Coluna do Luan

sábado, 11 de agosto de 2007

Fatos e versões. O poder de uma vida qualquer. Últimas 24 horas.





120 quilômetros por hora.

Não havia como cogitar a possibilidade de se salvarem. Na condução do automóvel estava Leandro, que, nos 25 anos de sua vida, sempre fora bem sucedido. Seus pais o tratavam como um príncipe, recebia tudo de mão beijada. Nunca se esforçou para conseguir o que queria, nunca escorrera do seu corpo uma gota de suor que não fosse à das noites de baladas seguidas de sexo desleixado. Era um rapaz jovem, bonito, que teve muitas namoradas, muitas parceiras. E, justamente, no banco de carona, estava a atual namorada de Leandro. Seu nome? Fernanda. Ela, muito pelo contrário é filha de casal humilde. Sua mãe durante anos trabalhou como doméstica até desenvolver um câncer de pulmão devido aos inúmeros cigarros que fumara na vida. Seu pai continua trabalhando como guarda noturno de uma transportadora, correndo o risco de levar um tiro na cara a cada noite de serviço.

160 quilômetros por hora.

Fernanda lembrava da amiga Letícia que a ajudava na faculdade, nos relacionamentos difíceis, não se conformava em deixar a amiga, assim como a família que sempre amou. Tanto Leandro quanto Fernanda tinham a família como base de tudo.

180 quilômetros por hora.

Agora é a vez de Leandro lembrar de quando seu pai o levava todas terças e quintas nas aulas de natação. Nadou durante sete anos. Naquele momento ele não entedia como foi se perder no mundo. Como pôde mudar tanto. Lembrou-se também da mãe, que sofre de pressão alta. Sempre tivera uma preocupação a mais com ela, quando saia para balada dava antes, um beijo na testa da mãe, e um tapinha no ombro do pai dizendo: “Não tenho hora pra voltar”.

200 quilômetros por hora.

Uma insignificante pedrinha no caminho já seria o suficiente para capotar. Fernanda põe a sua mão esquerda tatuada sobre a mão direita de Leandro que naquele instante, segurava a alavanca da marcha. Ela olha para os olhos de Leandro que estavam fixados no pára-brisa.

220 quilômetros por hora:

- Eu sempre vou te amar. – Diz ela.

É ele que agora olha para o lado, sem hesitar, estica seu braço direito, abre a porta do caroneiro e empurra Fernanda para fora do veículo. Ela rola metros a fio esfolando-se e ensanguentando-se. Ao fundo, Fernanda vê a poeira seguida por um barulho estrondoroso.

- Podem tirar o soro. – Diz o médico.

Ela acorda, olha para o lado e vê a mãe respirando por aparelhos, sua mãe estava em estado terminal. Junto ao leito, estava seu pai, o vigilante noturno não conseguia disfarçar as lágrimas que escorriam continuamente no seu rosto. Quase perdeu a única filha, e por questão de tempo, perderia a esposa. O Vigilante como um lapso de memória recorda-se do dia em que conheceu a mãe de Fernanda. Estava caminhando solitariamente nas ruas, período pós-ditadura, até que avista uma bela jovem sentada no banco da praça, fumando um cigarro. Lembrara da fumaça que integrava seus ardumes. Foi amor à primeira vista. Pena que a mesma fumaça que o atraiu, no momento é a causadora da morte da pessoa que ele mais amou. O vigilante coloca a mão esquerda sobre a mão direita de sua esposa e diz a mesma frase quando a conhecera:

- Eu vou amar-te para sempre.

Fernanda estava deslumbrada com o ato de amor do pai, e começa a chorar porque sabe que não terá mais a presença da mãe que durante anos vivia dizendo que a amava muito. É como se um pedaço do seu corpo fosse junto com a da sua mãe.


(24 horas antes)

- Ai, Leandro, tu és louco de não usar camisinha. Não acredito que fizemos isso.
- Relaxa, tu toma pílula.
- É, mas pílula não previne doenças.
- Do que está falando, eu sou limpo!
- Como posso ter certeza?
- Tu não confias em mim?
- Confio no teu amor.
- Arrume-se, vamos embora.
- Se tu queres assim.

Fernanda havia quebrado totalmente o clima de sensualidade que excitava Leandro. De Certo modo, as palavras de Fernanda fizeram efeito. “Confio no teu amor”. “Uma Puta pobre, não tem onde cair morta, quer ficar se fazendo para mim na cama, vá puta que te pariu” pensava Leandro, furioso, enquanto tirava o carro do estacionamento do motel. Deixou Fernanda na porta de casa, e durante todo o percurso o silêncio entre os dois foi o único diálogo. Mais uma vez as palavras de Fernanda surgiam efeito. “Confio no teu amor”. Essa frase não saia da sua cabeça. Até que seu celular toca:

- Alô
- Oi, Leandro, é a Rita.
- O que tu queres, Rita? Já falei que não era pra me procurar mais. Qual o seu problema?
- Leandro, nós precisamos conversar.
- Do que está falando? Nós já terminamos, Rita. Não temos mais nada um com outro.
- Leandro, tu não ta entendendo, é um assunto muito sério.
- Assunto sério? Ou seria uma desculpa pra me ligar?
- Leandro, eu estou com AIDS.

A notícia cai como uma bomba em sua cabeça. Agora sim que as palavras de Fernanda voltavam a todo o momento. “Confio no teu amor”. Leandro desligou o telefone no mesmo instante. Não podia ser verdade. Ele, com AIDS. Nunca se cuidou na vida, apesar de também nunca ter lhe faltado nada.

Fernanda chega em casa e vê a mãe tossindo muito, fica atônita observando o estado de saúde dela.

