terça-feira, 24 de abril de 2007
Discutindo a relação
- Vou embora! – Disse ela.
- Vá. Mas não demore.
- Acho que não entendeu, vou embora da sua vida! Não aguento mais!
- Relaxa.
- Relaxar? Como vou relaxar! Tu és louco!
- Aham.
- Não aguento mais, sua calma, seu jeito de ser, seu bafo de álcool pela manhã, e suas cuecas sujas no chão do banheiro! Cansei, tá? Cansei!
- Tudo bem, vá embora.
- É assim, fácil? Não vai implorar para que eu fique?
- Não.
- Ótimo! Vou embora, mesmo! Já que não faço falta, depois não vá chorar me ligando de madrugada!
- Nunca ti liguei de madrugada.
- Como, não? E aquele dia em que estava bêbado?
- Não conta, eu estava bêbado.
- Tu és repugnante!
- Relaxa.
- Não vou relaxar! Já te disse que vou embora! Não vou relaxar! Entendeu?
- Sim. Mas relaxa.
- Arg! Vou matá-lo!
- Entra na fila.
- Tu sempre foste assim com todas?
- Sempre. E ainda estou vivo.
- Onde está minha mala?
- Na sua casa, tu nunca trouxe mala nenhuma pra cá.
- É verdade, facilitou, vou embora mais rápido.
- Já faz dez minutos que tu estás indo embora, meu amor.
- Está debochando, é? Achas que não vou embora?
- Acho.
- Pois bem! Então vou embora!
- vá.
- Nem vai se despedir?
- Estou lendo meu livro.
- Então seu livro é mais importante do que eu?
- No momento, sim, você está indo embora.
- Como é que é? Isso é um absurdo!
- Relaxa.
- Mas que droga! Chega com esse “relaxa”! Eu não vou relaxar enquanto estiver aqui com você!
- Tudo bem, vá embora.
- Como é? Quer que eu vá embora? Pois agora que eu não vou! Irei contrariá-lo! Não vou mais embora!
- Como se isso fosse novidade. E tu ainda querias que parasse de ler meu livro.
- Largue esse livro e me beije!
- Pensa que manda.
- Me beije!
- Relaxa. Até pouco tempo você estava indo embora, agora quer que eu a beije.
- Tudo bem, vou relaxar, vou beijar outro.
- Com se não beijasse.
- O quê?! Você acha que eu lhe traí?
- Não. Tenho certeza.
- Eu nunca lhe traí!
- Como, não? E aquele homem da noite em que estava bêbada.
- Não conta, eu estava bêbada!
- Bom, então você me entende.
- O quê? Que tu não me ligou de madrugada porque estava bêbado?
- Não, que eu já te traí.
- Tu me traíste?!
- Sim.
- Ó, não acredito! Seu cachorro! Homem é tudo igual, mesmo!
- Não sei por que vocês escolhem tanto, se homem é tudo igual.
- Vou embora!
- De novo?
- Mas agora eu vou!
- Relaxa.
Se tu me disseres mais uma vez pra relaxar eu juro que lhe dou um soco!
- Nossa, quanta violência, o que acontece com aquele beijo?
- Enfia na tua bunda.
- Relaxa.
- Tens razão, vou relaxar, mesmo, agora que estou indo embora.
- Demorou.
- Como é? Não ouvi!
- Limpa os ouvidos.
- Tu está me chamando de surda?
- Não, de porca.
- Porca? Bem eu que sou porca! E as suas cuecas cagadas no banheiro? Aquilo não é porquice?
- Pelo menos eu não deixo as minhas calcinhas na pia.
- Eu nunca deixei calcinha na pia do banheiro!
- Mas deixou na da cozinha.
- Muito menos na da cozinha!
- Relaxa.
- Eu vou embora! Agora chega!
- Tá.
- Tá? Só isso? Um simples “tá”?
- O que tu querias que eu fizesse?
- Que tu agisses como homem, e me impedisse de ir embora!
- Por que eu faria isso?
- Por que você me ama!
- Amava.
- Você não me ama? É isso? Acabou tudo entre nós?
- Exato.
- Não acredito que você terminou comigo! Como pôde? Eu não vivo sem você!
- Então não devias ir embora.
- Mas eu não vou, só queria que você demonstrasse algum carinho por min!
- Ah, porque não falou antes, era só isso?
- sim.
- Então vá embora.
- O quê?
- Estou brincando, me beije.
- Sim, ó amor, eu te amo tanto.
- Eu também te amo, minha linda.
sexta-feira, 20 de abril de 2007
Eis o e-mail que recebo:
PS: Se publicar esse texto em um dos seus sites, por favor não revele meu e-mail.
Aguardo seu retorno!
Abração do fã Diogo Fuentes.
