Coluna do Luan

segunda-feira, 30 de março de 2009

O balanço

Ela tomava impulso e em seguida deixava o balanço correr contra o tempo. Sentada naquele pequeno pedaço de madeira pintada de amarelo, e sustentada por duas correntes brancas, uma de cada lado do balanço, ela simplesmente vivia. O momento era de repulso emocional. Brincava de não fazer nada com a mente. Brincava de saber voar...
Um rapaz mirou profundamente seus olhos. Pegou sua mão, desceu até a ponta de um dos dedos... ele estava ao seu lado, se balouçava na mesma velocidade. Ele diz “te amo...”
E ela emite silêncio ao sabor do clima. Reconsidera:
- Mas eu não estou pronta para amar...
- E para amar a mim, você está pronta? – indaga o jovem pretendente.
- Talvez eu esteja pronta para sofrer...
- Faz parte do risco.
Ela para o balanço e vai embora. Atravessa a rua, embarca em um ônibus para a cidade vizinha. Ele continua sentado, deixava o balanço recuar por conta própria... Parecia que o raciocínio agia de acordo com o passar dos carros, na avenida ao lado. Todos partiam para algum lugar... mas onde? Era sua vez.
O ônibus da menina que, há poucos minutos se embalançava ao seu lado, começava a seguir seu itinerário. Ao engatar a segunda marcha, o motorista percebe um corpo embaixo do veículo. Havia sangue junto ao pneu traseiro.
Era ele, pelo retrovisor o motorista vira uma tentativa de vitória de um homem que amava, mas se deixou levar pela dúvida...

Pobre homem... se foi por amor... e por co-existência... Noutro dia, porém, ele voltaria ao balançar da vida. Pois acordaria deste tão breve pesadelo. Acordaria?

terça-feira, 10 de março de 2009

A vista



- Que belo lugar para uma bela mulher.
- Boa. Tenta outra.

1 minuto depois:

- Que excelente vista para uma afável donzela.
- Não, não... vamos lá. Você pode ser mais convincente... Alterne o tom da voz, oscile o ritmo das palavras. Eu acredito no seu potencial.

2 minutos mais tarde:

- Que lugar do caralho! Só tem muié gostosa aqui! Comé teu nome gatiinhá?
- Não apele, por favor. Eu desisto, você não sabe abordar uma mulher.

Ele pensa por um segundo e indaga:

- Pois então como você queria que eu a abordasse?
- Apenas sendo você mesmo. Por que vocês homens tem de chegar cantando-nos como fossemos prostituas de luxo, ou aquelas de beira de estrada? Não espero nada além da naturalidade e da sinceridade. Não tente ser o que não é.
- Me dê mais uma chance?

Ela aprecie a vista, fecha as pálpebras e sente a brisa tocar sua pele. Responde:

- Eu até poderia, mas não seria justo.
- Não seria...?
- Em nenhum momento você foi verdadeiro comigo, nem agora, nem há dois meses quando nos encontramos pela primeira vez neste mesmo lugar. Por que você seria verdadeiro neste momento?
- Eu não sei, eu realmente não sei...
- Você ao menos sabe quem é?
- Sim. Roger Pereira Andrade. 22 anos. Estudante de cinema, apaixonado por mulheres.
- Senti uma ponta de verdade nesta resposta. Mas não perguntei sua identidade nem o que faz. Perguntei se você sabe quem você é.
- Creio que a donzela esteja confundindo meus pensamentos...
- Creio que o cavalheiro não pense nada além do que faz e pensa fazer.
- Estou cansando disso. Aonde quer chegar?
- Quero chegar onde você está, a lugar algum.
- Tudo bem, você ganhou... Mas me diga, que você é?
- Um mero acaso.
- Como?
- Somos matérias, Roger.
- Você não pode ser uma mulher.
- Não seja ridículo. Você está dando em cima de mim há meses, com as mesmas cantadas sem graça. Sem inteligência, sem autenticidade. O que você quer que eu pense?
- Eu não sei...
- Você tem razão, eu não sou uma mulher... Para você talvez eu seja um objeto.
- Isso não é verdade!
- A maneira como você me olha não é um reflexo da sua testosterona?
- Talvez. Mas não podemos fugir disso.
- Ah, é?
- Somos animais.
- Que tipo de animais?
- Aqueles que se apaixonam, que amam, que erram, que não pensam em nada que não esteja ligado aos nossos movimentos terrestres.
- Você é estudante de cinema, não é?
- É o que diz na minha matrícula.
- Então grave esta cena...