- Mãe, a senhora está bem?
- Fernanda, minha filha, a mãe está muito doente, minha filha. Muito doente, mesmo.
- Do que a senhora está falando?
- Às vezes eu acho que tenho pouco tempo de vida, sabe minha filha...
- Que horror! Vira essa boca pra lá! Onde está o pai?
- Está descansando no quarto, logo, logo, anoitece e ele precisa trabalhar. Ah, a tua amiga, como é mesmo o nome dela....
- A Letícia?
- É, ela mesma.
- O que tem?
- Ela te ligou, estava preocupada contigo, minha filha.
- Comigo?
- É, ela disse que teve outra visão, sempre achei essa guria muito estranha.
- Mãe, tu sabe que ela é médium.
- É, mas pelo tom da voz dela, a visão era grave, e sobre ti.

Leandro entra no quarto de sua mãe, interrompe a leitura, ela sempre foi viciada em livros.

- Mãe, tu sabe que eu te amo, não é?
- O meu filho! Claro que sei, eu também te amo muito. Mas o que aconteceu?
- Nada, não, mãe. Só precisava me certificar disso. Onde está meu pai?
- No trabalho, só vai chegar mais tarde.
- Ta bom, depois eu converso com ele.
- Está tudo bem mesmo, meu filho?
- Claro, não se preocupa, minha velha. Eu estou bem sim.

Sentimento de mãe, nunca falha, notou que Leandro estava aflito, mas achou que ele fosse se abrir com o pai dele, mais tarde. Voltou a ler.

Fernanda liga para Letícia, guindo de curiosidade.

- Alô, Letícia? Minha mãe disse que tu ligou.
- Sim, liguei sim.
- O que houve?
- Fernanda, tu vai sair com o Leandro amanhã, não vai?
- Em principio sim, brigamos hoje, mas acho que vamos.
- O que aconteceu?
- Ah, briga boba.
- Fernanda, não vá.
- Por que, amiga? Às vezes tu me assustas, sabia?
- Fernanda, é sério. Tive uma visão muito estranha.
- Ai, Lê, tu e as tuas visões!
- Só não quero que tu te machuques.
- Amiga, eu te amo, sei que tu se preocupa comigo, mas deixa que eu sei me cuidar está bem? Beijo, Lê, amanhã nos falamos.
- Fé, espere....
Desliga o telefone na cara da amiga, estava esperando a ligação do namorado. E não deu outra, um segundo depois, Leandro liga.

- Fala, amor. – Diz Fernanda.
- Oi, me desculpe por hoje, ok?
- Tudo bem, desde que tu prometas que a partir de agora nós vamos começar a se prevenir.

“Confio no teu amor” aquela frase martelava os pensamentos de Leandro. Ele responde:

- Tudo bem, eu prometo. Mas escuta, tudo certo para amanhã? Combinei com o meu vô de irmos à chácara dele, ta lembrada?
- Claro que sim! Que horas tu vem me buscar?
- Lá pelas oito, temos que sair cedo daqui.
- Tudo bem, eu te espero então.
- Ta, então até amanhã.
- Está tudo bem contigo?
- Sim, por quê?
- To te achando meio estranho, tua voz parece diferente.
- Bobagem tua. Vemos-nos amanhã, ok? Beijo. Te amo muito.
- Eu também te amo muito, e pra sempre.

Era linda a conversa dos dois por telefone. Na manhã seguinte Fernanda estava pronta, até ouvir as tossidas da mãe.

- Mãe, o Leandro chegou, to indo ta? Te cuida, minha mãe.
- Tu também, minha filha. Outra coisa, a mãe te ama muito, viu?
- Também te amo mãe. Beijo, até.
- Vai com Deus, minha filha....

Ambos entram no carro, e Leandro arranca numa velocidade alta.

- Que isso, amor? Por que está indo tão ligeiro?

A vida não fazia mais sentido para ele, e naquela altura do campeonato, imaginava que para Fernanda também não.

- Não aconteceu nada, só estou com pressa.
- Não, tu estás estranho, o que aconteceu?

120 Km/h

- Já disse não houve nada!
- Então porque está tão rápido? Tu está me assustando!
- Te assustando é? Então imagina viver sabendo que não é por muito tempo!
- Do que está falando, Leandro! Está me deixando nervosa! Diminua a velocidade!

160 Km/h

Ambos começam a pensar na família, nos pais, pensamentos muito rápidos em meio a gritos.

180 Km/h

Leandro não responde mais nada com nada, só pensa na família, e acelera cada vez mais o carro.

200 Km/h

O carro desliza, Fernanda grita, e Leandro continua acelerando.

220 Km/h

- Eu sempre vou te amar.

Nesse momento ele, por impulso, decide se matar sozinho, rapidamente a joga para fora do carro, e se arrebenta contra um muro de proteção da pista contrária.


O médico vem na direção de Fernanda e diz o que ela ainda não sabia. Com muita calma, ele fala que fez alguns exames por prevenção e detectou que ela tinha HIV positivo. Desde então Fernanda vive a base de remédios, sem a mãe por causa do cigarro, e sem Leandro por causa da negligência com a AIDS. Ela que também foi vítima, agora vive com um vírus que a cada minuto se alastra para mais uma pessoa no mundo inteiro. Fernanda nunca teve dinheiro e continua não tendo. Sofre preconceitos, e carregará por um bom tempo na memória a perda da mãe e do namorado. Sem contar no seu pai, o vigilante que passará o pouco tempo de vida que lhe resta superando a morte da esposa, e convivendo com a filha aidética. É, e tem pessoas que acham o mundo justo. Mas vai saber, talvez até seja.

quarta-feira, 1 de agosto de 2007

Aprendi


Aos poucos que vou vivendo sinto um absurdo dentro de mim, como se nada importasse, e ao mesmo tempo, tudo importasse.
Aprendi que quase ninguém se importa com o que você considera mais importante. Também aprendi a sentir os meus sentimentos sem precisar mentir para as pessoas que amo. Às vezes sinto-me um monstro indefeso capaz de engolir chamas cada vez mais quentes de medo. Não porque eu quero, mas porque acho que sou capaz de fragilizar o constrangimento do fogo meticuloso. Sofri injúrias, injustiças, desavenças, mas ainda vivo. Sem entender muito bem o porquê exato disso. Apenas sigo minha linha de raciocínio. E acho que é isso, linha de raciocino, que me leva aos erros enigmáticos. Tento entender um mundo de uma vez só. Como se fosse num único copo de água. Como se o mundo fosse um mero copo usado de suporte ao líquido que almejamos ingerir rotineiramente. No paradigma real, esse líquido é conhecido como seres humanos.