Carta de decepção amorosa:
“Cansei. Não vou mais perder meu tempo fazendo você enxergar o inevitável. Para falar a verdade não sei o que você viu naquele pobre coitado. Pois é isso mesmo, não existe outra definição para aquela criatura senão pobre coitado. Com aquelas calças limpa-chão, largas, arrastando no meio da rua, o fundilho lá em baixo. Mas, não, você acha bonito. Você também deve achar bonita a camiseta dele, com o número três vezes maior do tamanho que ele deveria usar. Claro, não posso esquecer do boné virado para o lado. O linguajar também é importante. Gírias enfáticas como “mina” e “loco”, deve deixar a mulherada com orgasmos! Como é? Liberdade de expressão? Se for por isso vou começar a andar pelado na rua, vou exercer minha liberdade de expressão! Isso é ridículo! Esses garotos mal sabem falar o português e usam aquelas roupas americanizadas, de raper, jogador de basquete, skatista...e por aí vai. Ora, por favor! Tudo bem, eu sei que existe gosto para tudo, mas aquilo já não é mais gosto é falta de opção, e tu não estavas com falta de opção. Vós já vistes como eles caminham? Se embalançando pra lá e pra cá, se arrastando, parecem que estão cagados. E você me trocou por aquilo? Por Deus! Eles bebem cerveja, cachaça, pinga, tudo com um só nome: Trago. É essa vida que você quer? Depois não vai voltar correndo para min dizendo que cometeu o maior erro da sua vida. Esse garoto por quem tu me trocaste fuma como um dragão, e cigarro é para momentos de lazer, o que eles gostam é de maconha mesmo, eles querem ficar doidão “prás mina” acharem bonitinho. Aí é óbvio que a sociedade não evoluirá, eles não gostam de estudar, e não se interessam pelos problemas que o país venha a ter. Justamente porque eles acham que não é problema deles. O que eles se preocupam de verdade é com o dinheiro do pai, pra bancar roupas e a escola que reprovam várias vezes. Muitos deles nem tem os pais para os bancarem, muitos roubam. Mas agora é nisso que você viverá. Esqueça as aulas de espanhol que lhe dava com tanta paciência. Aulas de violão? Não lhe ensinarei mais nenhuma nota! Você não terá mais nada disso! Vai aprender a andar de skate ou jogar basquete. Não que isso não tenha futuro, mas deve saber escolher as pessoas certas para ensinar o que, de fato, sabem, e não que se rotulam. Você vai namorar com esse marginal, vai casar com ele, vai viver apanhando e ele vai te trair. Mesmo assim vocês não deixarão de ter filhos, e serão vários. Pobre é assim, tem bilhões de filhos e nunca consegue sustenta-los. Aí mandam para sinaleira arranjar um dinheirinho para janta. Esses filhos vão crescer e uma grande porcentagem deles vai ser a cópia viva do pai. Não vai se interessar por estudo, vai acabar roubando, indo para o tráfico, matando pessoas inocentes achando que está comandando uma revolução socialista. Provavelmente esse seu filho morrerá cedo, já que a vida no tráfico é curta, ou você mata ou morre. Um dia ele não vai conseguir mais matar. E você vai olhar para trás e se arrependerá profundamente. Eu já vou estar formado em medicina, fazendo mestrado em Londres, e tu lá com filhos marginais e o marido com seqüelas. Mas que saber? Tu mereces isso e muito mais! Se tu sentes atração por pessoas assim, é porque tu fazes parte do mesmo ciclo, e mulheres que se relacionam com pessoas desse nível são mulheres que não se dão o valor. E sabe do que mais? Não fico com mulheres que não se dão o valor, pois o valor é resultante do respeito e o amor a si próprio, enquanto você não tiver isso, nunca conseguirá enxergar tudo o que fiz por você. Adeus.”
sexta-feira, 6 de abril de 2007
Sejamos Ignorantes
Sofrer não é ruim. Mas também não é bom. Sofrer não é aprender. É saber escolher. É saber tomar a decisão certa, na hora certa e na ocasião certa. Como tomar esse tipo de atitude? Sofra, apenas sofra. Pode ser de amor, de revolta, de ódio, de alegria, de inexistência. Seria equívoca a resposta que daria, que, sentir dor, ou qualquer outro sentimento impregnado pelos ignorantes é mais uma das tantas formas afáveis de se expressar. Ora, não sejamos tolos, nosso planeta esta doente, não precisamos infectá-lo com vírus de precedência estúpida.
Respeite sua mãe, respeite seu pai, não bata no seu cachorro, abrace seus irmãos. Não reclame da comida, e lembre-se que existe alguma criança no mundo que não pode reclamar da comida que não tenha. Lembre-se que arrumar seu quarto tem o mesmo significado de dá ordem a sua vida. Lave a louça! E esfregue uma vez na sua existência a sua própria cueca, para você saber o quão difícil é realizar atitudes e atos solidários sem ser reconhecido. Experimente os malefícios que o mundo ignorante lhe impõe, mas tome cuidado! Não se vicie, nem todos os ignorantes são viciados, você não precisa ser o pior deles.
Faça parte dos neutros, aqueles que se consideram bons. Bons de verdade, o bastante para não conseguir comprovar o que de fato se intitulam. Não perca tempo, ele é valioso, em um minuto você pode salvar uma vida, em um segundo você pode matar outra. Nós temos poderes, poder é uma maneira de cumprir a ignorância que tanto nos aflige, enganosamente, pois às vezes somos felizes. Pense que você dará frutos a novos ignorantizinhos, você também terá filhos, eles vão lhe acordar de madrugada, arrotar na mesa, sujar a toalha de banho no jardim, quebrar os seus objetos preferidos, eles vão ter cicatrizes, vão se machucar, afinal isso comprova que eles praticaram o ato da ignorância. Eles irão crescer, chegará à fase de conhecimento corporal, onde eles começarão a sentir mudanças, calores, excitação, farão sexo, serão vulneraríeis a outras doenças, e você ficará pasmo de como o tempo passou rápido: já é avô.