Eles se beijam.

- Você é louca.
- Não, somos animais.

O mundo parece parar naquele exato instante. Os dois apreciam a vista daquele lugar alto, distante de tudo. Lá embaixo há um planeta em funcionamento... Ela toca no assunto.

- Lá embaixo as pessoas não darão chance para você.
- Então prefiro ficar aqui em cima.
- Dentro de certa irracionalidade, é uma ótima escolha. No entanto, não sobreviveríamos por muito tempo. É perfeito demais para dar certo.

Os dois saem de mãos dadas e voltam para a urbanização. Descem a montanha, deixam a vista para trás, e quando chegam ao solo da cidade desabotoam as mãos e afastam os lábios. Ela se despede:

- Compreende que o que aconteceu lá em cima foi um mero acaso, não é?
- Sim. O justo é não termos chances.
- Temos a chance de viver e mudar a concepção disso.
- Você não pode ser daqui...
- Nenhum de nós pertence a este lugar...
- Adeus...
- Adeus.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Carlota

Carlota caminha com as costas virada para a vida. Há décadas mantém suas delicadas mãos encostadas na cartilagem que fica entre a linha facial do seu globo ocular e de seu nariz, humanamente reconhecida por orelha. Assim, Carlota tampa seus ouvidos para não escutar a verdade. Carlota cega-se a cada esquina para não sentir a dor. Carlota costura seus lábios para não dar margem a contra-argumentação do erro. Assim, Carlota co-existe por não saber nada a respeito do “estudo de caso”. E ela não faz questão de tomar conhecimento disso. Há muito tempo Carlota vem se jogado esmeradamente contra as correntezas da amargura. Diz-se sofrer. Onde? Onde, Carlota, onde! Diga-me onde está sua dor, seu raciocínio. Sua reciclagem motora e intelectual. Tudo está perdido no seu caráter. A gota d’água talvez tenha acontecido na noite em que você olhou para o céu e não viu nada além de estrelas. Astros celestes... Diga-me, Carlota, o que há após o brilho ofuscante dessas luzes? O que há de tão oponente e/ou onipotente lá fora para que nos coloque na posição de formigas ou macacos? Quiçá, Carlota, haja uma refutação, um desacerto grandioso de alguém ou algo que insistiu em dar sentido a seres que possuem a consciência de não existir. Tecnicamente imperfeitos. Sumariamente infelizes, apesar de acreditarem veementemente que são. Pois o fato de Carlota achar que isso tudo é uma verborragia existencial, tudo, e absurdamente tudo pertencente a uma bobagem pseudo-intelectual, prova a sua, a minha, a nossa condição de poluidores interplanetários cujos organismos evoluiram com eras naturais de eterna dúvida. Pois bem, Carlota, pois bem... Vamos todos dormir. Vamos todos rezar. Vamos todos elevar um Estado, uma nação de idiotas. Vamos, Carlota, vamos! Tire seus atrapalhados sapatos de bico fino e vamos correr na direção da hipocrisia. Isso Carlota, isso! Continue acelerando o passo. O amanhã não morrerá tão cedo enquanto o tempo se esvaia na perdição. Um dia, no decorrer do seu trote, da sua corrida, as famosas “pedras no caminho” já terão se transformado em um muro alto. Será a hora de saltar, Carlota, o momento de pular e sentir, como ninguém, a ausência cadencial das suas forças. Diga-me, Carlota, em quem você vai acreditar agora?

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Cuidado...

Após este post, o blog estará prestes a ser atualizado com textos à moda antiga, ou não. Fuja enquanto há tempo.


