Coluna do Luan

quinta-feira, 6 de março de 2008

Eis aqui uma foto do show do Iron em Porto Alegre. Scream for me!

Scream for me, Porto Alegre!







O melhor show do mundo, não há palavras para descrever. Estou rouco. Talvez isso justifique minhas palavras.


PS: Estou postando as fotos do show de São Paulo, ainda estou a procura das fotos e dos vídeos de ontem. Assim posso provar que não é mentira, quando falo do melhor show do mundo.






quarta-feira, 5 de março de 2008

Iron Maiden

É verdade que eu ainda era um esperma quando eles já reinavam no mundo do metal. Mas hoje é o grande dia, ou a grande noite. A geração antiga juntamente com o público jovem do Iron estará reunida logo mais às 21h no Gigantinho, em Porto Alegre, para celebrar um dos maiores, senão o maior show do mundo de rock pesado. O Iron Maiden possui um estilo peculiar de metal, e é essa peculiaridade que o difere das demais bandas do gênero, e faz deles a maior banda de todos os tempos. Sem Rolling Stones. Apenas Iron Maiden. Se bem que eu sou suspeito para falar. Mas agora é só aguardar. Espero que eles realmente possuam a tal pontualidade britânica.

Amanhã contarei tudo.

Dá-lhe Iron!
PS: Não se assustem com esse meu lado obscuro.

terça-feira, 4 de março de 2008

De volta à realidade

Eu volto de férias com o corpo mais bronzeado e com minhas ideologias mais convictas. Eu até caí de uma torre de 120 metros para provar que eu faço aquilo que pode parecer suicídio emocional. Nas minhas férias também vi biquínis de todos os tipos. Realmente a moda do fio dental está com tudo em cima, literalmente. Os homens não ficaram para trás, e alguns deixaram o machismo e/ou a vergonha de lado para usufruir da sunga, mostrando suas coxas brancas. Testemunhei momentos de arrogância de veranistas, o superego das pesudo-gostosas e aperfeiçoei meu espanhol com as argentinas. Aliás, falando nas hermanas, elas são lindas. Fiquei impressionado com a beleza dessas mulheres. Algumas brasileiras não chegam nem aos pés das argentinas que tive a oportunidade de conhecer. Elas possuem um charme, uma delicadeza, um blefe que muitas brasileiras fazem questão de dispensar. O brasileiro em si é muito direto no que diz respeito a qualquer exemplo de relacionamento. O brasileiro é impaciente, reclamão, além de pervertido. Claro que não dá para generalizar, mas os argentinos são mais plácidos, porém astutos. Quando há uma oportunidade eles não deixam de aproveitar. Digo isso porque fiz amizades com muitos argentinos, e o que mais me chamou a atenção neles foi a felicidade de estar no Brasil e interagir com os brasileiros. Essas falácias da rivalidade Brasil x Argentina não passam de facetas latino-americanas. Agora não quero aqui desprezar minhas origens, desprezar as mulheres brasileiras e o povo de meu país. No entanto, quero ressaltar a qualidade da sociedade argentina em estilo de vida.

Deixando os hermanos de lado, passei 14 dias de pernas para o ar. Primeiramente estive em Penha, Santa Catarina, para honrar o parque temático do Beto Carreiro com minha presença. Meu sobrinho foi meu fiel companheiro. Com ele passei por quase todos os brinquedos do parque. Sozinho mesmo eu fui a três: A torre do terror, Montanha-russa, e mais um parecido com o da torre, só que um pouco mais baixo, cujo nome não lembro. Testei minha coragem, meus nervos e meu preparo físico. Isso fez com que eu me apaixonasse pela adrenalina. Às vezes acredito que eu seja um masoquista ou narcisista. Pretendo ainda saltar de pára-quedas e voar de asa-delta. Depois eu penso em outros esportes radicais. Futebol não está com nada. O negócio são os esportes que testam os limites que nós nos impomos. O prazer da vida é realizar o que você nunca realizaria. Agir com o que é previsível se torna monótono. Além do mais, as nossas experiências sofrerão uma mutação fenomenal se passarmos de nossas balizas, criando, deste modo, histórias. Mas enquanto agirmos como verdadeiros inflexíveis não poderemos dizer que realmente aproveitamos nossa filosofia de vida, seja ela qual for.