Entenda que você não poderá controlar tudo, nem todos, existirão pessoas que lhe tratará como um ídolo, mas não espere isso do seu filho, geralmente esse reconhecimento acontece muito tardiamente, por muitas vezes, quando você não estiver mais presente. Espere essa idolatria do seu animal de estimação, é o único ser irracional que é mais racional que nós mesmos. Se não tiver um, adote. Se não gostar de animais, aprenda a gostar. Também existirão pessoas que não vão gostar de você, entenda que ninguém é obrigado a gostar de ninguém, e que ser contra essa reação é ser contra os seus anseios.
Não dê valor ao seu dinheiro, ele é o único meio pelo qual você dá importância no final do mês. Políticos continuarão a roubar, os preços continuarão a subir, e pessoas continuarão a se matar. Entenda que essa é a nossa reação em cadeia e não há amizade que dure. Você sentirá saudade de quando era jovem, sentirá falta de sua força física, dos amigos da faculdade, dos amigos de trabalho, dos seus filhos quando eram pequenos, sentirá falta do seu pai, e vai compreender que a dor voltará sempre, dia pós dia. Porque nós somos todos ignorantes, e ignorantes não sabem tomar atitudes na hora certa, no momento certo e na ocasião certa. Nós todos erramos. Mas não se ofenda com o termo ignorância, pois muitos dos ignorantes nem sabem que são.
sábado, 31 de março de 2007
Cachorro Siberiano

- Aceita uma carona? – Perguntou ela com um olhar de carinho, de afeto, de preocupação.
- Claro. – Dissera eu um pouco assustado com tal atitude da moça. Ela aparentava ter no máximo dos máximos 25 anos, na flor da idade, bem sucedida, devia ser inteligente, tinha cara de quem falava o português correto.
- Abre o porta-luvas. – Disse ela, num tom rígido.
Abri. Vi um revolver calibre 38, estava carregado. Fiquei alarmado.
- Pegue a arma e aponte para min.
- O quê? Só pode estar brincando, porque eu faria isso?
- Você não pode negar um pedido de uma mulher, pode?
Ela fez uma cara de quem estava solitária e carente, só pediu para eu levantar a arma à altura de sua cabeça, o que tinha de mal nisso? Não tenho a intenção de matá-la, nunca matei ninguém. Até porque matá-la seria um verdadeiro desperdício. Que loira! Peguei a arma tremendo e a apontei.
- Como é seu nome? – Perguntou ela.
- Rodolfo Armildo.
- O que você faz da vida, Rodolfo?
- Eu era Jornalista.
- Era?
- Fui demitido.
- Há quanto tempo?
- Já faz seis meses.
- De qualquer forma você não deixa de ser um jornalista só porque foi demitido.
- Como?
- Você ainda é um jornalista.
Falei que ela tinha cara de quem falava o português correto. Todo esse papo fluía com a arma apontada para sua cabeça.
- Pois bem, Rodolfo, hoje é seu dia de sorte, sou uma executiva de uma grande emissora de televisão européia. Tu manjas inglês?
- Sim, fiz intercambio no Canadá durante dois anos.
- Qual é sua especialização, Rodolfo?
- Trabalhava com telejornalismo.
- Hum, interessante, vamos fazer um teste de vídeo, se tu se saíres bem, estará contratado.
- Posso abaixar a arma agora?
- Ainda não.
- Por que isso?
- Preciso da tua ajuda, vamos realizar um assalto.
- O que? Por mil carambolas! Estás louca? Eu não vou assaltar nada!
- Tu queres um emprego ou não quer?
Naquele momento comecei a pensar no meu carro estragado, meu cachorro abandonado, minha casa caindo aos pedaços, estava sem dinheiro e com fome. Aceitei.
- Tudo bem, o que eu devo fazer?
- Beije-me!
- Como?
Ela grudou-me um beijo saboreante, senti seus ardumes palpitando meu corpo, fiquei excitado, em todos os sentidos.
- Por que tu me beijaste?
- Tu és um cara atraente.
- Sério?
- Sério.
Gostava de mulheres de iniciativa. A arma, no entanto, continuava apontada. Meu braço já estava cansando.
- É aqui! Chegamos. Atire em min.
- O que?
- Atire em min!
- Eu não vou atirar em te!
- Atire em min e verás se de fato morrerei.
Não sei o que aconteceu comigo, por impulso, atirei nela. Entrei em desespero. Ela caiu no chão sangrando, a porta do carro abriu-se com o impacto, e lá estava ela sangrando por todos os lados. Uma mulher linda daquelas não poderia jamais morrer. Comecei a chorar, e abruptamente ela se levanta:
- Deu certo! Ajuda-me a levantar.
- Mas, como? Tu não morreste? Tu não morreste! Caramba!