P.S.: Estou feliz em assustá-lo novamente. Até breve.

sábado, 11 de outubro de 2008

O resto...


Aqui onde a capital não dorme e os cachorros latem para o vento, há algo ainda mais fugaz: os transeuntes. Eles ficam perambulando para lá e para cá, e quando avistam uma montanha oriundamente capitalista, fecham os olhos, balbuciam facialmente até perderem o desgosto por aquilo: “a sujeira”.

Pois bem.

Aqui onde todo e qualquer veículo não passa de um motor poluente, altamente qualificado de máquinas, os ares até transmitem pureza de poetas. O oxigênio não é agregado ao hidrogênio. São palavras sem verbos. Não há água. Não há frases.

Aqui na terra de todos e de liberdade zero, os monstros são heróis, e as lâmpadas emitem fogo. Não há elétrons. Mas como não haver átomos? Como não haver amor?

Aqui onde todos dizem amar, na verdade não passam de levianos, estupidamente estúpidos. O amor não emerge assim caro, caríssimo camaleão; deve-se, em primeiro lugar, ser sincero. Quando um ser seja lá de qualquer espécie ama da maneira mais real possível, a alma arrepia-se a cada lembrança. A cada suspiro. A cada batimento. A cada pulsar.

Aqui onde todos dizem sentir saudades, todos sentem ciúmes por não ter um amor como o meu: eterno, simplesmente por existir. Simplesmente por você existir. Saudoso, poeta, amante. O resto, a meu ver, está perdido com os continentes. Com exceção daquela que me ama, e que para todo o aglomerado de boçais, e inteligentemente boçais, o mundo é apenas teorizado.

Sem essa de vitamina D para hipocrisia. Larguem os vícios, larguem as batinas e sejamos felizes. Sem hierarquizações hmogêneas. Sem ridicularidas subjetivas. O que está ao nosso alcance não passa da realidade. Quem disse que a busca pelo surreal não é concreto?
Estou cansado, e preciso dormir ao lado dela

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

E então...

Enquanto as pétalas caíam rachando o chão úmido, eu nadava em espinhos quentes de alegria. Enquanto a música cadencial solucionava os problemas de meus tímpanos, eu me ensurdecia em gritos de psicodelia poética. E assim eu caminhava. Em marcha lenta, em marcha ré. Mas sempre em frente. Quando eu parar, outros contarão a minha história.

Voltei e não sei por quanto tempo. Há dias que vou, há dias que volto.

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

O espelho



2008

Debruçei-me contra o espelho. Esperava quebrá-lo. Parti-lo ao meio. Via a minha imagem desesperada, flagelada pelas lágrimas que escorriam no meu rosto. Tentei descobrir os motivos. Será que eu não me conhecia o suficiente para entender as razões que me levavam a chorar? Debruçei-me com mais força, com a esperança de liquidar de vez com minha imagem refletida.

1990

O telefone tocou. Era Gaspar, com sua voz ácida e direta, disse-me que eu teria uma chance de enriquecer. Não revelou como, não me forneceu contatos, apenas um número: 1344. Uma seqüência composta por dois números ímpares e dois números pares. Que finalidade teria? Joguei o telefone longe, ouvi o barulho de um objeto se quebrando. Droga, não era o espelho.

Eu estava morto, jazido, putrificado. Para o mundo eu era um cadáver. As pessoas simplesmente passam por mim como se eu não existisse. Ignoram-me caprichosamente em suas hipocrisias rotineiras. Pensam que são felizes. Que lutam por um país melhor. Mas dentro de seus carros, de seus possantes importados, são seres vivos urbanos, sociais, que serviram de cobaias ao próprio sistema humano. Guiam seus veículos automotores por estradas cujas obras superfaturadas viraram manchetes em jornais esquerdistas. Então, orgulhosos, baixam o vidro do possante importado e doam-me alguns centavos que teriam como destino o cofrinho de plástico dos filhos de cinco anos. De centavo em centavo a gente enriquece nas sinaleiras. E um dia que ganhei mais de dez cruzados. Dez vezes sete, setenta. Setenta vezes quatro, me deixa pensar... Acho que são duzentos e oitenta. Por mês. Trabalho duro, temos que esticar a mão por entre o vidro do motorista e quase obrigá-lo a "doação". Já arranhei alguns veículos, furei pneus, e arranquei placas. Cinqüenta centavos fazem toda a diferença. Mas agora eu estava em uma casa, e não sei quem mora nela, Gaspar disse para eu vir até aqui, arrombar a porta e esperar o telefone tocar - Não entendo, o espelho me irrita, não gosto da minha imagem; não gosto do meu corpo; tenho a cabeça achatada, uma barba enorme, minhas canelas são finas e meu tronco espesso – Gaspar meu passou uma seqüência de quatro números.

