca fora. Pensei mais um pouco. Voltei à sala e resolvi abrir a maleta. Não sei muito bem o que podia me reservar quanto ao seu conteúdo. Mas era época de natal, era dezembro de 98. Outros tempos, é verdade, mas foi a partir desse ano que pude me conhecer melhor. Não sei como explicar esses fatos tão densos em minha vida. Na realidade até sei, porém as palavras devem ser escolhidas com cuidado, para que não pensem que sou um assassino. Fiz isso porque era necessário. Era extremamente necessário matá-la para que eu alcançasse meus objetivos. Aliás, foi uma morte rápida a dela, com pouca dor.

Quando entrei no meu carro no dia 12 de agosto de 1998, conheci uma mulher chamada Ângela Figueiró. Ela era linda. Tinha as medidas perfeitas para uma modelo. Pena que naquela manhã do dia 12 de agosto ela resolvera me assaltar. Entrei no carro, dei a partida, e um segundo depois Ângela me apontava um revolver pelo lado de fora do veículo. Imediatamente a deixei entrar e me roubar. Ela tinha classe e sensualidade de sobra. Com cabelos loiros, pele clara, olhos azuis e lábios carnudos. Parecia feita de porcelana. No começo queria entender porque uma mulher como aquela estava assaltando. Bem vestida, com um decote de tirar o fôlego, sabia a gramática de cor, aparentava ser culta, viajada, e, sobretudo, era jovem, muito jovem. Quando ainda não a conhecia, eu dava 28 anos para ela. Depois fui descobrir que, na verdade, ele tinha 25. Recém aprovada no concurso. Era filha de pais ricos, morava na grande Porto Alegre, e havia se mudado para capital por causa do namorado. O nome dele? Chapola. Isso mesmo, Chapola. Ele comandava uma das bocas mais rentáveis de fumo da zona norte. O meu papel era apenas desvencilhar as versões que chegavam aos meus ouvidos. E foi assim que matei as minhas primeiras vítimas. Ângela bem que tentou me assaltar, mas ela não sabia o que estava fazendo. Queria atirar em mim sem engatilhar a arma. Roubou-me apenas algumas cédulas de cinqüenta e saltou, correndo. Naquele instante eu sabia que eu era capaz de matar. Soltei o freio de mão e acelerei, atropelei Ângela sem piedade, ela ainda tentou desviar e só por isso que se salvou.

No dia seguinte, eu desfrutava do sol de minha varanda quando o meu celular toca, era Ângela com o poder de sua voz sensual:

- Bela tentativa, Doutor.
- Quem é?
- É a Ângela, tivemos um encontro inusitado ontem.
- Desculpe. Não me encontrei com nenhuma Ângela ontem.

Desliguei o telefone. Em vão. O celular toca, é o mesmo número, me levando da minha cadeira de plástico, saio do sol e vou até a sala de estar:

- Alô?
- Como tu és grosso, Doutor.
- Quem é você?
- Não está lembrada de mim? Tu tentaste me atropelar ontem, depois que errei o gatilho.

Calmo, eu respondi:

- Tu não erraste o gatilho, tu nem engatilhou, és amadora.
- Eu não diria isso se fosse você.
- Como conseguiu esse número?
- Digamos que tenho alguns contatos...
- Pois então procure outro otário para ligar...

Quando eu estava prestes a desligar ela me interrompe:

- Eu sei do teu passado, Doutor...
- Do que tu estás falando?
- Tu sabes muito bem do que estou falando, da garota que tu esqueceste no HPS...
- Quem é você?
- Uma admiradora secreta.
- Não sabia que admiradoras secretas eram assaltantes.
- Não seja idiota, Doutor. Não sou uma assaltante, sou uma jogadora.
- O que você quer de mim?
- Me encontre no mercado público, às 11 horas, quero lhe fazer uma proposta.
- Onde no mercado público?
- No segundo piso, estarei com uma blusa vermelha e uma calça jeans.
- Um tanto informal...
- Tu vai ir?
- Eu vou receber meu dinheiro de volta?
- Se tu fores um bom garoto...