Aprendi que com o tempo, nós seres humanos somos engolidos pelas nossas bestialidades. E são muitas. Não encontramos uma resposta exata para aquilo que procuramos, porque de fato, nunca indagamos a pergunta certa para encontrar tal resposta. Não quero criar a ilusão de ter uma fórmula para a vida. Até porque a fórmula existe, está na mão de cada um de nós. No entanto, essa fórmula que me refiro, poucos, muito poucos sabem enxerga-la. Costuma-mos fechar as pálpebras para situações em que pensamos não conseguir resolver. Essas situações não são resolvidas porque apenas pensamos. O ato de pensar destrói o ser humano. Poderíamos viver com o ato de sentir. Você poderia sentir qualquer energia relacionada ou não a você. E com o evoluir dos dias, descobriríamos que estaríamos pensando através de nossos sentidos, e não das razões que achamos ter.

Com evoluir das noites, também aprenderíamos a olhar mais para as estrelas. Não como astros, e sim como um alvo intenso luminoso que, sem sombra de dúvidas, reduz a nossa essência em uma mera raça. Sempre frisei de que há o tempo certo para os momentos errados. E sempre há o tempo errado para os momentos certos. Nota-se que com o avanço da idade vemos um cálculo procedente de uma ciência inexata. A Matemática não rege a vida, a química não explica nosso estado de espírito, e a biologia não revela a nossa origem. O português até pode tentar corrigir os erros de regência cometidos na juventude, mas uma vez apagado tal escrita, a letra nunca será a mesma. É, e eu que sempre acreditei na geografia das minhas decisões, e na história de meus dias...

Com o tempo reparei que meu olhar não acompanha mais minhas vistas. E o motivo pelo qual não me considero vesgo, é porque consigo observar o que sempre esteve ao meu lado. A morte dorme e acorda comigo. Vivo com ela. Sei que em qualquer instante ela pode me tocar. Para alguns parece loucura. Mas a raça humana sempre lutou contra morte, como algo maléfico. Lutamos a vida toda contra quem nunca saiu do nosso lado. Chega ser ridículo, mas somos assim. Temos medo de quem sempre nos acompanhou. Se soubéssemos viver com a morte, por mais que seja contraditório, viveríamos muito melhor. Porém, nós humanos, infelizmente não sabemos superar nossas dores como deveríamos.

Agora, sinto que tudo que realizei pelas pessoas que não conheço, fez enorme diferença nas minhas reações perante aqueles que me humilhavam. O preconceito, nada mais é do que um pré-conceito refletido sobre quem você pensa ser. Pessoas preconceituosas são pessoas mal resolvidas. Pessoas mentirosas são aquelas que tentam ser sinceras. E as pessoas sinceras um dia serão mentirosas. Os nossos valores todos estão perdidos, vagando pelo ar que respiramos. Na realidade não temos mais valores. Temos um projeto do que consideramos importante para nós.

Depois de refletir pouco, aprendi que a nossa importância se resume no que temos. Tanto material como abstrato. Depois de refletir muito, aprendi que o que temos se resume nos nossos valores. Vejo que aprendi tudo errado, de novo.

quinta-feira, 19 de julho de 2007

Mude o seu mundo


É engraçado viver num país como o Brasil. Tudo sempre está sobre controle. Ou sempre estão trabalhando no caso. Ou melhor, ainda: A justiça será feita. Essa última acho que nunca se realizou. Alias, não vou ser nacionalista a ponto de dizer que o Brasil tem inúmeros defeitos de governância política. Sempre teve. Mas paises de primeiro mundo também têm problemas gravíssimos. A diferença é que nos paises de primeiro mundo crianças não são arrastadas por seis quilômetros até a morte, índios não são queimados, bandidos não planejam crimes de dentro das prisões, domésticas não apanham na espera de sua condução, e dificilmente, aviões voam com defeitos mecânicos arriscado centenas de passageiros. Mas afinal de contas, aqui é o país do carnaval, somos pentacampeões de futebol, temos mulheres de maiores bundas do mundo. Aqui pode tudo. Roubar é de praxe, quase clichê. Há tantos tipos de roubos e corrupções que não vou perder linhas sintando-os. Nunca vi um país ter tantos partidos políticos. E nenhum faz nada. É de esquerda, de direita, centro esquerda, democrata, tem partido que até apolítico é. Cada um quer resolver da sua maneira. Leis que vigoram sem necessidade, enquanto casos que precisam de leis nem ao menos são pautados. Vale até pagar pensão com dinheiro público. Somos cobrados por dias e noites com uma taxa que se chama “carga tributária”. Pagamos pelo ar que respiramos, e na hora de fazer uma viagem com um dos meios de transporte mais seguros do planeta morremos? Onde está a segurança? Durante dez meses presenciamos o interminável e lamentável “caos aéreo”, onde controladores reivindicavam salários, autoridades puniam seus próprios funcionários, e a sociedade dormia nos bancos de espera do aeroporto. Quando isso tudo vai acabar? Ou ainda, será que isso vai acabar? Estamos na beira de um abismo, prestes a cair sem saber onde. Sei que meu protesto escrito não vai resolver em nada. Sou apenas mais um revoltado com a situação pela qual me encontro. Não quero mais falar sobre isso. Tudo que eu queria era deitar na minha cama com a consciência limpa e feliz de que ao amanhecer não leria nos jornais noticias citando desvio de dinheiro público, bandidos à solta, sentenças suspensas, homicídios de tudo quanto é grau, e nada, nada sendo feito. Todo mundo de braços cruzados, reclamando como estou fazendo agora. Falta é atitude e cobrança. De que adianta a mídia divulgar e difundir manchetes de várias editorias se serão propaladas sem êxito de mudança?