Não obstante, o quesito filosofia de vida em Florianópolis tem de sobra. De Penha fui para a praia de Ingleses, passar meus últimos sete dias de férias. Concordo que a Ilha tem lá suas belezas naturais, mas a população me pareceu bastante heterogenia. Há várias tribos em Florianópolis, isto é, há diferenças de classes e culturas enormes. Contudo, isso não demonstra ser um problema por lá, quem é de Florianópolis sabe do que estou falando, a cidade possui um elemento em que as demais capitais carecem. Talvez por isso a ilha seja conhecida como ‘mágica’, ao menos para os turistas.

Agora estou de volta à realidade. As férias acabaram e eu terei que procurar significados para minha existência. Tenho que escrever, sinto falta disso. Tenho que ler, e o pior de tudo, agüentar o Hugo Chávez com suas bestialidades de socialista. A Venezuela está nas mãos de um Mao Tse Tung moderno. Do comunismo ao socialismo. Não tenho mais paciência para essas políticas ditatoriais farsantes de democracia. No caso da Venezuela, talvez ainda haja um dedo democrático, e Chavez sabe disso. No episódio de Cuba, para mim, nada muda. Esta ilha estará condenada à ditadura enquanto a família Castro estiver no poder. Não há liberdade econômica, social e democrática em Cuba há 50 anos. E tenho que sobreviver nesse mundo, porque foi nele que nasci. Já por aqui na tropicalidade, a CPI dos cartões corporativos parece uma tartaruga, ora sai, ora não sai. Se bem que não é mais nenhuma novidade pagar despesas pessoais com dinheiro público. Continuo com minha posição, isso tudo é culpa de Juscelino Kubitschek. Se ele soubesse no que Brasília se transformaria, ele jamais teria a construído. Ou teria? É... Amigos, estou de volta à realidade, sem as argentinas. Sou um legítimo brasileiro: reclamão e obsceno.

segunda-feira, 3 de março de 2008

Como todo bom judeu, segunda-feira é feriado para mim. Começo tudo na terça. Por tanto, até amanhã.

PS: Não sou judeu.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

O frango grelhado


Estava tudo como deveria ser. Mesinha no centro da sala, sofá coberto por um pano fino, de seda e com as pontas brancas. Os CD’s, assim como os livros, empilhados em ordem alfabética, por artista e autor. Na cozinha eu preparara uma frango grelhado. Há várias teorias sobre o frango grelhado. Dizem que o bom frango é o que permanece menos tempo no fogo. Confesso que não sou lá grande coisa na cozinha, me arrisquei no frango grelhado e nem sei se ela gosta de frango. E se ela for vegetariana? Deveria ter pensado no plano B. Ou melhor, que plano B que nada. Ela só vem mesmo para transar. Mas e se ela não quiser transar? Ela pode não querer comer o frango e nem transar, vai ver é uma neurótica, assassina, quer conhecer meu apartamento, mexer nas minhas coisas. Céus! O que há com as mulheres de hoje em dia? Eu a convidei para vir ao meu apartamento e ela aceitou numa boa. E eu a vi apenas uma vez. Ela pode ser qualquer pessoa, de qualquer nível. Onde eu estava com a cabeça no momento em que a convidei? Agora o frango está lá, sendo assado para uma mulher que pode querer fazer qualquer coisa comigo, ou não. Mas se bem que... Se ela aceitou foi porque deve ter gostado de mim, não? Porque ela aceitaria? Seria uma garota de programa? Fiado? Não... Não... Ela não tem cara de prostituta. Pensando bem, as garotas lá da faculdade também não aparentavam ser profissionais do sexo e transavam toda a noite com um homem disposto a pagar o exorbitante preço. Além de prostituas são mercenárias. Ah, essas mulheres de hoje em dia, não dá mais para confiar em ninguém. Aí, meu Deus! A campanhinha tocou, deve ser ela, onde estará o meu revolver? Não vou atender a porta assim, desprevenido. Não, hoje não. Essa mulher pode até tentar me matar, mas tem que ter muita bala na agulha. Não sou nenhum amador inocente que convida qualquer mulher para vir ao meu apartamento, decorado, em ordem, limpo. Não é qualquer uma que entra em minha residência. Mas que diabos! Onde está o meu revolver? Tenho que achá-lo. Droga! Ela está insistindo na campainha, direi que já estou indo – Eu já atendo, um instante, por favor! – pronto, agora ela vai esperar. Ao menos mais alguns segundos. Sei que deixar uma dama esperando é falta de educação, mas ela também pode não ser uma dama. Achei! Estava aqui, escondido nesta gaveta que nunca abro. Vou carregá-lo. uma, duas, três, quatro balas deve estar de bom tamanho. Agora sim, vou atender a porta: Seu Antônio! Que susto. – Há uma correspondência para o senhor? – Para mim? Ah, obrigado seu Antônio. – Disponha, Doutor, tenha uma boa noite. – Obrigado, Antônio, tenha uma boa noite você também. Não acredito nisso. Não era ela, era o seu Antônio, o zelador. Mas isso é hora de entregar correspondência? Vou tirar esse revolver da minha cintura, está encomodando-me. Irei deixá-lo aqui em cima desta estante, para que eu não o perca de vista, quando ela chegar estarei prevenido. E o frango? Cruzes! Deve estar queimando! Ufa, foi por pouco. Está aqui, bem servido. Vou deixá-lo à vista, assim posso distrai-la com o frango e quando ela menos esperar, será ela a sobremesa, esquartejada sobre a minha mesa de jantar.