- Devo estar tendo um pesadelo! E esse sangue?
- É artificial.
Ela levantou a blusa e mostrou-me seu colete a prova de balas com sangue artificial em plastificado. Igual aqueles usados nos filmes de Quentin Tarantino. Sempre fui fã de Quantin Tarantino.
- Sou fã do Quentin Tarantino, gostou da minha desenvoltura? – perguntou ela.
- Tu quase me mataste de susto! Espera aí, tu disseste que é fã de Quentin Tarantino?
- Disse.
Será que havia encontrado a mulher de minha vida? Não conheci uma única mulher que gostasse de Quentin tarantino.
- Chega de Papo. O cachorro está no banco de trás?
Olhei para o banco traseiro e de fato vi um cachorro siberiano, dormindo, devia estar dopado.
- Espera aí, como esse cachorro veio parar aqui?
- Enquanto tu choravas pela minha falsa morte, um homem colocou o cão no carro sem tu perceber. Havia combinado isso.
- Mas por quê? Com que finalidade? Simular uma morte para seqüestrar um cachorro? Tu não bates muito bem, não!
- Isso é uma longa história, vamos embora.
Ela dirigia muito rápido, fomos para um motel.
- Você vai fazer amor comigo – Disse ela.
Fiquei mudo, e com medo. Botei a mão no bolso à procura do meu canivete, mas não encontrei.
- Ei, onde está meu canivete?
- Está comigo. Por precaução.
Ela se aproveitou daquele beijo para roubar-me o canivete.
- Responda-me sinceramente, porque me deu carona? Nem me conheces!
- Tu não és casado.
- Como sabe?
- Pelo teu beijo, percebi que não é casado.
- Mas o que isso tem haver?
- Tudo bem, Rodolfo, você quer uma explicação plausível? Então lhe darei! É o seguinte, Rodolfo, não sou feliz com meu marido. Estava solitariamente dirigindo pela rua quando o vi sentado com um canivete na mão, logo pensei que vós pudésseis me estuprar e me matar, seria algo perfeito. Preferiria morrer depois de sentir algum prazer, do que viver com aquele trouxa que não consegue me fazer feliz na cama! Entende Rodolfo? Ele não me satisfaz!
Olhava-a atentamente, com os olhos esbugalhados. Ela continuava:
- E sabe do que mais? Tu pelo contrário, não me fez nada! Parecia estar com medo de minha atitude, mas por sorte nessa mesma noite teria que buscar um presente que eu mesmo me dei, um cachorro siberiano! Sempre gostei de um Cachorro siberiano! Por que diabos não posso ter um cachorro siberiano? Já que não sou feliz na cama, posso ao menos ter algo que eu sempre desejei.
- Eu também sempre gostei de cachorro siberiano. - Disse eu, sem muito rumor.
- Pois bem, havia combinado com um pilantra lá da vila, ele me conseguiria um cachorro siberiano em um preço bom e a raça pura, sabe que não existe cachorro siberiano no Brasil, não é?
- Sim é claro. Mas por que a simulação?
- ah, aquilo, de fato não foi planejado, antes de encomendar o pedido havia dito ao tal pilantra que viva ou morta eu queria o cachorro siberiano. Ele disse-me que se eu estivesse morta ele dar-me-ia de presente. Sairia mais barato eu forjar minha morte, tu não achas?
- Tu és louca!
- Sou mesmo, fato é que o pilantra ficou com medo de te, e fugiu, deixando apenas o cachorro siberiano no banco de trás.
- Ele (cachorro) vai dormir por quanto tempo? – Eu perguntei. Já me habitualizando com a situação.
- Acho que por umas doze horas, ele está dopado.
Houve um silêncio abrupto depois desse diálogo. Até que ela retoma a conversa.
- Tu me desejas?
- Como?
- Tu sentes atração por min?
Fiquei com receio de responder, afinal, não sabia com que tipo de mulher estava lidando. Mas fui sincero.
- Sim, tu és uma mulher deslumbrante, só me assustou um pouco.
- Um pouco?
- Tudo bem, bastante. Mas uma coisa tu não me explicou, por que me disse que seria um assalto?
- Pra te deixar mais vulnerável.
- Como assim?
- Disse que seria um assalto pra te justamente ficar com medo e nervoso, as pessoas quando estão nervosas fazem coisas sem pensar e por muitas vezes, só no impulso. Foi por isso que tu atiraste em min. Não foi porque tu quiseste, mas foi porque estava nervoso e realizou o primeiro ato que veio a sua cabeça.
- Nossa, nunca parei para pensar nisso.
- Chegamos ao motel. – Disse ela.
Estacionamos, fomos à recepção, pegamos a chave do quarto, tudo isso sem uma palavra, no mais puro silêncio. Entramos no quarto, ela disse que ia tomar um banho antes, respeitei sua vontade e deitei-me nu na cama redonda e com um espelho no teto.
Aguardei ansiosamente, no fundo, não sabia porque estava fazendo aquilo, era como se eu estivesse no meu inconsciente realizando atos não subtendidos. Ela chegou nua na beira da cama e disse:
- Está pronto, Rodolfo?
- Prontíssimo!
- Então me faça feliz!