O salário mínimo, é verdade, subiu bastante, mas é muito difícil sobreviver com apenas um dele. Há gente que faz milagre, sobrevivendo com o que é considerado normal pela taxa de cambio. Enquanto isso, os nossos parlamentares aumentam seus salários na porcentagem que bem entenderem. Mesmo assim, taxistas podem ser assassinados em horário de trabalho para sustentar a família, e passageiros de ônibus podem voltar sem o dinheiro da janta para casa. Não esqueça que o gabinete do seu senador gasta mais de 15 mil reais por mês em “despesas”. Qual é o valor do dinheiro para a política? Há algum valor com o qual se preocupem? Somente com o salário próprio. Já passou da hora da mudança, estamos na era da conseqüência. Nosso planeta esta sendo destruído e ninguém está nem aí para isso. Há pessoas tomando banho de 15 minutos, lavando calçadas todo dia, rodando de carro para percorrer distâncias que não chega há um quilômetro. Estou sendo muito radical? Então tire a prova viva. O que você faz para mudar o mundo em que vive? Pense, mas pense bem, não vale ajudar idoso a atravessar a rua, juntar lixo do chão ou reciclar garrafas. Pense em algo maior. De grandeza suficiente que se torne visível a mudança. Pensou? O máximo que chegaremos é ajudar um parente próximo, ou mesmo distante. Talvez um amigo. Contudo, quando caminhamos pelas avenidas e avistamos um mendigo nós o ignoramos. Gastamos mais de cem reais em uma festa. Compramos um carro financeiramente milenar e moramos bem. Quando digo bem, me refiro que temos um colchão e um travesseiro para dormir e uma geladeira que é aberta para se pensar no que se vai comer.

Acho que falta um pouco mais de alerta para nós. Aos jovens, que amadureçam mais rápido, não vão ser sustentados pelos pais a vida toda. Aos amadurecidos, que tomem uma iniciativa que os satisfazem ideologicamente. Ninguém precisa viver no conformismo, ou até mesmo na mentira para si mesmo de que se tem esperança. Se a esperança é a última que morre, a minha já está no seu estágio final. Não me venham dizer que estou sendo pessimista. Ora, seria o pessimismo um sinônimo do realismo? Há 2.500 anos o filosofo e matemático grego Pitágoras já dizia: “Educai as crianças de hoje, para não punir os homens de amanhã.” A Educação que Pitágoras se referia é a de boa índole, respeito a si próprio e ética moral. O que mostra que a situação atual é mais antiga do que imaginavamos. E ainda ratifica sem sansão das circunstâncias, o “frouxismo” do povo desde a idade antiga até a moderna. Agora se nada disso fizer sentido para você, ao menos plante uma árvore.

quinta-feira, 12 de julho de 2007

Dèjá-vu


- Será que tu poderias me alcançar as compras?
- Tome.
- Obrigado.

Pegou as compras do supermercado que a esposa o alcançara, guarda no armário bordô que lhe custou uma nota. Quando olha para aquele armário ele sempre lembra da expressão de safada que sua mulher faz assim como deseja algo de muito valor. Ela levanta o lábio superior e passa a língua bem de leve no canto esquerdo da boca. Isso é golpe baixo para ele. Se rende, e acaba realizando os pedidos da esposa. Lembra-se disso a todo o momento. “Já faz três meses que não fazemos sexo, ela só pode está me traindo” pensa. Olha para o relógio, marca duas e vinte e um da tarde. Agora olha através da janela de vidro fumê, que foi mais um dos pedidos de sua mulher, e vê um homem alto com um chapéu e um charuto. O homem passa caminhando bem devagar. Achou aquele homem suspeito, como se já tivesse visto o mesmo com o tal chapéu e charuto. Estranho. Resolve se deitar e descansar um pouco, só para repor as energias. Quando suas pálpebras fecham, ele começa a ter um sonho estranho.

Acorda. Olha a hora, duas e vinte e um da tarde. Não pode ser. Só o trajeto da janela até a poltrona demoraria um minuto, esse relógio deve estar com defeito. (O relógio não foi um dos pedidos da esposa). Ele levanta para conferir a hora em outro medidor quando vê através da mesma janela, novamente, o tal homem com chapéu e charuto. Virou-se para o relógio, os números confirmavam: Duas e vinte e um. Era como se ele tivesse parado o contínuo espaço temporal. O homem passava lentamente através do vidro fumê. Ele Fica nervoso. Não sabia o que estava acontecendo até ouvir os gritos da mulher:

- Querido, atende o telefone!

Ele agora acorda consciente de quê sonhou que teve um sonho. Meio atônito atende o telefone:

- Alô.
Cai a ligação.

Olhou para o relógio: Duas e vinte e cinco. Era muita informação para o seu cérebro em pouco tempo. Em quatro minutos ele sonhara que teve um sonho, ouviu os gritos da esposa, e atendeu um telefonema que caiu. Mas o que isso? “Devo estar ficando louco” pensa. Resolve subir até o andar superior da casa para ver se Clara, sua esposa, já saíra do banho. Sobe os últimos degraus, não ouve barulho de água, abre a porta do banheiro: Nada. O Box seco. Olha em volta, a casa estava vazia. Entra em pânico, chama pela sua esposa:

- Clara?
Grita:
- Clara! Clara! Onde tu estás?

Seus gritos se espalham nos corredores, um eco estridente. Em ojeriza súbita, desce os degraus correndo, tropeça, bate a cabeça no chão e desmaia por pouco tempo.

Três meses antes:
Clara chega em casa com as compras do supermercado, acompanhada de Antônio. Ele olha para o chão e vê uma marca de sangue:
- Querida, tem sangue ali.
- Sangue?
- Sim, ali perto da escada.
- Ué, o que pode ter sido? (Agacha-se e passa o dedo no local do sangue) - Mas faz tempo, Antônio, já até secou.
- Deixe isso que depois eu limpo.
- Tudo Bem.
- Será que tu poderias me alcançar as compras?
- Tome.
- Obrigado.