domingo, 10 de fevereiro de 2008

Voltaremos...

Amigos-colegas-leitores! Peço mil desculpas pela minha ausência no blog. Aliás, ontem este espaço completou um ano de existência. Pois que tenha muitos outros pela frente.
Contudo, estou aqui não só para pedir-lhes desculpas, mas também apra comunciar meus ultimos dias de férias. Voltarei somente dia 23. Até lá, terei passado por cidades como Penha e Florianópolis, em Santa Catarina.
Prometo que, em minha retomada, serei mais atencioso com esta coluna que carece de conteúdo. Grande abraço a vocês, e que 2008 seja um ano repleto de boas realizações para todos nós.
Eternas saudações literárias...
L.I

terça-feira, 29 de janeiro de 2008

O contraste do envelhecimento

Anteontem foi meu aniversário. Como todos, ou quase todos sabem, completei duas décadas. É... Duas décadas. Mas não estou nem aí para a minha idade. E o mais engraçado é que no dia de meu aniversário eu não senti nada de especial. Antigamente sim, eu contava as semanas para chegada de meus ‘anos de vida’. Entretanto, nesse domingo que passou não foi desta forma. Eu acordei e nem lembrei que estava completando vinte anos. Até que meus pais me ligaram de praia parabenizando-me, foi aí que me acordei: Caramba! Hoje é meu aniversário! Acho que na medida em que envelhecemos perdemos o gosto pela comemoração de mais um ano de vida nesse planeta cada vez mais doente. Acho que na medida em que crescemos talvez também evoluamos. Outros não, é verdade. Todavia, isso se baseia em princípios.

Por exemplo, não há aniversário em que você não lembre da sua infância. Você mentaliza os anos que deixou para trás, começa a refletir sobre sua vida, sobre suas atitudes, sobre como você é na essência da alma. Acho que estou entrando na era dos aniversários nostálgicos. Bom, já se passaram vinte anos, penso. E na teoria, terei mais vinte anos, e depois mais vinte, e mais vinte e quem sabe mais vinte. Claro, isso se a linha da palma de minha mão permitir, ou meu mapa astral, ou os Deuses. Vai saber.

Outro dia eu estava no centro de Porto Alegre passeando para renovar meu espírito quando uma cigana de turba e dentes de ouro falso me agarrou pelo braço e insistiu ver as linhas da palma de minha mão esquerda. Lutei irrevogavelmente contra a força surpreendente da tal cigana, mas ela sabia o que estava fazendo. Essa cigana apertou o músculo de meu braço fazendo com que minha mão, involuntariamente, se abrisse. Ambos paramos. Ela ficou defronte para mim e então disse: você terá muita sorte no amor, e viverá muito, até ficar velhinho... Bem velhinho. Não vou mentir dizendo que não acreditei na tal cigana, seus olhos brilharam, e posteriormente ela sorriu pra mim. Foi então que ela largou meu braço, e eu, voltando a caminhar dei a resposta típica de minha personalidade: é... Eu sei, faço bastante exercício físico. Ela continuou rindo e balançou a cabeça com um sinal de simpatia. Depois desse dia passei a ver a minha vida com outros olhos. Será que essa cigana falou-me a verdade? Não posso descartar a hipótese de que ela tenha mentido. Mas a troco de quê? São muitas as dúvidas. Creio que quem faz o nosso destino somos nós mesmos. E se hoje ela ver minha mão de novo, vou continuar tendo sorte no amor e uma vinda longa? Não sei, e talvez não queira descobrir.