Fizemos amor intenso, gozamos no ar da alacridade alheia, nunca uma mulher havia-me saciado meu desejo sexual por completo, ela tinha classe, ela me fez feliz. Depois de algumas horas, já tapados por um lençol fino e molhado de suor voltamos a dialogar em um estágio bem mais íntimo:
- Nossa, Rodolfo, tu é o amor da minha vida.
- Eu digo o mesmo.
- Chamo-me Flávia. Desculpe por não ter me apresentado antes.
- Tudo bem. Valeu a pena esperar.
- Quero que tu se cases comigo, vamos juntos para Europa, deixarei meu marido.
Eu e ela nesse ponto já estavamos fumando um cigarro, na cama, e apenas pensei:
Estava bem, com emprego garantido na Europa, uma mulher que me amava e me satisfazia. E o melhor, eu também a satisfazia. Tudo isso por causa de um simples cachorro siberiano. Displicências da vida. Mas havia duvidas pendentes. Por que ela, de fato, furtou-me o canivete?
domingo, 25 de março de 2007
A essência da beleza
A essência da beleza
Baita fresco! – Disse ela. Nunca fui fresco, apenas sentia frio. Mas isso era difícil para ela entender, assim como também era difícil ela saber das coisas que eu gostava. Era não saber o que eu estava pensando naquele exato momento. De fato, aquela guria não servia para min. Ela tinha a pele muito clara, eu prefiro as morenas. Agora, se vem uma loira bem bronzeadinha, hum – coisa boa.
Tudo bem, não quero que pensem que sou um tarado pervertido. Mas tenho minhas preferências. Quem nunca sentiu atração por uma ruiva, mas uma ruiva bem turbinada, com grandes saliências e curvas voluptuosas. Quem nunca ficou excitado ao ver uma loira de biquíni na beira da praia jogando frescoboll. E as morenas, claro, dispensam comentários.
É assim que muitos homens pensam e fazem das mulheres seus objetos de desejo sexual. Não importa se ela sabe ou não cozinhar, se ela tem pós-doutorado ou se viajou para Tangamandápio. Desde que tenha um peitão, um bundão, e um par de coxas bem definidas não diferente da barriga, já ta tri. É, nós homens somos bastante exigentes. Logo, as mulheres também têm esse direito. Elas querem homens com barriga de tanquinho para lavar roupa, umas pernas bem grossas com umas coxas musculosas e os braços, ah, esses devem ser definidos para os músculos exaltarem-se sob a camisa. Coitado de min. Nunca chegarei a esse perfil.
Acho ridícula a maneira que nós, a sociedade, impõe sobre a beleza física. A beleza física para min está nos detalhes, nos traços, na maneira de agir, falar, caminhar. Cada um tem uma fisionomia obviamente diferente. Ninguém é igual a ninguém. Até os gêmeos são diferentes. Querer, desejar, almejar, aspirar uma pessoa por ela ter um busto avantajado e um bumbum empinado é ignorância. Depois ela vai ficar velha, não esqueça de que as pessoas envelhecem, e se você até a velhice continuar desejando pessoas pela beleza física vai morrer sozinho. A beleza mais importante é aquela que vem de dentro para fora, que contagia a parte externa do corpo. E para você, apenas para você, aquela pessoa torna-se a mais linda, a mais gostosa do planeta. Porque você a ama. Essa é a beleza que infelizmente poucos são capazes de enxergar.
Eu tenho minha barriga com alguns pneuzinhos, mesmo assim não estou privado de encontrar alguém que goste de min. Se cuidar é importante, sim. Ter uma alimentação balanceada, uma vida mais saudável esta receita de uma vitalidade longa. Mas não pire. Não fique paranóico(a). Esses dias vi uma garota reclamando para o namorado dentro de um salão de beleza:
- Amor! Olha que horrível meu cabelo! Está com várias pontas onduladas, Meu Deus!!!
- Pára de frescura, Nega. Isso não é nada, eu nem lavo meus cabelos direito e tu aí se estressando por bobagem. – Disse o namorado muito preocupado.
Coitado. Naquele momento eu pensei: Ele assinou sua sentença de morte. A sua namorada estava muito fora de si, ela estava com os olhos arregalados e o sabor da ira visível em sua performance facial. Lembro-me de sua sombrancelia realizando movimentos leves, subindo e descendo. Aquele cara tava literalmente ferrado. Sai dali antes que sobrasse para min.
Olhei pelo vidro do salão e nunca vi em toda minha vida um namorado levar tantos tapas e empurrões. Ele ficou roxo. Hematomas eram meros detalhes. Nunca, eu disse nunca diga a uma mulher que ela está gorda ou que seu cabelo é uma bobagem. As conseqüências podem ser catastróficas.
Isso tudo é a loucura por se tornar perfeito fisicamente. Se essa for sua meta, desista. Por mais que não pareça, nem o Brad Pitt ou a Angelina Julie são perfeitos o todo. Comece dar mais valor a você mesmo. Seja você mesmo. Isso já vai contribuir para sua verdadeira beleza vir à tona.
sexta-feira, 9 de março de 2007
Abstinência
terça-feira, 27 de fevereiro de 2007
Volta às aulas

Acordei nervoso, passei o dia com aquele friozinho na barriga. Era estranho. Mas para min o primeiro dia de aula sempre é um nervosismo total e eu nunca soube explicar o porquê. Ainda assim, eu suava como um chafariz. Minha camiseta social azul clara tornou-se escura com o passar do tempo e do calor descomunal. Entrei no campus da Unisinos e aos poucos fui me acalmando. E me acalmei.