Pegou as compras do supermercado que a esposa o alcançara, guarda no armário bordô que lhe custou uma nota. Quando olha para aquele armário ele sempre lembra da expressão de safada que sua mulher faz assim como deseja algo de muito valor. Ela levanta o lábio superior e passa a língua bem de leve no canto esquerdo da boca. Isso é golpe baixo para ele. Se rende, e acaba realizando os pedidos da esposa. Lembra-se disso a todo momento. “Já faz três meses que não fazemos sexo, ela só pode está me traindo” pensa. Olha para o relógio, marca duas e vinte e um da tarde. Agora olha através da janela de vidro fumê, que foi mais um dos pedidos de sua mulher, e vê um homem alto com um chapéu e um charuto. O homem passa caminhando bem devagar. Achou aquele homem suspeito, como se já tivesse visto o mesmo com o tal chapéu e charuto. Estranho. Resolve se deitar e descansar um pouco, só para repor as energias.

terça-feira, 10 de julho de 2007

Perda de peso


Estava aqui pensando. Já vai fazer um ano que estou de regime. É, um ano. Já faz um ano que estou mentindo para mim mesmo dizendo que quero emagrecer. Um ano que levanto pela manhã pensando: “Hoje eu juro que não vou comer muito”. Nesse tempo todo, até dei umas corridas no calçadão, andei de bicicleta excessivamente, mas não conseguia enxergar resultados satisfatórios. Isto é, olhava para minha barriga e via aquela volúpia, de certo modo aquilo não me agradava. Tudo bem, eu nunca, de fato, fui gordo. O máximo que tive foi uns pneuzinhos bem de leve e nada significante. No entanto, esses meros pneuzinhos já me perturbavam. Era eu tirar a roupa na frente do espelho e pronto; eu já começava a fazer movimentos corcundas para enxergar algum defeito na região abdominal. Abdominal? Hum....

Pois é, passara alguns meses, e todo dia de manhã eu comecei a fazer cinco séries de 25. Pelas minhas contas, isso dava 125 abdominais por dia, mais 20 apoios. Credo, eu era um soldado em treinamento. Contudo, de nada adiantava. No café da manhã era cuca, mais torradas, uma fruta acompanhado de um copo de iogurte, dependendo do dia até suco de tangerina ou laranja. Um bom café da manhã, bem reforçado. Ao meio dia até que eu não comia tanto. Eu me excedia no intervalo do café para o almoço, sempre rolava um sanduíche. Depois do almoço, a tarde não conseguia me conter, comia uma fruta, e mais um copo de iogurte ou suco. E a noite eu não tinha muito apetite. O que explicaria a minha fome pela manhã.

Até eu perceber que tudo isso era bobagem. Quando saia às festas com meus amigos, nunca fui chamado de gordo, algumas garotas me achavam bonito e para mim isso era uma mentira deslavada. “Ela não enxerga minha gordura?” Como se gordo fosse sinônimo de feio. Eu realmente estava fixado no meu abdômen. Percebi que minha estética não se refletia de péssima aparência, portanto, eu não precisava ficar naquela loucura de emagrecer.

Não sei como fui me perder nesse pecado capital. Hoje eu sei que sou magro, posso até ter alguns pequenos pneuzinhos, mas nem reparo mais nisso. Aprendi a valorizar meu corpo de uma outra forma. E talvez eu saiba como deve ser gordo, apesar de nunca ter sido um, durante um ano inteiro eu me senti um verdadeiro obeso. Era tudo psicológico. E o segredo está na auto-estima. Nesse semestre, passado, tive um colega gordo, mas ele é boa pinta, tem uma aparência ótima, tem namorada e é feliz. E daí que ele é gordo? As pessoas se acham feias pelo que sentem ser. Isso é um erro. Nós até podemos emagrecer para satisfazer nossos objetivos, mas nunca devemos tornar isso uma obsessão.

Tenho um irmão que é gordo, tenho amigos, conhecidos, colegas gordos, e a grande maioria são felizes. Quiçá sabem que podem emagrecer, e até tornarem-se mais saudáveis, mas são felizes. Enquanto muitos magros e magras ficam achando defeitos onde não existe, fazendo plástica, lipoaspiração, que muitas vezes não dá resultados eficazes, pessoas com mais alguns quilinhos estão mandando ver na vida. E não se sabe se um dia eles ainda serão gordos, quem sabe essas pessoas emagreçam, enquanto outras se martirizam por ver gorduras onde nunca surgiram.

Hoje pela manhã quando perguntei para minha mãe o que teria de almoço, ela me respondeu da seguinte maneira:

- Lasanha, Luan. Mas quero que tu comas, tenho notado que tu não tem te alimentado direito no almoço, estás ficando magro.

Veja só, não é que o gordo emagreceu? São os extremos.

terça-feira, 3 de julho de 2007

A Cruz que mexe


No início sempre fora besta. Besta de doer. Não levantava antes de o despertador tocar. Teve uma noite que ele esperou três horas pelo barulho do relógio. Se tinha insônia não levantava um só pé. Era assim com tudo e todos. Não passava roupas porque iria amaçá-las novamente. Não lavava a louça, usava pratos descartáveis. Suas roupas eram doadas a cada semana. “Essa calça já está ficando suja, vou botar fora” dizia ele. Calça que ele comprara mês passado. Mas apesar de tudo era feliz. Solteiro, rico, porco, preguiço, mas feliz. Ninguém ao certo sabia a história daquele homem. Dona Lucinda, do armazém da esquina, sempre suspeitou de que ele fosse um traficante. Não trabalhava e vivia comprando roupas, homem mais estranho não existia. Ele não pagava imposto. Seu IPTU estava atrasado há anos, e nunca, nunca o tiraram a casa. “Não dou dinheiro para bandidos, não pago um só centavo para esses pilantras”, Frisava. De certo ponto tinha razão. Imposto, carga tributária, tudo isso é um absurdo. Ainda mais para ele, apolítico, ateu, que tinha mil teorias sobre a origem da vida.

Certa vez foi ao cemitério, gostava do coveiro, para quem não tinha nada para fazer bater um papo com o coveiro era diversão na certa. Discutiam sobre os túmulos, que falta de respeito com os mortos, túmulos aos pedaços, quase não se enxergava mais o nome e a data de vivência do defunto.