Quero apenas viver minha vida de forma segura e insegura, com amor e ódio, com problemas e soluções, com relacionamentos e casos, com sexo e paixão, com flores e espinhos, com brigas e beijos, com vontade e preguiça, com sol e lua, com praia e campo, com divergências e casualidades, e com aniversários nostálgicos. Senão viver, simplesmente viver seria muito fácil. Se bem que também não é tão difícil. E talvez sejam esses contrastes que deixam nosso cotidiano mais saboroso. Embora tenhamos que ser cuidadosos, pois sabores em demasia amarga o nosso romantismo. Aí seremos como os revolucionários do século XX, que supostamente lutavam por causas nobres e deixavam a vida para depois. Eis que o senso comum deveria ser o nosso ponto de equilíbrio. Sinto que mesmo com vinte anos terei que aprender a aceitar o meu envelhecimento vagaroso, e mesmo assim, letífico.


segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

Um dia depois do outro


Sentados na praia, ela confessa sua saudade:
- Estou feliz em te ver...
- É... Eu também.
- Depois de tanto tempo, né?
- Pois é.
- O que houve?
- Esse é o problema, não houve.
Ela olha para o lado, sente a areia da praia levemente tocar seus olhos, os fecha e deixa escorrer uma lágrima. Ainda um pouco apreensiva, ela exclama com o canto da boca:
- Eu sabia que esse dia chegaria...
Agora é ele quem olha para o lado, sente o vento respaldá-lo, coloca seu braço sobre o ombro dela e fala com a voz calma, porém mortífera:
- Há sempre um dia depois do outro.


De começo ela não havia entendido o que ele quis dizer. Depois dessa frase Afonso levantou-se em partes; primeiro retirou seu braço do ombro dela, depois se ajoelhou, beijou-lhe a testa, e por fim levantou-se. Renata olhava Afonso se afastar dela, em segundos ele já era uma miragem no horizonte daquela praia deserta. Em questões de minutos Renata já não o via mais. Afonso foi embora, e talvez para nunca mais voltar, pensou. Ela também ponderou sobre a frase de Afonso: “Há sempre um dia depois do outro.” – O que será que ele quis dizer com isso? Renata não encontrava resposta para si mesma havia anos, quanto mais para as frases enigmáticas e prosaicas de Afonso. Ela permaneceu mais dez minutos sentada na areia esperando que o vento levasse sua tristeza embora, esperando que o cheiro do mar levasse a si embora. Renata, então, se levantou, caminhou até a beirada, sentiu a água tocar seus pés, e disse a si mesma com uma entonação de pecadora: Que belo fim seria se eu me matasse agora. Por um instante tudo pára, ela apenas se orienta pela audição. Com as pálpebras fechadas, o que ela mais quer é sentir o mundo, sentir a realidade do cotidiano contra sua forma fictícia de amar e viver. “Eu perdi o Afonso”. “O perdi para todo o sempre.”


Era dez e vinte e dois quando Afonso acordara suado e com a respiração ofegante: Cristo! Estou atrasado! Vestiu a primeira bermuda que viu pela frente, colocou sua clássica regata branca de salva-vidas mirim e desceu as escadas se tropeçando até chamar atenção da mãe:
- Que isso, Afonso! Aonde tu vai com essa pressa?
Ele olha firme para a mãe e sem hesitar responde:
- Vou encontrar o amor da minha vida.
Saiu batendo a porta, e já no outro lado da rua ouviu a polêmica frase do pai dos anos modernos:
- Use camisinha!


Afonso não deu bola para o comentário impertinente e gozador de seu pai. Até porque seu pai sabia que hoje Afonso ficou de se encontrar com Renata às 10h30min na orla dos pescadores. Aliás, Garotas de 16 anos detestam esperar, são impacientes, um minuto de atraso e elas já pensam bobagens do tipo que ‘ele não me ama mais’, ou ‘ele não quer me ver’. No entanto, Afonso tinha a certeza incontestável de que naquela manhã ele voltaria a sentir os lábios macios de Renata. Estava louco para vê-la, foi então que lembrou de seu sonho, ou pesadelo. Não faz sentido, nunca deixaria Renata, disse a si mesmo. Caminhou ligeiramente os dois quilômetros que distanciavam sua casa do ponto de encontro com Renata. A enxergou lívida, de pé na beira da praia com os olhos fechados girando em torno de si mesma. Ele grita euforicamente:
- Renata!
Ela parece não ouvi-lo, ele faz uma segunda e inútil tentativa:
- Renata!