Desliguei o telefone. E fiz tudo no impulso, não sabia exatamente onde eu estava me metendo, só queria meu dinheiro e meu segredo de volta. Logo que me formei em Medicina, em 93, cometi um erro irrevogável. Minha mãe sempre dizia que médico não pode errar, e exercer essa profissão é condenar sua vida em prol das outras. Ela tinha razão. No dia 4 de maio desse ano esqueci de repassar uma garota de 17 anos para cirurgia de emergência, era Natal, estava chovendo, a emergência lotada, dezenas de casos, e quando lembrei daquela garota ela já estava morta. Por sorte ninguém mais lembrou, joguei fora sua ficha de atendimento e sumi com o corpo. Ela, em princípio, não tinha família, era uma garota abandonada, que morava em uma vila. Chegou ao hospital ensangüentada, havia sido atropelada na Borges de Medeiros. Esse caso me abalou porque eu podia tê-la salvado. Anos mais tarde eu pediria demissão por eu não conseguir manter minha postura de médico residente. Desde 96 trabalhava em consultório, até encontrar Ângela.

Fui ao mercado público no horário combinado, a encontrei sentada em uma mesa de bar, no segundo piso. Ela segurava uma maleta a qual me traria inúmeras dores de cabeça. Sentei ao seu lado, e mantive meu rosto erguido, sem olhá-la.

- Olá, Doutor. Demoraste.
- Muito prazer, Ângela...
Ela fala rente a minha orelha, quase beijando o meu pescoço:

- O prazer é conseqüência. Satisfação.

Meu corpo estremeceu todo, que mulher era essa? Não consegui mais ignorá-la. A encarei quase que cara a cara:

- E então, qual é a sua proposta? E como sabe desse caso da garota?

Ela olha para o lado, preocupada e, sem mais nem menos, me beija. Foi o beijo mais saboroso que já experimentei. Senti sua língua envolvente, ela sabia como conquistar um homem. Quase me rendi, até que recuei:

- O que você está fazendo?
- Precisamos sair daqui!
- Por quê?
- Tu estás de carro?
- Sim.
- Então vamos!

Ela se levanta com uma agilidade invejável, me puxa pelo braço e me leva até o primeiro piso. Caminhamos rapidamente até o meu carro. Ela pediu que eu a levasse ao meu apartamento, não gostei da idéia, mas o que eu tinha a perder? Ela estava tensa e acabou me assustando. Dirigi abismado, durante o percurso ela ficou quieta, e só pude sentir suas mãos sobre minha perna. Perguntei o que ela estava fazendo, ela disse não saber, mas colocou suas mãos sobre o meu órgão sexual, e isso me deixou com os desejos a flor da pele. Depois desse detalhe só lembro dela de quatro pra mim, na cama, gemendo, murmurando, me arranhado, enfim...acabei me envolvendo com uma legítima jogadora.

Descobri que ela fora sincera comigo desde o início. Ao mexer em suas roupas jogadas no chão de meu quarto, encontrei sua carteira: “Ângela Figueiró - Agente Federal”. Fiquei indignado, senti pela primeira vez, a vontade inalienável de matar uma mulher. Ao lado de suas roupas estava a maleta, a maldita maleta que fui abrir na hora errada. Ângela acordou bem na hora em que me deparei com mais de 25 mil Euros dentro daquela maleta. Ao me ver com o dinheiro ela se apossa de uma pistola já engatilhada e atira em minhas costas, eu desmaio e ela foge. No começo achei que fosse morrer, mas fui forte, me automediquei e chamei um amigo para que retirasse a bala enfiada dentre minhas costelas. Desde esse dia Ângela se tornou uma caça para mim. Passei semanas atrás dessa vadia. Para uma agente federal corrupta, ela sabia muito bem como se esquivar das confusões que arranjava.

No dia 13 de Dezembro fui até a favela de Chapola, na Zona norte, em uma mão segurava uma pistola e na outra uma faca afiada para situações de emergência. Passei despercebido, por ser médico, os favelados já me conheciam. Foi então que flagrei Ângela e Chapola fazendo sexo. Ela era mesmo uma cadela, primeiramente atirei a faca nas costas dela e em seguida, dois tiros no seu crânio. Chapola mal teve tempo de respirar, levou um no peito e outro no meio da testa. Naquele dia, no mercado público, Chapola estava nos vendo. Ângela me beijou para que ele não a reconhecesse, afinal, a namorada dele não beijaria outro homem, beijaria? Ângela fora esperta desde o começo. Uma filhinha de papai, que entrou para o polícia e namorava um traficante, coisa boa não podia ser. No mesmo dia em que matei Ângela e Chapola, encontrei a mesma maleta, não quis abrir de imediato, preferi ir para a casa. Passei pelos favelados tranquilamente, como quem só foi ver um pasciente, entrei no meu carro e parti. Chegando em casa, sentei no meu sofá, larguei a maleta na mesa da frente e pensei: Abro ou não abro? Fui até a cozinha, descasquei uma banana, mastiguei, joguei a casca fora. Pensei mais um pouco. Voltei à sala e resolvi abrir a maleta. Lá dentro não havia mais Euros, e sim uma foto de meus pais, falecidos em 1992, com uma garota ao lado, igual a aquela que deixei morrer no HPS. E atrás da foto havia uma legenda com o nome de fotógrafo: “Família Unida – Foto por Ângela Figueiró”. Até hoje fico pensado: qual seria a proposta que Ângela me faria? Talvez se eu não tivesse a matado, eu não descobriria o meu pior pesadelo.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