Era uma cilada. A polícia chegou. No entanto, algo me chamou atenção: a placa da viatura de listras pretas era composta pelos números 1344. O que Gaspar me aprontava? Durante o percurso descobri que eu não estava sendo preso, e não estava sendo transportado por agentes da lei. Eram narcotraficantes, que me pegaram como "laranja". Gaspar me indicou para um serviço sujo, mas lucrativo. De mendigo para laranja. Um carro de polícia furtado, dois narcotraficantes e um morador de rua. Uma ótima notícia para as páginas policiais. Colocaram-me em um ônibus que seguiria até o interior de Mato Grosso do Sul, lá eu teria que entregar o pacote para um senhor chamado "Macalã".

Encontrei Macalã às quinze horas da tarde seguinte. Entreguei a encomenda e as pessoas continuavam me ignorando. Com o dinheiro que ganhei, daria para voltar setenta e oito vezes para a minha cidade natal de avião. Cortei o cabelo, barbeei-me, vesti um terno e incrivelmente, voltei a minha cidade natal. Voltei para minha verdadeira casa, onde minha esposa e meus filhos me aguardavam há sete meses. Foi um retorno seco, sem grandes emoções. Minha esposa achou que eu estivesse morto. Porém voltei mais bonito, forte e rico. 1344. Minha esposa continuava quieta, triste, preocupada. Foi quando Gaspar chegou, beijou um dos meus filhos, beijou minha esposa e olhou nos meus olhos locucionando: "Você está morto." No fundo eu estava. Gaspar substituiu meu papel de marido e pai. Perguntei-lhe por que havia me cedido a chance de enriquecer ilegalmente. Ele responde seco. “Queria você de volta aqui, para poder sentir na pela a mesma humilhação que eu passei quando me traíste”. “Eu nunca o traí, recebi uma carta sua em minha casa de papelão no centro da cidade, não o via desde os tempos de faculdade”. “Você é mesmo um louco, Deixou sua família para morar nas ruas”. “Minha família precisava de dinheiro e eu prometi a minha esposa que eu não botaria os pés em casa enquanto eu não pudesse dar uma boa vida a ela e aos nossos filhos”. “Pois ela cedeu ao meu dinheiro, ao meu amor”. “Ela não te ama”. “E ama quem então?, um mendigo que enriqueceu às custas do tráfico?, Tu não sabes nada da vida do crime, rapaz!, Tu não sabes nada! É um falso moralista, crítico de si mesmo; ganhar dinheiro em sinaleiras, sinceramente, onde tu estavas com a cabeça?”. “Gaspar, tu devias ver o ângulo que eu vi, os rostos das pessoas te ignorando, te tratando como lixo”. “Tu és um lixo humano, largaste tua família e me traíste; agora estamos quites”. “Qual foi a traição afinal, Gaspar?, diga-me na cara!, Qual foi a traição?, o fato de eu ter te ajudado a colar na faculdade, e depois ter te denunciado para o ministério público anos mais tarde?, não seja ridículo, seu jornalistinha de merda!, Fui para as ruas para sentir na pele a vida de um intelectual frustrado com nossa condição de cobaias da má fé; todo dinheiro que tens hoje é fruto de minha inteligência, seu arrogante; fui eu quem construiu essa casa, eu que paguei a cama onde hoje tu transas com minha esposa; não ouse mencionar a palavra vingança, ou humilhação; o recalcado aqui és tu; quer saber, tome este dinheiro; não preciso dele; agora saia da minha casa”. “Não me faça rir, seu tolo; como sustentará tua família?, vais para as sinaleiras do sistema humano?, Caíste na sarjeta por ser ético, limpo, moralista; saia você de cima do meu carpete, sinto o cheiro de sua casa de papelão em seu corpo mal lavado”. “Não ouse...” “Escuta aqui, não ouse tu, meu chapa!, Teu lance por aqui acabou; manda-te; antes que eu tenha que usar forças para isso”. “Tudo bem, você ganhou”.