Eram tantas mulheres, mas Mulheres de verdade. Não era qualquer ninfeta caloura, estou falando de mulheres maduras, já experientes, no final do curso provavelmente, com aqueles trajes extremamente sedutores. Estava no paraíso, e estava apenas no campus. Imagine lá dentro da sala de aula, com aqueles decotes e mini-saias à meia altura de minha cadeira; teria uma visão privilegiada e invejada por muitos brutamontes que se julgam “pegadores”. Detesto esse termo.
Até aí tudo bem, o problema que sofro de uma deficiência chamada “desprovisação de altura”. Considero-me um cidadão de estatura mediana, mas perto de todas aquelas mulheres me senti um anão ao lado da branca de neve. Nessas horas que eu queria ser alto. Porém, em outras contento-me com a que eu tenho. Sabe que horas são essas? As dos abraços!
- Quanto tempo Fernandinha!!!
- Oi, Luan, meu querido!
Encaixei-me respeitosamente entre suas montanhas. Meu rosto definitivamente penetrou naquele busto de maneira imperdoável e inflexível. Sem chance de recuar. Pena que durou pouco passou no máximo cinco segundos. A Fernandinha é uma das minhas grandes amigas de universidade. Ela esta sempre pronta para me ajudar com qualquer dúvida relacionada à disciplina, mesmo sendo eu quem tira suas dúvidas. Ela me ajuda. E se não fosse por ela, a aula não teria graça.
Olhava para o lado e não me atraia pelas colegas que estavam presente, nenhuma era do meu agrado. Olha aquela loira despeitada, que horror! Nossa, o que é aquela ruiva? Vocês viram o tamanho do seu quadril? Dá para estacionar um carro! E os cabelos daquela morena com sardas nas costas? Já apresentaram xampu para ela? Meu senso crítico estava realmente aguçado.
Foi então que percebi que o verdadeiro Luan estava de volta. Eu voltei! Não me atraia mais por qualquer par de pernas carnudas ou seios extravagantes. Tinha que ter conteúdo. Afinal, é isso que torna uma mulher de classe, ela deve ter conteúdo intelectual. Não estou dizendo que ela tem que ser uma Nerd, mas apenas tenha um nível básico de conhecimento, que não escreva abraço com dois S’s, e nem diga que seu livro preferido é o Menino de Asas. Por Deus! Que não seja eclética! Tenha alguma preferência, com um gosto refinado. Pode até ser pagodeira, mas seja autêntica.
O problema das pessoas solteiras hoje em dia é que muitas delas não são verdadeiras com os futuros pretendentes. É claro que nunca vai dar certo. O segredo está na sinceridade desde o início. Meu caro, se ela for gostar de você, ela vai gosta do jeito que tu és, e não vai pedir para você depilar as pernas nem cortar o cabelo em duas pontas e muito menos exigir que você adquira roupas de marca. O mesmo serve para a mulher, se ele for gostar de você, não vai ser porque você pintou o cabelo trezentas vezes e nem por que o salto de seu sapato é de 18 centímetros.
A principio o interesse carnal é o começo, a atração física pode ajudar. Mas depois se não rolar aquele clima, desista! Lá na Unisinos já me conformei com as beldades que volta e meia se atravessam na minha frente, elas são de parar o trânsito. Mas do que adianta se elas só servirem para isso? Para parar o trânsito já basta a sinaleira. Raramente tomo a atitude de olhar para trás depois que elas passam por min no sentido contrário. Digo raramente porque ninguém é de ferro. Todo mundo tem suas recaídas.
Vários amigos meus perguntaram-me por que eu sou solteiro. Minha resposta foi curta e grossa: “Estou tentando achar alguém que me interesse”. E que também não seja igual as ex-namoradas; por isso que são ex-namoradas. Não estou sendo exigente, não estou solicitando, por exemplo, que ela fale três línguas fluentes e tenha morado no exterior; não estou pedindo que ela seja uma escritora literária best-seller com notoriedade mundial. Apenas quero uma garota que goste de min, que goste de meu jeito, que aceite o mundo da forma como é, que não reclame das insignificâncias corporais. Alguém que eu possa gostar da mesma intensidade.
Tenho certeza que não preciso apelar para agências de namoro ou casos eróticos virtuais. Acredito que cada um tem o que merece, por tanto, nunca reclame do seu companheiro(a), ele/ela é fruto do que você lutou para conquistar. Também acredito que cada qual tem um tempo certo para acontecer. Não tenho pressa. E estou feliz com meu estado civil.