- Aquele ali é meu preferido. - Disse Ramalho, o coveiro amigo.
- Não gosto daquele, a tinta é de péssimo gosto. Prefiro o terceiro da esquerda para direita com a cruz metálica, belo gosto, bem cuidado.
- Bem, aquele túmulo tem uma história bem interessante.
- E está esperando o quê para contar-me?
- Bom, numa noite dessas vi a cruz se mexer.
- Cruz se mexe? Estou realmente desatualizado.
- Pela lógica real não deveria se mexer, mas o fato foi que as três da madruga, juro por tudo que é mais sagrado que vi aquela cruz se mexer.
- Três da madrugada?
- Três da madrugada.
- Cruz se mexendo?
- Sim, ela mexeu.
- Quem jaz ali?
- Um antigo agricultor, seu filho, porém, é rico, dono de uma multinacional de calçados. Fez questão de deixar o pai bem acomodado.
- Nota-se.
- Até hoje não entendo.
- O quê?
- Aquela cruz, tenha algo muito suspeito.
- Por que tu não a arrancas fora?
- Como é?
- Você é o coveiro, toma coragem, arranque a cruz.
- Não posso fazer isso, é meu dever deixar os túmulos como estão.
- Bom, então não reclame se ela se mexer, é o direito que ela tem.
- Mas por Deus, Homen! Cruz não se mexe! Tu achas isso normal?
- Não creio em Deus, e se a cruz se mexe é porque deve ter algum motivo.
- Você pode não crer em Deus, mas ele crê em você.
- Se ele Crê em mim não teria feito o que fez comigo.
- Mas o que ele fez com você?

Ele olha para o relógio percebe que já era tarde, resolve cortar o papo e sair:

- Ramalho, preciso ir, já está tarde.
- Tudo bem, nos vemos por aí.
- Sem dúvida, um abraço.
- Outro.

Saiu sem muita cerimônia, era bastante direto. O coveiro, no entanto, ficou absorto tentando decifrar o que Deus fez ao homem que não tem fé. Esse, voltava para casa lentamente, passou pelo armazém de D. Lucinda que o secou com olhar devorador. “Homem estranho, homem estranho”. Repetia, sempre que o via passando. Ele entrou em casa atirou o casaco na poltrona, ajoelhou-se em frente à televisão e chorou. Começou a chorar como criança, lágrimas corriam em seu rosto sem intervalos. Levantou-se, despiu-se todo, tirou primeiro a calça, depois a cueca, por último a camisa. Jogou tudo no tapete vermelho (odiava azul). Agora ele estava nu, pelado na sala em frente a TV. Calmamente, ele coloca suas mãos nas laterais do televisor, começa então uma crise histérica, bate a cabeça contra o aparelho com uma força desconhecida, bate-se cada vez mais forte, violência pura, sangue espirrando, e ele não parava como se não sentisse dor.

Até que parou.

Foi até a cozinha, com o sangue espirrando no carpete, abriu a gaveta sem trinco, pegou uma faca, e de maneira brutal, rasgou o seu rosto desenhando uma cruz. Incrivelmente não sentia dor. Caminhando ensangüentado, deita-se no chão e ali adormece.

Cinco e meia da manhã, ele acorda. O despertador ainda não tocou, faltavam quinze minutos. Dessa vez ele resolve se levantar, e pensa:

- Coveiro? D. Lucinda? Cruz que se mexe? Que sonho mais estranho.

quinta-feira, 28 de junho de 2007

Estranha realidade


Disseram-me que eu nasci da barriga da minha mãe. Fala sério! Que absurdo. Onde já se viu, eu, nascer de uma barriga. O que me deixou mais eloqüente foi o fato de continuarem mentindo. Já não bastava afirmar que eu vim de uma barriga, ousaram ratificar que antes, muito antes, eu era um tal de espermatozóide! Que diabos é isso? Espermatozóide? Prefiro acreditar em metáforas. Elas são mais sutis, e dizem a verdade de uma forma obscura e venenosa. O veneno está na maneira de como acreditamos viver. De como acreditamos que realmente fomos um espermatozóide. Por que não posso ter uma crença só minha. Há tantas religiões no mundo, e há tantas guerras no mundo. Não que as guerras sejam fruto da religião, mas prefiro acreditar no meu Deus, sem depender de histórias divinas. Gosto de ser independente na medida do possível. Sendo assim, por que eu teria que acreditar que já fui um esperma. Será que dá para entender a situação? Estou falando de espermas, aquelas coisas brancas, gosmentas...É difícil para mim, sabe. Acreditar que um dia eu fui aquilo.

Por que acreditar na ciência? Pelo mesmo motivo que acreditamos na religião? Ora, isso não é justificativa. Prefiro acreditar que eu era um caroço então. Isso mesmo, um caroço. Amadureci, cresci e nasci. Afinal, não é assim que rege a vida? Aliás, o que é vida? Cada um vive de uma forma tão diferente da outra que por vezes fico perdido. O que é certo? O que é errado? É normal matar? É normal roubar milhões de cofres públicos? É bonito espancar domésticas nas paradas de ônibus? Deve ser. Pois tudo isso acontece, e ninguém dá bola. É tudo uma estranha realidade. Dizem que vão mudar a situação social do país, vão fazer a economia crescer, gerar mais empregos e a educação, ah, essa vai ser invejável! Só se for pela taxa de analfabetismo.

Mas por que acreditar em tudo isso? Posso fazer da realidade uma ficção. As pessoas brincam de viver, portanto é justo que eu brinque do meu jeito. Não é justo? Ou melhor, o que é justo? A Paris Hilton sair da prisão, desfilando, após três semanas, por bom comportamento? Que mundinho medíocre! Prefiro acreditar que não sou humano. Vou brincar de viver, brincar, apenas me divertir. Imagine só, eu um espermatozóide quê saiu de uma barriga, depois cresce e como ser humano comete tantas desavenças sociais. Jura! Eu não!