2008

Fui-me embora, voltei para minha casa de papelão. Abandonei de novo família, amigos, vida. Moro na Avenida Baltazar há dezoito anos. Sou um sobrevivente. Hoje retornei à casa que foi tomada de mim. Gaspar sustentou minha família até a data de sua morte. Devia dinheiro para o tráfico, o chefão não deixou barato. Liquidou minha esposa e meus filhos também. Num tempo em que eu não sentia mais amor por ninguém. E o mais interessante: Mesmo dentro de minha caixa de papelão eu conseguia ler. Exemplares doados pelas boas velhinhas. Leio nas sinaleiras. Vivo nas sinaleiras. Estava na hora de voltar para a minha casa, hoje abandonada, onde não tinha Gaspar, nem esposa, nem filhos. Contudo, havia um espelho intacto, minha imagem era igual à mesma de dezoito anos atrás. O mesmo espírito. Chorei. Entedia as razões. Finalmente quebrei o espelho. Renovei-me para morrer.

domingo, 3 de agosto de 2008

Sessenta e oito dias de amor

Eu contei. Às dezenove horas e vinte e dois minutos desse domingo completaremos (completamos) sessenta e oito dias juntos. São sessenta e oito dias de amor, paixão, respeito, admiração, confiança... Por mais que o número a seguir soe subjetivo, afinal, na segunda-feira (amanhã) completaremos sessenta e nove. O famoso ‘meia nove’ pode ser erotizado por muitos, mas amado por poucos. Pois bem. O caso é que durante esses sessenta e oito dias eu respirei ares diferentes. Caminhei com algodões sob meus calçados. Senti tua pele, teu corpo, os batimentos do teu coração. Sei de cor os intervalos que teus pulmões exercem no decorrer da tua aspiração. E agora não falo dos sonhos e objetivos nossos. Que um dia foram meus, que um dia foram teus. Refiro-me à tua matéria-prima, a carne que encobre a tua (nossa) alma. Aqui dentro, meu amor, guardo lembranças que me emocionam. Nossas conversas e encontros à beira do lago, teu sorriso, teu olhar, tuas expressões... Há uma muito característica: É quanto tu ficas sem palavras, geralmente por algum ato ‘enobrecido’ por mim. Guardo com riqueza de detalhes as curvas que teu rosto realizou quando avistou as rosas em minhas mãos. Guardo com riqueza de detalhes o olhar com o qual tu me miraste quando entreguei-te aquele objeto que só daria a uma mulher digna de recebe-lo. Tu te emocionaste, tocasse meu braço, e então tua mão escorregou até meu pulso... Naquele momento eu queria sentir era teus lábios. Covardei-me. Adiei para outras horas noturnas a iniciativa do nosso primeiro beijo. Tudo estava perfeito. Um céu, um lago, uma boa música aos ouvidos e uma mulher maravilhosa a minha frente. Conhecer tua essência, meu amor, foi o presente mais pueril que eu pude ganhar na vida. Durante noites eu me perguntava: De onde eu a conheço? Eu digo até hoje: Nós nos reencontramos. Tu sabes, minha diva, o quão feliz me sinto ao acordar pela manhã e saber que em breve verei a pessoa mais bela que pode me completar. Contigo, me sinto seguro, leve, realizado. Hoje, escrevo-te ao sabor da saudade. Não sinto teu calor há quatro dias. Isso faz com que minha matéria idealizada de humana, grite por dentro, chore, e deseje ainda mais o seu complemento: Tu. Passar sessenta e oito dias ao teu lado me ratificou uma certeza da nossa ‘diferença’ perante aos demais. Te pedi em casamento, a tenho como mulher da minha vida, é justo sentir a falta da eterna amada. É justo chorar por ela deitado na cama, em um quarto escuro para renovar o momento. Olho fotos nossas, releio depoimentos, cartas, textos, tudo é tão lindo e profundo. Te desejo cada vez mais, me apaixono a cada mudança de turno. O teu fogo me ascende, mesmo longe, as chamas da fogueira se tornam veementes, justamente pela maneira com a qual ascendemos, há exatos sessenta e oito dias. Obrigado por me tornar único em tua vida...