Até que esse primeiro dia de aula serviu-me para refletir sobre alguns valores que há muito tempo havia requisitado. Graças às pernas, coxas, seios e bundas. Quanta tentação.
domingo, 25 de fevereiro de 2007
Falso Seqüestro

Na medida em que o tempo passa percebo o quão doente nós seres humanos somos. Vai dizer que não? Pra começar hoje ninguém está imune de ser roubado. Mas para isso não é preciso mais sair de casa, a internet prende as pessoas de tal modo na frente do computador que acaba tornando-se um vicio impugnante. Os crimes virtuais ficaram tão corriqueiros como trocar de camisa ou tomar banho. O famoso “CLIQUE AQUI!” é o principal artefato de avisos que os mal-feitores da rede utilizam.
Mas é claro que isso não é o suficiente. Nós, estudantes, trabalhadores, pagantes de impostos e/ou beneficiários do INSS, é quem sofremos com a decadência da situação social do país. Estou errado. Na verdade há poucos dias o ministro da fazendo Guido Mantega foi assaltado em quanto estava solertemente desfrutando suas férias em uma chácara na cidade de Ibiúna. Falei que não precisava sair de casa, se Maomé não vai à montanha, a montanha vai a Maomé. Isso torna visível que os criminosos estão sendo mais justos. Eles agora não estão poupando os parlamentares ou qualquer outra autoridade hierárquica da República.
A situação esta fora do controle. Tem ainda aqueles que ligam se passando por seqüestradores. Falam que estão com um membro da família e exigem uma quantia exorbitante para o resgate.
Leia essa história que me contaram:
Numa dessas ligações seu João Ribellino foi quem atendeu. Um morador da pacata cidade de Feliz que exerce a profissão de agricultor. Ele não possui grandes valores materiais, tem dois filhos adolescentes e sempre buscou dar o melhor para eles. Em uma madrugada de sexta-feira seu telefone toca; seu João fica em alerta, pois já tinha conhecimento desses casos de falso seqüestro noticiado pelos jornais. Seus dois filhos, porém, não estavam em casa. Ele decidiu ser cauteloso:
- Alô, quem é?
- Não desligue o telefone, estou com seu filho, isso é um seqüestro. Se chamar a polícia ou desligar o seu filho morre.
- Olhe, meu camarada, eu tenho problema de audição, será que o senhor poderia falar um pouco mais alto? Normalmente à noite meus tímpanos não funcionam ao todo.
- O quê? Você está brincando com fogo meu senhor! Quero o dinheiro para o resgate até de manhã ou seu filho vira pó.
- Heim? O que tem o fogo? Eu não tenho aspirador de pó!
- Eu não quero aspirador de pó seu velho surdo! Quero o dinheiro para o resgate ou seu filho morre!
- Olha meu senhor, são três e meia da manhã, não entendi o que tem a ver o fogo com aspirador de pó. Será que você poderia ser mais claro?
- Escute aqui seu velho babão, quero 10 mil reais até o amanhecer, ou....
- Me deixa adivinhar, ou meu filho morre? Essa parte eu entendi, mas o que ele fez? Ateou fogo em seu aspirador de pó? Fica calmo meu senhor eu pago um aspirador novo para você, sabe como são essas gurizadas de hoje em dia. Tudo pela adrenalina.
O falso seqüestrador se mostrava pasmado com a atitude de seu João e decidiu assustá-lo dando um tiro no chão. Seu João ouviu o barulho e disse:
- Saúde, meu senhor!
O bandido se mostrava extremamente apoquentado e fez seu último apelo.
- Chega de brincadeira, seu velho! Quero 10 mil reais até amanhã!
Seu João começou a rir insanamente e deixou o seqüestrador sem palavras. Mas eram gargalhadas altas e possantes, daquelas de ficar sem ar.
O seqüestrador toma a palavra e pergunta:
- Não estou entendendo. Acha que é brincadeira? Acha que não vou matá-lo agora?
- Só pode estar brincando! Um aspirador de pó que custa 10 mil reais?
Seu João voltou a cair nas gargalhadas acobardantes. De repente ele ouve seus filhos chegando em casa e decide pregar uma peça para o falso seqüestrador. Por meio do identificador de chamadas que ele ganhara de um dos seus filhos de Natal, seu João toma tal atitude:
- Desculpe, não estou mais ouvindo você, a ligação está péssima! Ligue-me ao amanhecer, meu senhor, tenha uma boa noite!
O bandido realmente não acreditara no que tinha ocorrido e não retornou a ligação. Ao contrário de seu João que esperou passar uma hora para ligar para o falso bandido. Com uma voz mais grossa para não ser reconhecido, ele espera o mal-feitor atender e diz:
- Não diga nada, isso é um seqüestro, se desligar o telefone ou chamar a polícia sua mãe morre!
Disseram-me que nunca nenhum falso seqüestrador voltou a ligar para a cidade de Feliz.
sábado, 17 de fevereiro de 2007
Carnaval traumatizante

Estávamos com tudo pronto, vestimentas amarelas com um sapato verde e não podia faltar o óculos de três metros quadrados. Aquele óculos coloridão, que, se tu mexias a cabeça para o lado já acertava o passista que estava a meio quilometro de te. Pois bem, depois de tudo isso estar devidamente acertado o meu outro amigo que me acompanhava nesse carnaval, o Lombriga, gritou-me:
- Hei Luan, qual é o nome do nosso bloco?