Acho que vim de outro planeta, porque é assim que me sinto. Um extraterrestre vendo todo mundo se matar. Ninguém ta aí para nada. Estão todos apenas cumprindo seus papeis. Então não estão cumprindo direito. Saio à noite e vejo tanta hipocrisia, cegueiras da juventude! São as piores! Garotas que não se dão o valor, não têm objetivos. Garotos que fumam maconha, bebem, e usam roupas largas porque está na moda e para “pegar” as gurias. Que planeta é esse? Isso tudo é uma mediocridade! Não há mais educação, falta senso, semancol, está tudo errado.

Entro em desespero e acabo escrevendo um texto para relaxar. Mas nem sempre entendem o que eu escrevo, porque meu ponto de vista é apenas o meu ponto de vista. “E daí que ele pensa assim?” Cada um vive uma ideologia, cada um teve experiências distintas ou parecidas, mas nunca iguais. Mesmo assim, isso não serve de resposta para tudo que meus olhos não vêem, mas meu coração sente.

Estranha realidade. Prefiro mesmo acreditar que não fui um espermatozóide. Como se isso tirasse da minha consciência tudo que passei. Talvez eu esteja me igualando a todos: Fechando os olhos para o que nos obriga abri-los.

quinta-feira, 14 de junho de 2007

Auto-descrição

Confesso que sou estressado. Mas me irrito por coisas pequenas. Quando o problema é grande sou sempre o único a estar tranqüilo e calmo. Alguns me acham louco pelo meu estilo extrovertido e espaçoso. Eu concordo. Sou espaçoso mesmo. Gosto de me sentir em casa, literalmente; quando essa, não for a que eu moro. Às vezes espanto-me com a minha capacidade de conhecer pessoas num piscar de olhos. Sou cara de pau, mexo com o povo nas ruas, chamo atenção, grito, impossível não perceber quando estou chegando. Salvo raras ocasiões. Também sou pacífico e tímido, mas isso depende muito do momento. Levo meu emprego (quando o tenho) a sério quando tenho prazer em realizá-lo. Isto é, amar o que exerço, ou o que irei exercer. Entrego meus trabalhos nos prazos, mesmo que não estejam bons. Procuro ser bastante pontual e detesto que me deixem esperando. Sou organizado, arrumo minha cama todas às manhãs e guardo meu pijama na gaveta certa. CD’s em ordem, livros lidos numa pilha, livros para ler em outra pilha. Tudo é assim. Acredito que se saber colocar ordem em pequenas coisas, saberá colocar ordem em sua vida. Há situações que sou reclamão, chato e intolerável, pareço um velho de 86 anos. Mas também há momentos que sou totalmente simpático, querido e afável. Sei que não sou uma pessoa ruim, jamais faria mal alguém ou teria a intenção de magoar. Mas a influência, ou até mesmo a convivência com pessoas com baixa-estima e de coração maldoso me prejudica. Às vezes fico absorto, há momentos que sou engraçado. E um dos meus defeitos é deixar tudo para depois. Preocupo-me com minha saúde, faço exercícios físicos, mas não deixo de comer porcarias. Ouço os mais velhos, mas sei que nem sempre respeito eles como deveria. Ouço as mulheres e acho incrível o universo delas que muitos homens não tentam entender ou enxergar. Também detesto rotina, mesmo assim não deixo de alimentar alguns vícios que possuo. Mas que fique bem claro que não tenho cacoetes. Adoro dormir tarde e adoro acordar cedo, por isso que há dias que não resisto ao sono matinal. Não tenho grandes crenças, tenho fé no meu Deus sem depender de religiões. Como todo aquariano legítimo amo liberdade, mesmo sabendo que não posso ser livre o tempo todo. A liberdade em excesso pode me desviar do prumo. Trazer-me conseqüências das quais sempre evitei. Vejo que a cada dia que passa é como se meu período diminuísse para os tantos sonhos que quero realizar. Descubro novas paixões, mudo de opiniões, mas mantenho meus objetivos. Acho que isso é importante. Manter uma linha de ideais. Uma linha que você possa enxergar de longe e saber que um dia, você conhecerá o seu fim.

domingo, 10 de junho de 2007

Lágrimas de papel


Não quero lágrimas de papel, quero sentimentos verdadeiros, rótulos inteiros, premissas que sejam de origem dissidente.

Não quero lágrimas de papel, quero apenas a verdade, verdade aquela que você tanto ocultou de mim quando era viva. Mas isso não quer dizer que esteja morta. A única célula que padece em você vem do coração.

Não querer lágrimas de papel é não querer molhar folhas que significaram algo importante para nós. Lembrar de quão valorizado será o que você pensa. Lembrar o quanto você perdeu chorando por pessoas que também derramaram lágrimas de papel inteiras.

É engraçado viver. Você acorda com o seu plano rotineiro em mente, escova os dentes, e têm a esperança de mudar o mundo para melhor. É burrice. As lagrimas de papel rolam em vários rostos com objetivos diferenciados pela sua conduta de vida. Por isso que há tanta maldade no mundo. Por isso que há pessoas boas no mundo.

Não querer lágrimas de papel é bastante circunstancial. Há varias dessas lágrimas, umas se dissolvem mais rápido do que outras. Mas isso também não quer dizer que só por isso elas são mais fracas. O que é válido para os sentidos, reais e irreais, fictícios ou verdadeiros.

Confesso que me sinto perdido, chateado, magoado, mas não só comigo. Sinto-me inflado como se ninguém me entendesse. Por alguns segundos achei que você havia me entendido. Mera ilusão. A vida é uma ilusão. Algumas pessoas realmente acham que podem ser fortes o bastante para não sofrer. Ninguém nunca é forte o bastante. É difícil superar a morte do seu pai. A reprovação escolar para quem valoriza o estudo. O animal de estimação que cresceu junto com você durante anos e teve quer ser sacrificado. Achar-se forte é cegar-se para si mesmo.