Eu te amo com todas as forças de nossos universos questionáveis,

Teu eterno Poeta.

sábado, 2 de agosto de 2008

O pistoleiro das causas nobres


Saltei do ônibus com a esperança de poder alcançá-la. Silvana corria feito louca pelo calçadão central e não sabia exatamente onde queria chegar. Naquele momento, tudo que passava por sua cabeça era fugir do monstro que a perseguia. Neste caso, eu. Não precisei alongar meus passos. Durante sua vida inteira, Silvana agiu como uma perdida. Foi assim com Romeu, seu antigo namorado. Lembro-me de Romeu dando-lhe tapas no rosto. Ela gritava. Ele a agredia cada vez mais. A cada sussurro de Silvana, Romeu rebatia com tapas, socos, chutes e o que alegava ter direito. Silvana, mulher submissa, após sofrer as agressões se deitava nua sobre a cama de lençóis rosa e se escarnecia. No fundo, Silvana quisera ser como uma rosa; cheirosa, cheia de brilho, almejada pelos rapazotes que praticavam o ato do romantismo para conquistar a garota amada. Por um segundo, Silvana quis ser uma mulher amada, idolatrada, com um homem à sua altura. Mas em trinta e sete anos, tudo que ela soube administrar foram relacionamentos superficiais.

Conheci Silvana no colegial, era bela, mas com o passar dos anos tornou-se patética. Um rebotalho ambulante. Andava na penumbra. O único homem por quem se apaixonou fora Romeu. Um comerciante barato de olhos azuis e cabelos loiros. Ele tinha uma loja na galeria do parque, vendia instrumentos musicais. E só. Nunca teve perspectiva de vida. Para Romeu, bastava encontrar sua Julieta. Engano seu acreditar que encontraria em Silvana a sua realização pessoal. Encontrou foi um saco de pancadas. Até hoje não compreendo os motivos reais que levaram Romeu a espancar Silvana. Seria um fetiche? Não importa. Nesse instante eu a vejo escorada em uma parede mal acabada do prédio da biblioteca pública, chorando aos prantos. Detesto mulher submissa. Eu não agüentava presenciar aquelas situações de violência doméstica. E agora ela chora por temor. Será que ela sabe o que irei dizer? E como procederei após minhas sentenças verbais? Muito provável. O sexto sentido nunca falha. Foi através de meus pressentimentos que descobri o dia e a hora exata para se livrar de Romeu.

Hoje. Ao ouvir gritos e socos, pressenti. Portei minha pistola semi-automática e fui de encontro ao barulho que me inquietava há dois anos e meio. Arrombei a porta do apartamento vizinho com facilidade, mirei no crânio de Romeu e disparei sem comiseração. Adeus pandemônio. O último estalo que eu ouviria daquele domicílio seria justamente o do calibre de minha pistola se mesclando com a velocidade de minha bala. Acabou. Finalmente. Silvana balbuciou e correu. Nunca vi nada igual, parecia uma velocista. Calmo, eu fui até o ponto de ônibus com a finalidade de alcançá-la. Pela janela do veículo eu sentia o desespero de Silvana. De certo ela pensava o pior. No entanto, eu não gasto uma só bala com mulheres submissas. O ônibus estacionou defronte a biblioteca pública, caminhei lentamente até Silvana que passou a se ajoelhar no chão úmido, encostando sutilmente sua cabeça na mesma parede que sustentava seu leve corpo. Eu me agacho, ela me fita os olhos, eu a beijo, sinto os seus lábios frios de pavor e a mato com uma jogada de mestre. Um simples aperto com meu polegar direito sobre a garganta de Silvana foi o suficiente para tirar o seu ar que já se dividia com minha saliva.