Não restava outra hipótese senão ir até onde o corpo de Renata se movia sobre a água salgada. Renata parecia estar em transe, hipnotizada. Afonso apenas cutuca o ombro esquerdo dela, Renata se vira, e ainda de olhos fechados o beija. Foi uma troca de salivas longa e contínua, durou cerca de um minuto. E nisso Afonso tinha razão, ele realmente voltou a sentir os doces lábios de Renata. Mas quase que efêmero, o sabor doce ao qual ele tanto almejava já não era mais o mesmo. Ainda se beijando, Renata retira do bolso de seu short uma carta que guardou durante uns dois anos, apenas esperava o momento certo. E o momento chegou.


No dia anterior Renata relembrou dos velhos amigos, namorados, e inevitavelmente de Afonso. Tiveram um caso na época de pré-adolescentes. Ela também lembrou da carta que escrevera na noite em que Afonso, bêbado, a chamou de vadia, burra e ignorante. Afonso não sabia o que estava fazendo naquela noite, no auge dos seus 16 anos, abusou do álcool e resolveu falar alguns palavrões para a única garota, e futuramente mulher, que o amava de verdade. Renata se sentiu um lixo quando ouviu da boca de Afonso as palavras que ofendem a índole de qualquer mulher que se preze. Isso a magoou profundamente, tão profundamente que sobrou inspiração para escrever uma carta de despedida.


Em meio aquela nostalgia do dia anterior, Renata ligou para Afonso com a finalidade de marcar um encontro, depois de dois anos. Ao telefone Afonso quase chorou ao escutar a voz amadurecida de Renata, no fundo ele ainda a amava, mesmo não sabendo.
Na praia, ao sentir a carta entre as mãos, Afonso pára de beijar Renata. Ela o encara perante alguns segundos e diz:
- Há sempre um dia depois do outro.
Ela vai embora, lentamente caminhando sobre a água salgada. Ele sem entender nada, senta na areia úmida e abre o envelope da carta enquanto Renata torna-se uma miragem desaparecendo no horizonte daquela praia deserta, que agora era ácida, mordaz, fulminante.
Ele lê a carta, olha a data e se surpreende. Nem lembrava mais da noite em que dissera as cruéis palavras a Renata. Mas ela... ah, ela jamais esqueceu:


"Meu amado, Afonso. Sei que ao receber essa carta você me encontrará em uma praia deserta, dando voltas em torno de mim mesma sobre a água do mar. E neste exato momento estarei pensando de como eu poderia justificar todo o meu sofrimento. Suas palavras arderam no meu coração como uma pedra tutelável. Não há razões para fazer o que tem feito comigo. Já me abri para você, me declarei a você, já lhe disse o quanto lhe amo, o quanto é importante para minha vida. Mas depois dessa noite, não tenho mais certeza de meus sentimentos, de meu mundo. Acho que suas palavras fortes, cruéis, vindas de um garoto imaturo, tornaram a abrir meus olhos para a realidade de suas intenções. Hoje eu completei 14 anos, Afonso. E provavelmente, no dia que ler essa carta, será o dia de meu aniversário novamente. Mas você não lembrará, vai seguir seus impulsos primitivos, querendo me beijar e apertar minha bunda como sempre fez. Você só me usa, Afonso. Já passou da hora de você crescer, é uma pena que seja tarde. E no dia em que tiver lendo essa carta, eu estarei lhe usando da mesma forma que fez comigo. Não será vingança, apenas ironia do destino. Só quero que saiba que eu lhe amei de verdade, porém não acredito mais em conto de fadas. Já estou pronta para ser mulher, apenas quero seguir minha vida, agora sem você junto comigo. Também sei que quando ler essa carta você já terá madurecido até certo ponto, não sei se o bastante. Mas será que isso ainda importa? Talvez eu não seja mais a mesma. Um beijo de quem um dia já foi sua. ASS: Renata."