Afinal de contas, algum sentido deve ter uma lágrima de papel. Geralmente elas substituem o que você considera mais importante. Justamente aí que aparece seu erro. Infelizmente não consigo expressar o tamanho desespero que sinto quando vejo jovens da minha idade sendo incoerentes. Às vezes acho que não pertenço a esse planeta. Tenho só dezenove anos, mas me comporto como um homem dez anos mais velho.

Também já chorei várias lágrimas de papel, mas as minhas não eram feitas de qualquer função ou produto capitalista. Talvez a grande diferença esteja nas suas decisões. Muitos buscam na filosofia as crenças em que não acreditam na religião. Crer, não crer, importa?

Muitos buscaram na história a solução paralela para os seus problemas. Ter formulas, teorias concretas, ou até mesmo comprovadas por fatos, nem sempre quer dizer que dará certo com aquela pessoa. O que pode dar errado para você, nunca será um erro para outro alguém.

O que você precisa agora é de vertigem. Pense no seu ideal. Não tem? Então faça como eu, chore lágrimas de papel. Só não encha em grandes quantidades baldes feitos de vidro. Esses baldes mostram a sua verdadeira face, a sua verdadeira essência e intenção perante sua índole. Por tanto...tome muito cuidado para não ser desmascarado no momento em que estiver mais vulnerável.

Caso contrário, você poderá ser o motivo de outras lágrimas de papel.

terça-feira, 15 de maio de 2007

Não machuque os meus pés



Calma. Não aperte tanto os meus pés. Eles também sentem dor. Viu? Falei-te. Chutei seu rosto? Ah, me desculpe. Não tive a intenção. Assim como tu não teve a intenção de me machucar quando me traiu com aquele analfabeto que só sabe beber e fumar. Não sou melhor que aquilo? Devo não ser. Eu não preciso de te, não preciso do teu falso amor nem do teu carinho singelo. Se forem todos da boca pra fora. Tu realmente não sabes dar valor a um homem. Só sabe e quer beijar na boca. Fazer festa. Beber dez litros de cerveja e fumar um maço de cigarros por dia. Talvez ele seja, de fato, seu par perfeito. O seu pé torto. A outra metade da laranja. A folha da sua árvore, enfim...Não quero mais saber noticias suas. É melhor que suma, desapareça. Não me ligue, não me peça flores, porque somente às dou para quem é digno de merecimento. Pra ti posso dar um aperto de mão. E isso já será de mais. O que? Estás chorando? Pare de drama, foste tu quem quis assim. Tu que me traíste com um mulherengo só porque ele tem mais músculos do que eu. Esta na hora de tu aprenderes que músculos não é significado de cultivos amorosos. No máximo terás uma aventura com aquele “Dom Juan”. Se tu soubesses me valorizar, tu entenderias que tudo que fiz por te não foi em vão. Os dias que eu acordava cedo para ti levar café na cama, os dias em que eu saía do trabalho mais cedo para dar tempo de comprar algo que iria agradar você. Tudo foi para o lixo. E a lixeira veio à tona quando tu me disseste que foste em um chá de panela (só para mulheres), e a encontrei semi-nua num banheiro sujo da boate mais mal freqüentada da cidade. Talvez tu não estejas madura o suficiente para mim. Saberei superar essa dor como superei tantas outras. Tu não foste a única que me decepcionaste. Não te preocupas. Chegará o dia em que tu também amadurecerás, e espero que quando esse dia chegar tu não se arrependa do que fizeste, porque acredite, esse sentimento dói muito. Quero que sejas feliz, e entenda que tudo que passamos juntos termina aqui, virando história para ser contada. É verdade, fomos felizes. Fomos. Agora já não mais. Talvez eu também tenha errado; se tu me traíste foste por que eu não soube expressar corretamente o que sinto. Será? O que não quero agora são desculpas. Entenda que até posso perdoar você, mas o perdão não é e nunca será sinônimo de retificação. Nos sentimentos o jogo é bastante sensível. Uma vez que tu te erras podes ser perdoado, mas teu erro dificilmente será corrigido com a mesma pessoa. Espero que possa corrigi-los com outro alguém com quem sejas realmente ditosa. Pode até ser com esse “Dom Juan” do qual eu disse anteriormente que seria apenas uma aventura. Mas quer saber? Mesmo assim tu tens um péssimo gosto. O que me deixou mais chateado foi o fato de tu só veres a beleza externa dos seres humanos. Quanta hipocrisia a sua. Quanta ignorância a sua. Vejamos juntos, outras possibilidades de seguirmos nossas vidas separadas. Boa sorte com o seu futuro, boa sorte com a sua vida. Antes de me despedir, queria saber o que em mim não lhe agradou? O quê? Foram minhas cutículas? Sempre as odiei. Foi meu cabelo? Foi meu jeito de ser? Saibas ou não, eu já sofri muito quando pequeno. Tive que enfrentar as minhas convulsões na infância a base de remédios diários. Enfrentei. Hoje não vivo a mercê de remédios, vivo a mercê das minhas decisões. Quando perdi meus pais biológicos aos cinco anos de idade, eu não sabia ao certo o que tinha acontecido. Hoje eu sei. E vivo minha vida tendo em vista no que de pior um ser julgado racional pode passar. “Graças” ao meu tratamento das convulsões não posso tomar bebidas alcoólicas, nem usar qualquer tipo de entorpecentes. E tu achas que isso me deixas melancólico? Muito pelo contrário, guria! Hoje eu posso ir numa festa dirigindo e voltar lúcido, e ainda o melhor: Lembrar-me do que eu fiz na noite anterior sem vomitar nada no chão, nem ter dor de cabeça ou qualquer outro mal estar. Sou uma pessoal saudável, vivo bem e sou feliz. Não estou privado de ter decepções como essa que tive contigo. Pois pessoas como você que não sabem dar valor ao que mais sagrado tem nas mãos, no mundo, nunca vai faltar. O diferente é que marca. E aliás, me desculpe por ter chutado seu rosto, mas tu apertaste muito forte meus pés, pode levantar-se, sua imploração não será o suficiente para recuperar um cristal quebrado em mil pedaços.