Voltei para casa mais aliviado. Sentei em minha poltrona, liguei o televisor e sintonizei um canal qualquer de filmes. Sabendo que escorado em uma das paredes do prédio da biblioteca pública havia um corpo com minhas digitais. E que no apartamento ao lado, um outro corpo com uma bala procedente de minha pistola, jaz sobre o assoalho. Restava esperar pela polícia. Com o controle do televisor na mão direita e uma xícara de café na esquerda eu pensava: “Que saudade dos amigos da prisão, já não os vejo há dois anos e meio...”

terça-feira, 29 de julho de 2008

As facetas de meu retorno

Foram doze, eu disse doze. Esse é o número de e-mails que recebi durante minha ausência neste espaço tão pessoal que chamo de coluna. Aqui, há um ano, tive meu primeiro ato virtualmente inteligente: a de publicar tudo que, porventura, eu viria a escrever. Durante esse período minha vida passou por inúmeras situações, minha mente evoluiu do ponto de vista existencialista, e eu descobri uma essência ainda mais reservada de mim mesmo. O Luan que há alguns anos era acometido por desilusões sociais e pessoais, hoje se diz mais seguro de si, de suas visões. Mas ainda me deixo levar por devaneios, afinal sou um eterno pensador, um eterno sonhador...

Meus pais viviam dizendo que eu era algum tipo de “ocultista”. Eu me afastava das pessoas e ficava com meus sabores intelectuais da ocasião. Faço isso até hoje, leio escondido, escrevo na escuridão da madrugada. A idéia de ter alguém observando meu ato de escrever me tira do eixo. “Deixe-me só, senhor humano”. Já fui apelidado de autista, nerd, pseudo-intelectual, “quatro-oio”, bigodinho de carroceiro, o feioso, “o pernas-torta”, frangosul e por aí vai... Cada apelido corresponde a certa época de minha existência. Atualmente, cheguei ao estágio de poeta, porto seguro, muchachito... O que muito me orgulha, o que muito me emociona. Há anos procurava por alguém que eu achava não existir. Então me matriculei em uma cadeira chamada “Redação para TV”. Não esperava encontrar a mulher da minha vida ali, sentada na companhia de um amigo fiel e sincero, que também dispões de laços mais do que afetivos comigo.

Pois eu a conheci, e por ela eu escrevo enfrentando multidões. Por ela eu leio em público, recito poemas, compro rosas, crio crônicas sentimentais ao pé de seu ouvido. Com ela possuo uma segurança que faz de qualquer autista um ser sociável. Porque é ela que eu amo. E nesse instante, é por ela que eu escrevo. Não só por mim. Eu estava precisando amar, ser amado, sonhar mais distante com alguém que sonhe tanto quanto. Embora seja realista.

Então abro minha caixa de e-mails e me deparo com doze mensagens vindas de amigos-leitores. Pensei: é hora de voltar. Não gosto de estipular prazos, prometi que voltaria quando me desse vontade, quando minhas inquietações e meus sentimentos precisassem urgentemente de vozes verbais. Cá estão, alinhados em um alfabeto legível, escrito por um humano não-praticante, mas acima de tudo falível. Sujeito à vida.

Amigos e amigas, durante as últimas semanas me dediquei a escrever cartas para minha eterna amada (amor, tu as receberás em breve), a dar início em um projeto literário que há meses não saía da gaveta, a ler exemplares atrasados, e o principal: a refletir. Por isso achei que o melhor seria “sumir” por uns tempos. Agora basta. Obrigado aos que tiveram a paciência de me esperar, um beijo a todos.


L.I.