Diálogos de um casal moderno em plena segunda-feira

Quando João entrou na sala e viu Maria tricotando pela manhã decidiu sentar ao lado dela e tomar seu café. O casal freqüenta a faixa da terceira idade há uma década, ambos são aposentados e passam o dia discutindo atualidades. João alimenta sua rotina olhando os jornais, e quando lê a manchete estampada com a foto de torcedores chorando: “Corinthians é rebaixado”, ele não hesita:

- Quanta besteira

Ele senta à mesa, ela o fita:

- Bom dia pra ti também.
- Bom dia, mulhé.

Voltando a tricotar:

- O quê é besteira?
- Só por que o Corinthians caiu pra segundona tem choro pra tudo quanto é lado.

Ela se demonstra surpresa:

- O Corinthians foi rebaixado?

Ele larga o jornal, pega a xícara, coloca café e um pouco de açúcar:

- Credo, heim mulhé!? É só o que se fala na mídia esportiva. Não viu os jogos ontem?
- Ai, João, tu sabe que eu nunca gostei dessas coisas de futebol, pra mim tudo é futilidade. Enquanto esses jogadores semi-analfabetos ganham salários exorbitantes, há pessoas morando nas ruas sem ter o que comer. E pior de tudo é que nós pagamos esses salários, indo aos estádios, assistindo jogos pela televisão, gastando mais de cem reais em uma camiseta de um time. Pra mim isso tudo é ignorância, o entretenimento passou a ser prioridade, tudo é jogo de interesses, e tudo é conseqüência, por isso que o mundo ta onde está.

Volta a ler o jornal:

- Mulher, tenho que admitir, as vezes tu me assusta. Por Deus! Não me vai entrar na política!
- Sou uma velha muito inteligente para entrar na política.
- E modesta também.
- Falando em política, tu viu que o teu ditador foi derrotado no referendo.
- Sim, ele me ligou ontem.
- O Chavez te ligou ontem?
- Aham.

Ainda tricontando, ela desaba às gargalhadas:

- Hahahaha....ai homem de Deus. Tu ainda me mata de rir...

Ele olha espantado:

- Ah, então tu não acreditas em mim?
- O quê? Que o Hugo Chavez te ligou?
- É.
- Já falei pra te parar com essas mentiras.
- Tudo bem, eu desisto. Vou assistir minha televisão que agora será digital.

Larga o jornal e pega o controle e a xícara servida. Ela indaga:

- Tu viu quanto que tá os preços dos conversores?
- Sim, quase mil.

Ele liga a TV, toma um gole do café, ela responde:

- É um absurdo!
- É o preço da qualidade.
- Preço da qualidade? Nos Estados Unidos o preço do chip que disponibiliza a imagem digital custa 20 dólares.
- Por isso que é nos Estados Unidos.
- Como assim?
- Aqui no Brasil tudo é burocrático, só com os tributos esse preço quadruplica, o que não justifica esse valor, concordo, mas nosso país é muito ganancioso, a começar pelo futebol.
- É, e pela política.

Nesse momento o celular do João toca:

“Por que não te calas, por que não te calas, por que não te calas...”

- Aí, ó Mulhé, ó o homem ligando de novo...

quinta-feira, 15 de novembro de 2007

Sinceridade de um mundo real

Com a testa crispada de suor ele jurou casar-se com Madalena. Uma mulher de 26 anos, cabelos escuros, voluptuosa, e inteligente. Madalena tinha ideologias extremamente rígidas. Ela dizia, por exemplo, que o nazismo deveria ser aplicado aos políticos corruptos, como se eles (os políticos) fossem judeus. Defendia a ditadura de Pinochet, e ainda afirmava com grande veemência que queria ter participado do golpe militar. Madalena, de certo ponto, assustava Augusto, com quem também jurou se casar. O matrimônio estava marcado para meados de setembro, o mês preferido de Madalena. Porém, o casamento não aconteceu. E o motivo é dilacerante.