Por mil ampulhetas! Nosso bloco não tinha nome! Rapidamente decidimos num piscar de olhos. E o Fadiga, pra variar sempre ele, estava tentando abrir uma caixa de papelão com um martelo, foi aí que eu disse:
- Que tal alguma coisa com Unidos da.....
Ao mesmo tempo o Fadiga acertou o martelo em seu polegar da mão esquerda, e rugiu:
- Só pode ser macumba!
Bom, a frase se formou desse jeito, e naquela altura do campeonato não tínhamos tempo para pensarmos em algo melhor.
No dia do desfile não havia nada no mundo pior que o nosso bloco;
- E lá vem os Unidos da Macumba, minha gente!
Foi uma loucura, combinamos uma entrada triunfal na avenida. O primeiro a entrar era o Lombriga, com seu 1,60 metro, 58 quilos muito bem distribuídos ele sambava como ninguém, nisso eu invejava-o. Em seguida ia o Fadiga com seu 1,75 metro. Ele era magro, seus 45 quilos o fazia desaparecer naquela roupa, mas ele sambava muito bem. O último e não menos triunfal, seria eu, entrei tropeçando porque nunca soube sambar de fato, e foi num desses tropeços que a maior gafe da minha vida veio à tona.
Imagine uma cena hilariante, extremamente cômica ao ponto de se urinar nas calças. Essa deve ter sido a reação do publico que acompanhava o desfile. No momento em que tropecei de uma forma abrupta, escorreguei no piso que estava molhado em função do suor de todos que sambavam na avenida. No meu escorregão, meu corpo se afastou do eixo central, onde nosso bloco desfilava, e acidentalmente esbarrou no Fadiga que por impulso esticou seu braço direito de forma letal ao meu rosto. Isso tudo foi o suficiente para min ir rolando de encontro ao carro alegórico.
A minha sorte é que o carro alegórico é bem largo, por tanto as rodas passaram em uma distância de quatro a cinco metros do meu corpo. Pude ver toda a estrutura daquele brutamonte passando por cima de min. O mais fascinante é que meus amigos não deram por minha falta, a não ser lá no final do desfile, após uma hora.
Desde então decidi que nunca mais faria parte de nenhum bloco carnavalesco. Atualmente só pulo carnaval em clubes ou lugares que não contenha carros alegóricos. Essa experiência me fez abrir os olhos para uma lição: está na hora de aprender a sambar.
terça-feira, 13 de fevereiro de 2007
Tenha uma boa memória
Sempre tive uma memória seletiva, aliás, minha memória por muitas vezes entrou em paradoxo nos comentários de algumas pessoas; uns diziam: “O Luan tem uma ótima memória”; outros, no entanto: “o Luan tem uma péssima memória”. Por isso sempre foi seletiva.Certo dia estava praticando minha caminhada diária quando percebo uma senhora de meia idade olhando para o chão. Mas olhando minuciosamente, como se estivesse procurando algo, pelo jeito, algo de muito valor, tamanha concentração. Aquilo me deixou intrigado e ao mesmo tempo eloqüente; por que diabos uma senhora daquelas olhava para o chão sem piscar, sem intervalos de tempo, nem para levantar o pescoço e descansar um segundo que seja? Era esdrúxulo, bizarro.
Aproximei-me lentamente; nunca se sabe o que estar por vir, no mundo de hoje não é loucura imaginar que uma senhora possa te assaltar e depois levantar a blusa e explodir uma bomba relógio. Cheguei a ficar ao menos três metros de distancia e mesmo assim minha curiosidade não foi saciada, não conseguia enxergar o que ela estava procurando. Em outras palavras, não conseguia enxergar o que ela enxergava.
Naquele momento várias hipóteses passaram pela minha cabeça em questões de segundos, será que ela fugiu de um manicômio? Eu podia estar correndo perigo perto daquela senhora aparentemente pacífica. Resolvi ser macho, criei coragem e cheguei mais perto dela que continuava imóvel com a cabeça para baixo; agora um detalhe importante – a cabeça dela estava voltada em um ângulo de 45° graus para baixo, mas o pescoço estava imutável. Por um momento eu não acreditara no que estava vendo, os membros de seu corpo não estavam normais, como ela conseguia ficar de pé?
Essa dúvida continuou comigo por todo o meu percurso, passei rapidamente pela senhora, e fui até o final do caminhodromo para depois voltar numa velocidade muito acima do que a de costume. Estava me aproximando novamente daquele ser sobrenatural de meia idade cuja cena não era perceptível a minha consciência. Dessa vez olhei atentamente e fixei minha visão de tal modo que pude ver além das camadas de concreto, estava muito sã para ser fruto da minha imaginação. Cheguei a um metro dela tentei um diálogo amigável:
- Senhora está tudo bem?
Segunda tentativa:
- Senhora está tudo bem?
Nada de responder, nem sinal de mobilidade dela.
Foi então que olhei para o lado e vi várias pessoas rindo de min, não entedia o porquê, mas por fim lembrei.
Durante anos eu caminhava nessa rua, mas havia me esquecido que aquela senhora que me deixou tão abismado não era um ser humano e sim um espantalho que ficara ali para servir de acompanhante a um morador de rua.
Falei que minha memória era bastante seletiva.