Afonso ficou imóvel durante muito tempo. Viu o pôr do sol sozinho, melancólico. Nunca imaginou que uma bebida pudesse atrapalhar tanto a sua vida. Uma bebida ingerida há exatamente dois anos. Mas como Renata disse, há sempre um dia após o outro. Na vida, todo e qualquer ato da menor insignificância que seja gera conseqüências. Foi então que Afonso lembrou do sonho, e descobriu que não foi Renata que havia o perdido, mas sim ele que a perdeu. Após oito horas sentado naquela areia úmida e gelada, ele se levanta e num suspiro diz em voz alta:
- Por isso que falam que os sonhos vêm ao inverso. Talvez seja a hora de mudar, é justo.

sábado, 19 de janeiro de 2008

Meus 20 anos de mundo

Falta uma semana para o meu aniversário. Daqui a sete dias completarei 20 anos. Época de aniversário é sempre nostálgica, você fica pensando nos anos que passaram e no proveito que tiramos desses anos de experiência. Eu, por exemplo, mudei muito desde minha pré-adolescência, se é que posso chamá-la assim. Não me lembro muito bem dos problemas sociais brasileiros na década de 90, eu tinha menos de dez, e depois, um pouco mais de dez anos. Mal lembro da entrada do Real, da mudança de nossa economia e do governo FHC. Lembro de um ou outro título conquistado pelo Inter, lembro da minha infância, mas não estava nem aí para o mundo, para o país, para a sociedade. Eu era apenas mais um ser respirante. E ainda sou. A diferença é que quando somos crianças, e posteriormente adolescentes, esquecemos do mundo ao nosso redor. Somos egoístas, só queremos saber de nós, não aceitamos nenhuma explicação e usamos argumentos sem fundamentos em busca de um objetivo fútil. Quando criança ainda é tolerável e na adolescência pode ser respeitado como uma fase. Sou da tese de que nossa personalidade começa a ser formada, em princípio, na aborrecência. É quando surgem os primeiros interesses. Antigamente, os primeiros interesses eram: se casar, arranjar um bom partido, ter um bom relacionamentos com seus pais, ter filhos, uma doutrina a seguir. Hoje, os primeiros interesses é beijar na boca, perder a virgindade, ir a um baile funk ou a uma rave, experimentar algum tipo de droga, sejam elas lícitas ou ilícitas. Gente esse é nossa sociedade moderna! A sociedade que cria tecnologias de primeira mão e ao mesmo tempo regredi no que diz respeito a sua evolução. E eu aqui....prestes a completar 20 anos. Tento avaliar não só a minha perspectiva de vida, mas a perspectiva do mundo.

Dia desses fui caminhar no centro de minha cidade e fiquei impressionado com o descaso de grande parte da sociedade jovem, da qual eu me encaixo, com o meio ambiente, com a saúde, com a atual situação do país. Ninguém estava preocupado com isso. A principal inquietação é por arranjar um “trampo” e conseguir dinheiro para ir em uma festa, tirar a carteira de motorista, comprar um carro. E eu aqui...andando de bicicleta, reciclando lixo, guardando o oleio de cozinha... Será que minhas atitudes são em vão? Estou prestes a completar 20 anos! São duas décadas! E por vezes me sinto como um homem de 30, por vezes me sinto como um garoto de 16. Talvez eu esteja em uma fase de transição, assim como a nossa sociedade.

Ah, já ia esquecendo, agora a moda é corrupção. Fraude no Detran, obras superfaturadas, despesas pessoais pagas com verbas públicas...e eu aqui, prestes a completar 20 anos. Ninguém é punido, a justiça é cega, a educação, por incrível que pareça, carece de educação, e nossas reformas políticas é uma vergonha internacional. Qualquer país normal e racional tem dois ou três partidos, mas como isso! Nós somos um país tropical, carnavalesco, temos as mulheres de maiores bundas do mundo, aqui é tudo festa. É crime organizado, governos paralelos em favelas, sistema prisional defasado, políticos gastando 15 mil em um gabinete e povo brasileiro dizendo: Tudo bem. Não cobramos, somos broxas. A nossa política é reflexo do que é grande parcela dos brasileiros: Broxas, sem cultura, sem ideologias, sem uma opinião formada. Somos golpeados por falsas promessas a cada dois, quatro anos, mas: Tudo bem.

É...e eu aqui, prestes a completar 20 anos. Sou muito jovem pra viver tudo isso. Prefiro voltar à minha infância, à minha adolescência e achar que o planeta tem o mar azul, que as nuvens são feitas de algodão e por que não: que viemos de um caroço. Quero minha inocência de volta, quero minha filosofia surreal de volta, pois estou para completar 20 anos em mundo que não terá 20 anos pra desfrutar de suas belezas naturais, se continuarmos a praticar nossas hipocrisias rotineiras.