Nas férias de julho, eles resolveram viajar para Europa. Visitar países até então considerados fascinantes. Mas ao chegar a Amsterdã, na Holanda, Madalena se recusou a passar mais de um dia. Falava que Amsterdã era uma cidade sem lei, onde o sexo e as drogas eram tão corriqueiros quanto beber água e tomar banho. Resolveram ir a Paris, mas Madalena se recusou a passar mais de dois dias. Argumentou que a Torre Eiffel aparentava ser mais bonita pela televisão, e ainda criticou a comida francesa, dizendo que preferiria à moda espanhola. Então os dois foram até a Espanha, mas Madalena se negou a passar mais de três dias em Madri. Alegou que os espanhóis são arrogantes e ultrapassados. Vivem na idade contemporânea. E alem de tudo, possuem um mau gosto tremendo quanto a vestimenta. Resultado: voltaram ao Brasil uma semana depois.

Ao chegarem ao aeroporto, Madalena, sem hesitar diz:
- Te amo.
Augusto não sabia o que falar. Um homem de 32 anos, bilíngüe, culto, bem sucedido, parecia ter perdido as palavras. Madalena olhou-o atentamente e indagou:
- Tu não vais dizer nada?
Ele pensa mais um pouco antes de falar alguma besteira. Ela começa a ficar nervosa:
- Tu não me amas? É isso?
Ele toma a palavra:
- O que tu achas?
- Não sei mais o que achar. Passaste a semana inteira emburrado comigo.
- Pois é...por que será?
- Sinceramente?
- Por favor.
- Eu não sei!
- Não precisa gritar, estamos no aeroporto.
- E daí? Tu achas que os casais não discutem nos aeroportos?
- Tu não precisas ser barraqueira.
- O que? Chamaste-me de barraqueira?
- Até que provem o contrário...
- Não fale mais comigo! Seu grosso!

Augusto e Madalena entram no táxi, mudos. Chegaram ao condomínio, mudos. Ao entrar no apartamento Madalena pegou suas coisas, arrumou sua mala e soltou a frase que estava entalada na sua garganta há meses:
- Sabe de uma coisa, Augusto? Eu não te amo. Sou uma mentirosa. Uma cachorra. Que te traiu durante todo nosso relacionamento.
- Agora me conte uma novidade.
- Como é? Tu sabias que eu lhe traía?
- Minha querida, até o carteiro sabia...Tu deverias ser mais discreta.
Madalena fica pasma:
- Mas porque nunca me falou nada?
- Não tinha por que falar.Tu sempre me deste o que eu quis.
- Como assim?
- Tu sabes do que estou falando...
- Tu estás dizendo que ficou comigo só por sexo.
- Tenho que admitir, nisso tu é mestra.
- Seu cachorro!
- Minha cadela!
- Eu não sou sua cadela! Não me chame assim!
- Sabe o que eu acho mais engraçado em ti, Madalena? Tu reclamaste da Torre Eiffel, falaste mal dos espanhóis, e o melhor: Odiou Amsterdã.
- E qual o problema? Sou uma mulher de princípios!
- Sei...princípios...
- O que estás insinuando?
- Eu? Nada. Só acho ridículo falares de princípios, quando seu passado lhe condena.
- Meu passado me condena?
- Ah...entendi...tenho que esquecer que te conheci quando ainda era uma garota de programa?
- Não vejo problema nisso, meu bem. Era um trabalho honesto.

Augusto vai até a copa, enche um copo com uísque, toma um gole e grita:
- Tudo bem...vamos ser sinceros então!

Madalena, revoltada, vai até Augusto e replica:
- Achei que teu joguinho já tivesse terminado.
Ele sorri:
- O jogo apenas começou...

Com uma troca de olhares, abruptamente ambos ficam nus, se deitam na mesa da copa, e alimentam seus desejos aflorados.

Após o ato, Augusto confessa:
- Eu também não te amo, e lhe traí durante todo nosso relacionamento.

Ela calma, responde:
- É, eu sei...

Mesmo com as confissões, tudo parecia normal. O casamento foi remarcado para janeiro, mas em dezembro eles fariam uma viagem para África. Até lá Madalena continuava com suas ideologias rígidas. Ela se relacionava por dinheiro, e ele por sexo. Sem amor, eram felizes. E acima de tudo, sinceros.